Nada ou ninguém nasce totalmente acabado, assim, as pessoas, as ideias ou até mesmo as civilizações vão sendo constituídas e desenvolvidas através do tempo. Se falamos em termos históricos, passamos por vários períodos: pré-história, Idade Antiga, Média, Moderna e Contemporânea; se o assunto é o desenvolvimento tecnológico, estamos na era da informação ou era digital, que é o período posterior à era industrial e que começou nos últimos vinte anos do século passado. Outro exemplo são as fases de desenvolvimento humano que tratam-se, basicamente, de cinco estágios: infância, adolescência, juventude, fase adulta e velhice.
Por outro lado, se falamos em termos espirituais, este processo de desenvolvimento chama-se conversão, que é a mudança de direção da vida: partindo da triste condição do pecado humano, que gerou uma vida voltada egoisticamente para si mesmo, Deus propõe ao homem, através dos ensinamentos de Cristo, um giro de cento e oitenta graus, que direciona e ordena tudo para Ele, fonte da verdadeira vida e da verdadeira paz. Deste modo, a conversão abrange todos os movimentos interiores e exteriores do coração humano, preenchendo-o de sentido e dos altos e belos anseios pela santidade.
Este processo de evolução também ocorre com os escritores e suas obras, assim, na medida em que vão ocorrendo as mudanças próprias de sua humanidade (desenvolvimento social, emocional, educacional, espiritual etc.), estas vão influenciando no seu modo de escrever de uma forma tão perceptível, que dizemos que a sua obra possui várias fases literárias.
Partindo destas experiências e mudanças na vida e obra do escritor russo Fiódor Dostoievski, a dica de hoje traz um pequeno livro que marca a transição do autor, da fase do romantismo para o realismo. Estou falando do ótimo “Noites brancas”, escrito em 1848, período que antecede a experiência mais dramática de sua vida, quando foi preso e exilado na Sibéria.
O livro é narrado em primeira pessoa e seu título se refere aos dias mais longos do ano da cidade de São Petersburgo, quando a escuridão chega bem mais tarde do que o horário convencional. Em uma dessas noites, o Sonhador (personagem principal e narrador da história), sujeito introvertido e solitário, narra o seu encontro com a jovem Nástienka, em uma ponte da cidade. Ao perceber que a moça chorava, tentou aproximar-se para conversar, encantado com a beleza que irradiava daquele rosto triste, porém, cativante.
O fato é que a jovem esperava já há um ano por outro rapaz, que lhe havia prometido retornar à cidade para pedi-la em casamento. O prazo estabelecido para o retorno havia se esgotado e ela estava desolada com a falta de notícias do seu pretendente. O Sonhador, então, desenvolve uma amizade com a jovem e os dois passam, no decorrer de quatro noites, a se reencontrarem, a fim de compartilhar suas experiências de vida, suas esperanças e anseios futuros. A narrativa é agradável e o final é enriquecido pela expectativa sobre quem ganhará o coração de Nástienka, se o Sonhador ou o jovem que lhe havia prometido regressar para a cidade, a fim de casar-se com ela.
Por fim, resta dizer que trata-se de uma leitura que vale muito a pena, tanto pela qualidade da narrativa e da escrita, bem como, pela experiência de uma leitura que consegue, em poucas páginas, transportar o leitor diretamente para a Rússia de Dostoievski, cheia de romantismo, beleza e singeleza em seus personagens e histórias como esta, sobre duas almas que, no auge de sua juventude, viveram na idade contemporânea, em meio à era industrial, ambos meio perdidos e buscando por uma mudança de direção em suas vidas, e que se encontraram casualmente nas noites brancas e prodigiosas de São Petersburgo simplesmente para rasgar seus corações um ao outro, em uma fase de suas vidas na qual não desejavam outra coisa, a não ser falar e serem ouvidos por alguém que os compreendesse em sua solidão.
Ficha de leitura
Autor: Fiódor Dostoievski
Idioma: Português
Editora: Penguin
Páginas: 112
Boa leitura!


Sinceramente, esse livro é um saco. Se vc gosta de histórias açucaradas e melosas, pode ler, mas se não..Foi um dos primeiros livros do Dostoiévski que eu tentei ler, e quase me tirou a vontade de conhecer o autor.
Ah, e parabéns ao comshalom por essa seção de leitura. A literatura é arte, e a boa arte nos evangeliza!