Formação

Cada um reza com seu jeito de ser e de viver

Rezar como somos é não ter medo de nós mesmos e de nos olhar no espelho para ver as nossas feridas, não desanimar diante dos nossos fracassos mas sempre retomar o caminho para chegar à meta que temos diante de nós: sermos amigos fortes de Deus.

comshalom

A oração é uma nascente que brota no mistério trinitário, multiplica-se em muitos rios que, percorrendo e fecundando a vida humana, voltam novamente ao seio do mistério de onde tiveram sua origem. Jamais falaremos suficientemente da oração, e nunca seremos mestres de oração, mas sempre discípulos que vamos aprendendo o jeito de dialogar com Deus. A oração é uma história de amizade, de amor, que personaliza o nosso amor. É como na vida humana, muitos podem ser amigos da mesma pessoa mas cada um o será do seu jeito, único e irrepetível. Ou como muitos irmãos e irmãs que vêm de mesmo pai e mãe mas cada um tem seu jeito de dialogar, de se relacionar. Por isso cada um se relaciona com Deus e com os outros no seu jeito particular, nunca nos repetimos. Aliás, todos os dias somos influenciados na nossa vida, por tantas coisas que vão acontecendo, pelos problemas, pelas alegrias e pelos sofrimentos, nunca somos iguais a ontem e nunca seremos iguais a amanhã… Somos como água do rio, ela corre e passa, ela não volta atrás mas fecunda a terra e produz frutos abundantes. A oração é chuva benfazeja que fecunda o deserto e o transforma em planícies fecundas. A oração é a autêntica escola onde conhecemos a nós mesmos, é um espelho onde somos chamados a nos espelhar e a reconhecer o nosso rosto como imagem do rosto maravilhoso do mesmo Deus. Os místicos têm a plena consciência de que nos espelhamos em Deus, onde nos reencontramos, e Deus se espelha em nós. Na oração aprendemos a conhecer o incognoscível pela inteligência, mas que se pode conhecer pela fé. Não há possibilidade de fugir de Deus porque seria fugir de si mesmo. Conheci uma pessoa que, por muitos anos, fez tudo para esquecer a Deus e, quanto mais lutava para esquecê-lo mais se encontrava presa ao mistério de Deus. Tentava deixar de rezar e quando menos esperava encontrava-se pensando em Deus e rezando. Deus nos persegue divina e docemente. A sua voz e sua presença nos arrebatam e nos introduzem no encanto maravilhoso da sarça que queima e não se consome.

Nós queremos colocar em evidência que a oração é o nosso jeito de ser e de viver. Não é uma nova personalidade que se substitui, nem devemos eliminar os nossos sentimentos, nem tampouco ser diferentes do que somos. Trata-se simplesmente de canalizar a água e fazê-la passar através de filtros para que toda sujeira seja eliminada. Um trabalho que parece duro mas que na realidade é cheio de surpresas de amor. A oração devolveu a minha autêntica identidade. Hoje, depois de ter percorrido tantas estradas e tantos atalhos que, em vez de me levarem perto de Deus levaram-me longe, sinto que na oração posso ser eu mesmo; às vezes ferido, sangrando e esfarrapado, mas eu mesmo.

Santo Agostinho pedia que o Senhor o estraçalhasse mas o amasse, que o queimasse mas o salvasse. É no deixar-se amar pelo Senhor que o nosso amor humano se vê obrigado a purificar-se para um novo amor. Deus não quer que nós, diante dele, façamos teatro, nos revistamos de máscaras, ou assumamos personalidades que não são o nosso eu. A oração no intuito de ganhar na beleza, se lhe faltar a fé e amor corre o risco de tornar-se uma coreografia, ou uma cena que atrai atenção. A oração caminha cada vez mais pelas desnudez e pelo total despojamento. A simplicidade da oração pode somente ser captada pelos caminhos da fé. Ela às vezes é dança de amor que tenta seduzir o seu Deus com a beleza dos passos, do canto, da harmonia; em outros momentos a oração se faz gemido, grito de extremo sofrimento que tenta aproximar-se de Deus pelo caminho das lágrimas e da dor.

