Subi mais uma vez no Circular. Não é fácil fazer isso todos os dias. Mas é preciso! Os olhares dos passageiros são como flechas certeiras. Se eles soubessem como me sinto por dentro… Engoli a vergonha com um sorriso e comecei: “Bom dia, pessoal, eu poderia estar…”. O texto vocês conhecem. Tem gente que diz que as palavras foram escolhidas a dedo para incomodar a viagem de ônibus. Não é bem assim, porém entendo que há mais disposição para ouvir as interrupções comerciais do Spotify do que para escutar a história que tenho para contar.
Narrei a minha saga para as pessoas que escolheram me escutar. Lá no final do ônibus, um jovem tinha tirado o fone para entender o que eu estava a dizer. Falei da minha família, do cachorro que tinha, como éramos felizes, da minha pequena filha, do antigo trabalho, expliquei como é difícil ser refugiado. Desabafei, desabei, mais uma vez. Uma senhora se compadeceu e pagou minha passagem. Ao passar a catraca, me senti completamente exposto à reação – indiferente ou solidária – daquele povo.
“Eu acabei de ajudar outro rapaz, não tenho nada para dar”, disse uma mulher que já ia descer do coletivo. Mais à frente, recebi algumas moedinhas de um senhor simpático, que trazia na blusa o brasão do time de futebol vencedor do dia anterior. Isso para mim era algo novo. Não imaginava que estar do outro lado fosse tão doloroso. Tentava ter empatia com as pessoas que eu via fazendo isso, mas nada se compara em vivenciar tal realidade. Continuei com meus tímidos passos até o fim do ônibus quase vazio.
Se para os outros é um grande incomodo essa situação, para mim ela ganha odor e cor de humilhação. Já não esperava receber mais nada. Pensei comigo que poderia ir até o Centro e pedir ajuda a alguns comerciantes. Agradeci a todos pela atenção, pedi que Deus os abençoasse e dei sinal para descer do transporte na próxima parada. Esperando o ônibus chegar ao local, fixei meu olhar no aviso “Parada Solicitada” que piscava sem parar. Lembrei-me da minha infância. Não tínhamos muito, mas éramos felizes. Saudades.
Desci. Acompanhou-me o jovem que tinha tirado o fone do ouvido. Ele perguntou se eu estava com fome. Disse que sim. Mas que precisava levar algo para casa, pois quem mais precisava de alimento era minha filha. Ele pediu para eu esperar um pouco no ponto de ônibus. Voltou com uma sacola na mão. “Não é muito, mas creio que pode ajudar”. Ele sorriu para mim, perguntou meu nome e me abraçou. Disse que tudo ia ficar bem e que Deus estava cuidando de mim e da minha família. Foi embora. De longe, vi que Ele carregava no bolso um terço, lembrei-me novamente da infância. Mas dessa vez as palavras cheias de fé de minha mãe ressoaram em meu coração: “Não perca nunca a esperança!”
