Se entende por literatura contemporânea a produção literária que começou a ser desenvolvida por volta das primeiras décadas do século XX. Embora alguns especialistas insistam em afirmar que a maior característica da arte contemporânea é exatamente não ter características definidas, ou seja, seria tudo o que o artista apresenta como arte, contanto que haja uma aceitação por parte do público receptor, na prática, não é bem assim.
A literatura contemporânea, por exemplo, é um gênero literário que deseja reproduzir muito mais as situações cotidianas da vida humana do que as epopeias e grandes feitos dos heróis da antiguidade. Os personagens, assim, tendem a ser inspirados em pessoas comuns. Quanto à narrativa, possivelmente prenderá o leitor muito mais pela sua qualidade linear do que por reviravoltas grandiosas.
Obviamente, há diferenças de estilo em cada autor e também há os escritores que produzem obras de vanguarda, ou seja, que existem para quebrar os padrões que vão sendo estabelecidos em determinado período, entretanto, tais feitos não são uma característica específica da literatura atual, mas que existem desde os primórdios da arte, inclusive, o que hoje chamamos de clássico, um dia foi a novidade de sua época, mas que, por sua qualidade extraordinária, perdurou no tempo.
Literatura contemporânea brasileira
No caso específico da literatura contemporânea brasileira, há ainda outras características como o uso frequente de intertextualidade ou os romances memorialistas e autobiográficos dos anos oitenta. Portanto, não há que se falar a respeito de uma impossibilidade de conceituar a arte contemporânea e, dentro dela, a literatura produzida nos tempos atuais.
Assim, seguindo estas características da escrita hodierna, trazemos como dica de leitura desta semana o ótimo Os vestígios do dia, do escritor nipo-britânico Kazuo Ishiguro.
A história se passa em julho de 1956, e é narrada em primeira pessoa por Stevens, um típico mordomo britânico que nunca tirou uma folga na vida, mas que deseja aproveitar a viagem do seu novo patrão, mr. Farraday, para se ausentar do trabalho por seis dias, a fim de conhecer alguns lugarejos do interior da Inglaterra e visitar a antiga governanta da casa, miss Keaton, que havia deixado o emprego há anos para se casar.
A troca de cartas
A trama começa com a troca de cartas de Stevens com miss Keaton, falando a respeito da dificuldade em manter o seu casamento, agora que a filha havia deixado o seu lar para também se casar. A infelicidade descrita nas cartas pela ex-governanta motivou Stevens a querer reencontrá-la.
Durante os seis dias de viagem, Stevens, que vive há décadas na mansão chamada Darlington Hall, passa a narrar, como se fosse um diário, suas memórias sobre os tempos áureos da casa que havia sido o lar de Lord Darlington, seu primeiro patrão, e cenário de muitos encontros políticos importantes para a Europa daquela época.
A narrativa a respeito de seu velho pai, mordomo que lhe precedeu naquele cargo, dedicando toda a sua vida ao serviço da mansão, e que faleceu exatamente em meio à reunião mais importante que Lord Darlington já havia recebido em sua casa, é um dos pontos altos do livro.
Narrativa muito bem construída
Por fim, resta dizer que esta é uma leitura na qual não encontramos muitos mistérios ou grandes acontecimentos, mas que vale a pena exatamente pela narrativa muito bem construída de Kazuo Ishiguro, que conta como a dedicação de Stevens ao serviço em Darlington Hall ultrapassa os limites de um mero trabalho, chegando a ser assumida como uma verdadeira missão, que, é claro, exige muitas renúncias e sacrifícios.
Para encerrar, segue um belo trecho de uma das últimas reflexões de Stevens no livro:
“Qual é o sentido em preocupar-se em demasia com aquilo que poderia ou não ser feito para controlar o rumo que a vida toma? Certamente basta que as pessoas como você e eu pelo menos tentem dar sua pequena contribuição para alguma coisa verdadeira e digna. E se alguns de nós estão preparados para sacrificar muita coisa na vida para perseguir tais aspirações, decerto isto é, por si só, seja qual for o desfecho, motivo de orgulho e contamento”.
Ficha de Leitura
Capa comum: 288 páginas
Editora: Companhia das Letras
Idioma: Português
Boa leitura!

