Tudo o que Deus cria é bom, não é verdade? Inclusive, a Palavra nos ensina que quando Deus criou o homem à Sua imagem e semelhança, viu que era muito bom, assim, podemos concluir que todos nós fomos criados com este chamamento interior para a prática do bem.
Desta forma, quando exercemos uma atividade que tem o “fazer o bem” como meio e fim, nos sentimos realizados, enchemos a nossa vida de sentido e fazemos a experiência de, ao ajudarmos os que mais necessitam, nos sentirmos até os primeiros beneficiados.
Podemos dizer também que o exercício da bondade, além de uma vocação, é mesmo uma necessidade do homem, a fim de tornar-se precisamente aquilo para o que foi criado por Deus: ser reflexo de Sua comunhão de amor. Por outro lado, quando opta pelo mal, este mesmo homem não encontra outra coisa, senão uma total frustração no seu próprio existir.
Este chamado à bondade é tão latente no ser humano, que para os que realizam tais atividades filantrópicas, voluntárias, altruístas ou humanitárias, a possibilidade do exercício destas boas ações serem limitadas pelo cansaço torna-se um padecimento chamado síndrome do burnout.
E a dica desta semana é um excelente livro que visa ajudar exatamente estas pessoas que trabalham em prol do outro, mas que encontram-se nesta difícil situação de esgotamento laboral. Trata-se da obra escrita pelo psiquiatra e psicoterapeuta argentino Roberto Almada, intitulada “O cansaço dos bons”.
O livro aborda a problemática desta síndrome do desgaste profissional a partir de uma visão integral do ser humano, assim, o autor deixa bem claro que o cansaço não se dá por causa da oferta da própria vida em favor ao outro, mas por diversos fatores biológicos, espirituais, sociológicos, psicológicos e estruturais combinados, que necessitam ser identificados e tratados adequadamente.
Almada utiliza-se dos ensinamentos da escola logoterápica, desenvolvida pelo psiquiatra austríaco Victor Frankl. Durante a II Guerra Mundial, Frankl, de origem judia, à época recém-casado, foi aprisionado juntamente com sua esposa, desaparecida para sempre poucas semanas depois de ser presa, nos campos de concentração de Auschwitz e Dachau, e, tendo feito a experiência com uma das situações mais desumanas e desesperadoras que já existiram, compreendeu que, mesmo nas conjunturas mais extremas e inóspitas, é possível ao homem encontrar o sentido da vida e superar todas as adversidades, por mais absurdas que sejam, pelo exercício de sua capacidade de transcendência e liberdade interior.
Frankl sobreviveu aos dois campos de concentração mais letais da época, vindo a falecer aos noventa e dois anos, em 1997, tendo difundido seus preciosos ensinamentos sobre a Logoterapia em vários países do mundo.
Portanto, baseado nestes princípios da Logoterapia, Roberto Almada intenta o aprofundamento e a compreensão da questão da síndrome de Burnout, a fim de que, juntamente com o tratamento médico propício, os bons possam continuar exercendo a sua capacidade de autodoação e autotranscedência, tão fundamental para que o restante da humanidade continue também a encontrar sentido em tudo o que lhe é permitido viver.
No início do texto, afirmamos que todo ser humano é naturalmente bom, mas também relatamos um episódio do Holocausto, uma das maiores atrocidades já provocadas por estes mesmos homens, assim, mesmo não sendo o objetivo primordial deste artigo, vale a pena dizer que o mal é algo não-natural, que não faz parte da constituição original do ser humano, porém, tendo entrando no mundo através do pecado, o mal, assim como o bem, torna-se uma possibilidade de escolha do homem, que pode, segundo a liberdade que lhe foi dada por seu Criador, optar em fazer o bem e crescer em perfeição, ou decidir-se obstinadamente pelo mal e, assim, pecar e definhar até a sua total perdição.
O Catecismo nos mostra que o mistério da iniquidade humana só pode ser explicado à luz do mistério da piedade divina, porque “A revelação do amor divino em Cristo manifestou ao mesmo tempo a extensão do mal e a superabundância da graça. Precisamos, pois, abordar a questão da origem do mal fixando o olhar de nossa fé naquele que, e só Ele, é o Vencedor do mal” (CIC, §385).
Enfim, é o mesmo, o homem vazio, fragmentado e extraviado de sua condição original, capaz de promover o insano extermínio em massa de seus semelhantes, mas também de, resignado, inteiro e cheio de sentido de vida, ir ao encontro da morte nas câmaras de gás, cantando Salmos em louvor a Deus. O sacrifício pascal de Cristo alcançou a ambos, fazendo chover sobre os bons e sobre os maus uma chuva de graça, misericórdia e perdão. E isto é um mistério que só compreenderemos inteiramente no Céu.
Mas, por enquanto, sigamos nós também este mesmo caminho de Jesus Cristo, sempre optando em propagar o bem pelo mundo. E quando nos cansarmos, busquemos incessantemente recomeçar, cheios de sentido e unidos à graça de Deus, força maior que revigora e aplaca o cansaço dos bons.
Ficha
Origem: NACIONAL
Editora: CIDADE NOVA
Edição: 3
Ano: 2016
Assunto: Religião
Idioma: PORTUGUÊS
Boa leitura!

