Percebi pela dor a urgência de nós vivermos pelo Espírito e obedecermos às inspirações do próprio Deus, buscando uma vida na graça, uma conversão sincera, este caminho estreito do qual nos falou o Evangelho de ontem.
Tudo começou na sexta-feira… Eu estava na fila da confissão, arrependida, com um forte desejo de me confessar. Havia um “empecilho”: a fila estava imensa e eu tinha um compromisso logo em seguida. Comecei, então, a pedir a Deus que desse tempo, mas cheguei atrasada para a fila, então, por mais que Deus quisesse colaborar, foi negligente o horário que eu cheguei na fila. Então, com uma fila imensa, o tempo foi passando, fui me preparando e continuei com o desejo grande de confissão.
Porém o meu compromisso se aproximava e a fila ainda estava muito longa. Dentro do meu coração, era uma guerra. Eu fico ou eu vou para esse compromisso? Eu preciso muito ficar, mas o compromisso também era muito importante e ele poderia ter sido alterado diante da urgência da minha alma. Mas, depois de desobedecer à inspiração de Deus, eu decidi ir para o meu compromisso e desistir da confissão, marcando a minha confissão para a quarta-feira da semana seguinte.
Confesso que fiquei com aquele sentimento de que queria muito ter vivido da graça, mas não foi tão suficiente essa experiência, para me fazer escolher primeiro a graça do que a mim mesma. Passou o final de semana. Na segunda-feira, eu estava na Santa Missa e surgiu um Sacerdote que se sentou para a fila da confissão e não tinha quase ninguém, tinha duas pessoas no máximo para se confessar.
Naquele momento, eu pensei: “eu acho que vou antecipar minha confissão, não vou deixar para a quarta-feira, vou me confessar hoje”. Aproveitando também a visita da Virgem de Fátima, que também colocou no meu coração a necessidade de rezar, de fazer penitência, de viver uma vida mais na graça, atenta aos movimentos da graça. Mas eu escolhi o caminho largo mesmo, que é um caminho do orgulho, caminho em que a gente escolhe, tem preferências.
“Com esse Padre eu não costumo me confessar e eu já marquei com o meu confessor, então, é melhor deixar para a quarta-feira mesmo”… e aquela luta foi crescendo dentro de mim durante a Santa Missa, por alguns instantes. Não foi uma longa luta.
Ali eu percebi que eu não estava totalmente necessitada, meu coração não estava tão necessitado, nem tão arrependido assim. Não existia uma urgência tão grande pela graça que estava sendo me dada. Mais forte ainda era o meu comodismo, as minhas preferências, a minha falta de urgência mesmo por escolher a Deus naquele momento.
Por que eu estou partilhando isso?
Ao rezar ontem com isso, eu lembrava de Santo Agostinho que diz: “eu temo a graça que passa”. No mesmo dia, à noite, eu acabei tomando uma medicação errada e tive uma crise alérgica. Tive uma reação muito intensa, uma das mais intensas que eu já tive. Foi inchaço no rosto e a garganta fechando… Fui tendo realmente o sentimento de que eu poderia, naquele momento, não sobreviver.
Fiquei em estado grave, eu fui levada às pressas para o hospital e no caminho, a pessoa que me conduzia corria muito para poder evitar qualquer fatalidade. À medida que ela corria, eu entendia que nós, cristãos, precisamos correr para Deus, ter uma urgência em conversão, urgência em usufruir de todas as graças que a igreja nos dá.
Com a mesma forma que a gente corre muitas vezes para os nossos compromissos, para as nossas urgências, para os nossos planos, nós deveríamos correr ainda mais para Deus.
A nossa vivência de estado de graça comporta muitas outras almas. Há um mistério do corpo de Cristo: se um membro está adoecido pelo pecado, todo o corpo padece. Então, é preciso buscar a santidade, buscar a conversão, buscar viver em estado de graça, ainda mais quando isso é possível.
Quantas pessoas querem se confessar, muitas vezes, e não tem possibilidade? Em contrapartida, tendo ali tantos Sacerdotes à disposição ao passar os dias, eu escolhi a mim mesma, às minhas coisas. Ao chegar no hospital, à medida que eu ia piorando, eu ia pedindo perdão a Deus, lamentando não ter recebido o sacramento, pensando que talvez eu não tivesse mais a oportunidade de tê-lo. Fui me comprometendo com o Senhor, no desejo de, cada vez mais, me lançar naquilo que a Igreja nos dá, como remédio, como salvação, que é essa própria experiência de Sacramento. Preciso buscar mesmo com urgência este caminho.
E eu fiquei a me perguntar por que, embora eu estivesse calma, eu estava vivendo uma calma diferente. Outras vezes em que a alergia foi mais amena, eu não tive tanta calma quanto nessa ocasião. Naquele momento, eu não estava preocupada com a morte física, mas pensando no quanto eu perco a oportunidade de viver uma conversão da alma, de buscar viver em estado de graça.
Fiquei me perguntando o quanto eu tenho medo de estar distante de Deus para sempre, o quanto eu me perco mais nas correrias desta vida, de coisas até que são lícitas e necessárias, mas que podem pôr em xeque uma vida eterna com Deus, porque se aqui nesta terra, quando nós vivemos tão para nós, tão envoltos nos nossos problemas, na nossa vidinha, nas nossas coisas, nos nossos apegos, se torna insuportável às vezes de viver. Imagine viver isso até o fim dos tempos, viver uma eternidade distante de Deus e numa cidade construída por mim, não na cidade de Deus.
Deus te abençoe! Que todos juntos busquemos hoje viver uma vida em estado de graça.
Ananda Vasconcelos
