A vida transborda em todos os cantos.
_____________
Peço-vos licença para dar-lhes um afago nesta quarta-feira: um Bendita Leitura poético. O que eu vejo como um presente, no tempo confuso em que vivemos. Admiro os poetas porque me ajudam a ler a vida de forma incomum. Me permitem encontrar nas entrelinhas de uma poesia as minhas situações e colocar nestas mesmas entrelinhas o que mais ninguém colocaria igual, fazendo com que os versos, mesmo que sejam para todos, se tornem, no momento da leitura, só meus. A poesia tem esse caráter universal e pessoal. Para todos e para mim, para você. Que verdadeiro deleite!
Certa vez, li que a castidade é um dom que nos permite ler a vida de forma poética e que, por sua vez, a leitura poética da vida é chave para escolhas castas cotidianamente. O que é contemplado com beleza, é possível de ser tocado através de uma perspectiva divina. A beleza nos faz enxergar o rosto de Deus em cada detalhe. Apresento-lhes, então, o poema Noite, de Cecília Meireles.
Poderia falar do livro inteiro que acabei de ler, mas escolho falar dessas poucas linhas e quem sabe ganhar o seu coração para lê-lo por completo. Não como uma análise linguística, mas como uma partilha de um coração tocado pela métrica das palavras.
Noite
Cecília Meireles
Tão Perto!
Tão Longe!
Por onde…
É o deserto?
Às vezes, responde,
de perto, de longe.
Mas depois, se esconde.
Somos um ou dois?
Às vezes, nenhum.
E, em seguida, tantos!
A vida transborda
por todos os cantos.
Acorda com modos de puro esplendor.
Procuro meu rumo:
Horizonte escuro:
um muro em redor.
Em treva, me sumo…
Para onde me leva?
Análise
Em cada verso, as palavras ritmadas nos mostram um interior inquieto, procurando respostas que ora parecem possíveis de serem tocadas e em outro momento estão tão longe, que parecem mesmo que a voz que pergunta encontra um eco no deserto. A vida transborda por todos os cantos! Que significativo encontrar esse verso no meio desta confusão. Embora possa parecer perdido na confusão de sentimentos da autora, é uma espécie de declaração a si mesma e a quem vive com ela essa mesma busca. Essa corrida pelo sentido, que às vezes parece perto e outras vezes distante, escondida e aparente, solitária e preenchida, é o que se pode chamar de vida! É a vida acontecendo! A vida que segue o ritmo da métrica e acorda esplendorosa diante desta procura incansável dos nossos corações pela Infinitude. Busca diária, que nem sempre segue um caminho linear, nem mesmo fácil.
Ao procurar o meu rumo, encontro um horizonte escuro, um muro em redor. Essa é a vida transbordante que só tem para nos oferecer, por garantido, o agora. O amanhã, cheio de incertezas, é tão escuro e emurado, que nos ‘obriga’ a viver com intensidade o instante que temos nas mãos.
O que teria no coração de Cecília que habitava também no coração de Agostinho, quando inquieto não descansou até encontrar a Deus? Ou até mesmo no de Teresinha, que descobriu no hoje a possibilidade de conquistar o céu? Sedes parecidas e o mesmo lugar de saciá-las, portanto.
A poética e maravilhosa busca do coração humano por completude que se encerra no encontro com Aquele que é o Único, o Infinito e a Perfeição. Para onde nos tem levado essa procura incansável? Deixemos-nos levar ao infinito do Amor que é o único lugar possível de responder nosso grito cheio de questões e incertezas. O único Lugar que, ao ser encontrado, nos preenche com a paz e o descanso da chegada.
Nota: Para ler mais poesias de Cecília Meireles, a dica é o livro Flor de Poemas, da coleção Mestres da Literatura Brasileira e Portuguesa da Editora Record. Boa leitura!
Drica Sousa
Missionária na Comunidade de Vida Shalom
