Um importante filósofo grego do século IV a.C. chamado Epícuro dizia que “os grandes navegadores devem sua reputação aos temporais e tempestades”. Esta frase significa, dentre outras interpretações, que ter a coragem de enfrentar um mar bravio, apesar do alto risco, é como lidar com uma grande dificuldade pela qual o homem, superando-a, cresce em sabedoria, experiência e maturidade muito mais rápido do que se estivesse vivendo tranquilamente sua vida, mas, por outro lado, uma vida sem vicissitudes é como um mar em calmaria, que não possui muitas forças para levar o navegador a algum lugar.
Assim, as vicissitudes, que são os altos e baixos da vida, caso sejam encaradas como oportunidades, muito mais do que como simples dificuldades, são como estas ondas do mar que impulsionam e fazem a vida progredir.
Entretanto, apesar deste lado positivo, estes mesmos desafios não deixam de ser verdadeiros dilemas da vida humana, que, caso não sejam bem vividos ou orientados de modo adequado, são capazes de gerar amarguras e angústias tão grandes, que podem fazer o próprio homem chegar ao ponto de até perder a sua esperança.
Este é exatamente o caso de Martyn Avdeitch, personagem de uma das pequenas histórias que compõem a dica de leitura de hoje, o livro de contos espirituais do russo Liév Tolstoi, intitulado “Onde existe amor, Deus aí está”.
A história de Avdeitch é o primeiro conto e empresta o seu título ao livro, que ainda contém outras histórias que levam o leitor, além do entretenimento, para uma reflexão de como a sua própria vida vem sendo empregada: se de forma egoísta e centralizada em seus próprios problemas, ou com abertura ao outro e à vivência da caridade.
Martyn, tendo se tornado um homem cheio de lamúrias e ressentimentos pela perda de sua esposa e filho, chega a um ponto tão extremo, que experimenta o tormento da dúvida a respeito de sua própria salvação. A narração trata-se, portanto, do modo como, aos poucos, o personagem vai aprendendo o valor do serviço ao outro, e estes pequenos gestos de amor vão abrindo espaço para que ele mesmo recupere a alegria, a esperança e o sentido de sua vida.
Trata-se, assim, de uma leitura interessante a qualquer momento, tanto pelo renome do autor, quanto pela qualidade da escrita, porém, ainda mais neste tempo de Advento, no qual é celebrado o mistério do abaixamento, da saída de si e do serviço ao outro por excelência, que é a Encarnação de Jesus Cristo, exemplo que somos chamados a imitar, a fim de que nós também possamos encontrar o próprio sentido de nossa vida, com todas as suas vicissitudes e superações características, porém, sem perder a reta esperança de que, um dia, todas as tribulações passarão e que, se vivermos tudo o que nos acontece unidos a Deus, certamente gozaremos de uma eternidade junto a Ele, na qual o mar é feito de cristal, simbolizando que, no Céu, todas as ondas de vicissitudes não mais existirão, restando à alma, tão somente, desfrutar da glória divina que, de tão magnífica, transforma em um nada todos os males que sofremos nesta vida.
Resumindo, esta é uma obra que vale muito a pena ser lida, através da qual podemos aprender a ser grandes navegadores, tanto em meio às tribulações, mas, principalmente, navegantes do imenso mar da misericórdia divina, que tem suas rotas muito bem conhecidas por aqueles que encarnam em suas vidas os valores da caridade e do desprendimento de si, em vista da vivência do amor ao próximo acima de todas as coisas, inclusive, acima das próprias dores e sofrimentos.
Ficha de Leitura
Autor: Liév Tolstoi
Editora: Paulinas
Páginas: 44
Ano: 2015
Boa leitura!

