O mercado brasileiro de livrarias é praticamente dominado por três grandes redes de lojas, claro, sem contar com as muitas livrarias que vendem itens específicos, como as especializadas em artigos religiosos ou para universitários.
Geralmente nas minhas visitas a estas livrarias me sinto com um “pinto no lixo”, enquanto muita gente vai ao Shopping para olhar vitrines de lojas de marcas, prefiro ganhar meu tempo entre as ilhas e estantes sentindo aquele cheirinho de livro novo que é uma das melhores fragrâncias do mundo, porém, a última visita que fiz a uma dessas lojas foi uma decepção enorme, tão grande quanto deve sentir um pobre pintinho que chega em um lixão pensando que vai se esbaldar de ciscar e comer e descobre que o seu paraíso foi transformado em uma estação de reciclagem, sem nada de comestível para encher o papo.
Logo na entrada da loja, fui dando aquela olhada panorâmica nas ilhas mais próximas, onde geralmente se encontram os livros que estão na moda ou aquele estoque que o gerente precisa vender. Pense aí numa tristeza que invadiu a minha alma!
Claro que toda loja privilegia as mercadorias mais novas para chamar atenção da clientela, porém, o problema ali não foi simplesmente ter um outro livro ruim e outros bons para equilibrar, mas, literalmente, das três primeiras ilhas da loja, olhando livro por livro, vi apenas um volume que se poderia aproveitar, ou seja, se um caminhão estacionasse ali perto e levasse todos aqueles títulos para a estação de reciclagem que matou o pintinho de fome, não se perderia muita coisa.
Assim, junto com a dica do livro da semana, vai também um conselho para quem quer renovar sua biblioteca com itens que valem a pena: não perca tempo com as três primeiras ilhas de livros da loja e serás muito mais feliz! Vá, como dizem por aí, “comendo pelas beiradas”, olhe primeiro nas prateleiras ao redor da livraria e nas estantes do fundo, pois ali possivelmente estarão os tesouros de grande valor.
A questão também não é que um best-seller não possa ser uma boa leitura, ao contrário, há diversos livros no mercado lançados recentemente, que venderam como água e que são excelentes, mas o que me impressionou foi a capacidade daquela loja de unir em um espaço de três mesas enormes aquela quantidade de livros de baixo calão, os quais até as capas e os títulos exalavam um ar de depressão e feiura, que dirá o conteúdo.
Passado o #desabafo, segue, como de costume, a dica da semana, inclusive, para demonstrar que não tenho preconceitos contra os best-sellers: estou falando do ótimo Sete minutos depois da meia noite, do escritor norte-americano Patrick Ness.
É um livro curto, de leitura fácil e que se pode ler “de uma sentada só”, como se diz por aqui, ou seja, se a poltrona for confortável, é possível terminá-lo em poucas horas, no meu caso, comecei antes das 22h e terminei cinquenta e cinco minutos depois da meia noite (sem perder a piada do trocadilho com o título, claro).
De modo geral, o livro conta a história de Conor O’Malley, um garoto britânico de 13 anos que vive várias situações terríveis na vida e tem tanto medo desta verdade e de como deveria encará-la, que a mesma acaba se tornando um monstro que vem visitá-lo toda noite, exatamente sete minutos depois da meia noite.
– Por que este horário?
– I’m sorry… vai ter que ler até a última página para descobrir o porquê.
O monstro tem a forma de uma árvore, o mesmo teixo antiquíssimo que compõe a paisagem da colina onde Conor vive com a sua mãe, que enfrenta um tratamento contra um tipo de câncer muito agressivo e que não está dando muitos resultados.
Em meio a várias noites atribuladas nas quais Conor é atormentado pelo mesmo pesadelo, o teixo arranca-o de sua cama e exige que o menino lhe conte a sua verdade, após três noites em que ele mesmo lhe contará três fábulas intrigantes onde a verdade não está exatamente no que se vê na superficialidade, mas na intenção do coração, como canta a irmã Kelly Patrícia: “Nem sempre se vê o que é e quando é noite, a turva visão pode enganar; nem sempre o estado é o que é e no interior se encontra a verdade do que sou”.
Interessantíssimo é descobrir o paralelo que existe entre as três fábulas, o pesadelo constante e as situações que o garoto vive na escola, onde aparentemente ninguém presta atenção nele; com o seu pai, que vive com outra família em outro País; no frio e distante relacionamento com sua avó materna e, finalmente, na forma como vem aceitando o fracasso do tratamento de sua mãe.
Resumindo, Sete minutos depois da meia noite é aquele tipo de livro do qual não se espera muita coisa além de um bom passatempo, mas que, depois do ponto final, a gente dá aquele suspiro, fica olhando pro nada e começa a pensar seriamente na própria verdade, em outras palavras, é um best-seller que vale a pena.
Boa leitura!
