Ser ou não ser, eis a questão… (ato III, cena I, p. 572).¹
Esta edição do Bendita Leitura inicia-se com uma das mais célebres frases da Literatura Ocidental, proferida pelo personagem Hamlet, na obra homônima, quando este se encontrava ante um dos grandes conflitos da peça: suportar os sofrimentos oriundos da morte de seu pai, o rei dinamarquês, tendo de ver o seu tio assumir o trono real e, logo em seguida, casar com sua mãe, a rainha Gertrudes, ou tornar público tudo aquilo que ouviu por meio do espectro (espírito) do seu falecido pai, que lhe revelou que sua própria morte ocorrera por um estratagema de Cláudio, tio de Hamlet, que, aproveitando-se do cochilo do rei, derramou veneno em um dos seus ouvidos.
Essa é a base para o aprofundamento dos grandes embates que durante toda a peça são expressos na figura de Hamlet, e que elevaram a dramaturgia shakespeariana a uma esfera que somente os grandes escritores podem atingir. É, de fato, o maior feito do dramaturgo inglês que, através do seu principal personagem, revela-nos alguns dos principais dramas da consciência humana.
Escrita por volta de 1602, no período em que Shakespeare desenvolveu suas principais obras, a peça apresenta em torno de cinco atos (ou capítulos) e tem como centro a figura do príncipe Hamlet que, após a morte do pai, cerca de dois meses antes do início da peça, ainda permanece de luto, não acreditando que a morte do monarca tenha sido algo meramente acidental. O que o deixa ainda mais estarrecido é, além da morte do pai, a tomada de poder do seu tio Cláudio e o seu casamento com a rainha, sua mãe. Hamlet, do começo ao fim da peça, é alguém marcado pelo conflito consigo mesmo, com o destino, com o seu tio e com sua mãe, possuindo apenas como amigos Horácio e Ofélia.
O drama se aprofunda com a entrada do espectro do falecido rei, pai de Hamlet, que aparece ao filho, relatando-lhe a própria morte, como um assassínio de seu tio. Tendo consciência da morte do pai pelo seu tio, e da usurpação deste ao trono real, Hamlet aprofundará os conflitos interiores já apresentados, adensando-os pela perspectiva de uma vida pós-morte, e passando também a tramar como vai revelar tudo a todos.
Evidentemente, para tratarmos com maior profundidade da peça em questão necessitaríamos de um estudo mais detalhado, tamanha é a sua densidade. Mas o que pode ser elencado como fundamental é, sobretudo, a mudança teatral operada por Shakespeare, sobretudo, com a peça Hamlet. Para entendermos melhor essa mudança Harold Bloom, um dos principais especialistas da obra do dramaturgo inglês diz:
Antes de Shakespeare, os personagens literários são, relativamente, imutáveis. Homens e mulheres são representados, envelhecendo e morrendo, mas não se desenvolvem a partir de alterações interiores, e sim em decorrência de seu relacionamento com os deuses. Em Shakespeare, os personagens não se revelam, mas se desenvolvem, e o fazem porque têm a capacidade de se auto-recriarem. Às vezes, isso ocorre porque, involuntariamente, escutam a própria voz, falando consigo mesmos ou com terceiros. Para tais personagens, escutar a si mesmos constitui o nobre caminho da individuação.²
Como é próprio das peças teatrais o conflito é a base pela qual se desenvolve todo o drama. Em Shakespeare, vemos que este conflito se torna mais interior, sendo a sua repercussão uma consequência dessa primeira inflexão. Assim, Shakespeare apresenta as tensões internas como também essenciais para se compreender o homem e a sua consciência, abrindo, portanto, um espaço, que até então não havia sido tão explorado anteriormente, mas que a literatura posterior irá aprofundar de modo inovador.
Referências
1 SHAKESPEARE, William. Tragédias: teatro completo. Tradução de Carlos Alberto Nunes. Rio de Janeiro: Agir, 2008.
2 BLOOM, Harold. Shakespeare: a invenção do humano. Tradução de José Robert O ´Shea. Rio de Janeiro: Objetiva, p. 2000, p.19.
Ficha
Ano: 2010
Páginas: 152
Editora: Martin Claret