Pelos caminhos divinos da oração divinizamos o humano, e pelos caminhos humanos humanizamos o divino. A oração é uma necessidade interior que nos toma quando menos esperamos, e nos obriga a parar e esconder o rosto entre as mãos e murmurar meu Deus, eu te amo! Para rezar bem é necessário deixar-se levar pelas ondas do coração e pela força da fé. Quando o vento do sentimento vem a faltar, entra em ação o vento forte da fé que empurra o barco da vida contra a correnteza até que cheguemos ao porto da paz e da tranqüilidade .

Reze como você é

A oração é antes de tudo diálogo, relacionamento de amor e de amizade que vai crescendo lentamente dentro de nós e nos abre para os outros. Não é possível rezar e não sentir dentro do coração as alegrias e os sofrimentos que agitam a vida dos nossos irmãos. É importante descobrir a oração como momento de auto-conhecimento. Santo Agostinho dizia: que eu te conheça a ti, Senhor para que me conheça a mim. Mas, que quer dizer rezar como somos? Vamos tentar explicar um pouco e assim assumir o caminho da oração como momento de divina terapia. Estou convencido que o nosso melhor terapeuta, psicólogo e psicanalista é o Senhor que, na intimidade com ele, nos revela quem somos e nos faz sentir as mudanças que são necessárias realizar na vida.

A oração nunca é algo de mecânico e nem um exercício físico, mas sim um entregar-se ao Senhor da vida para que ele atue em nós o seu projeto. O orante não tem mais desejos próprios nem vontade própria porque aprendeu a ter uma única vontade que é a do Senhor que se manifesta no dia a dia. A oração não pode ser algo de forçado, de imposto, mas é como água que borbulha no mais profundo de nós mesmos e, como água viva, vai jorrando e fecundando com vida nova todas as áreas do nosso eu. Para Santa Teresa de Ávila, mestra da oração, gera uma harmonia e um desenvolvimento de todo o nosso ser. Por isso para ela as almas que não rezam são como um corpo estropiado ou paralítico que tem mãos e pés mas não os podem mover. E assim se passa. Há almas tão enfermas e tão habituadas às coisas exteriores que não há remédio nem parecem poder entrar em si mesmas.

A oração cria fortes convicções e alicerceia a nossa vocação tornando-nos capazes para resistir a todas as dificuldades que podemos encontrar. É fonte de luz e fortalece a nossa vontade, orienta, ilumina e sustenta todos os nossos passos no caminho da permanente conversão.

Rezar como somos é não ter medo de nós mesmos e de nos olhar no espelho para ver as nossas feridas, não desanimar diante dos nossos fracassos mas sempre retomar o caminho para chegar à meta que temos diante de nós: sermos amigos fortes de Deus. Três virtudes me parecem importantes se nós queremos rezar como somos, do jeito personalizado que   marca a vida de quem empreende o caminho da oração:

a) Rezar com humildade.

A humildade é a virtude que nasce da nossa consciência de descobrir-nos um dia pecadores necessitados e pobres. O que mais atrapalha no nosso relacionamento com Deus e com os outros é o orgulho, sentir-nos superiores aos outros e achar que não necessitamos de nada. A auto-suficiência é o pecado do mundo de hoje onde somos acostumados a ouvir milhares de vezes por dia que é preciso ser independentes…Se isto pode ser verdade no plano humano e deve ser num certo sentido, o ideal de cada um é ser independente economicamente, nas coisas que necessitamos e que fazemos, na nossa cultura e no nosso agir, não é, sem dúvida, válido no plano espiritual. Como podemos esquecer as palavras de Jesus: sem mim nada podeis fazer? Ninguém de nós, sem a força do Espírito Santo, é capaz de dizer nem o nome de Jesus. A pobreza espiritual é sentir que Deus é fonte de todo o nosso agir. Devemos sentir-nos em cada momento teo-dependentes, isto é, dependentes de Deus. É ele que é Pai de bondade e amor infinito que cuida de nós e que nos infunde a necessidade do seu amor. É Jesus que nos convida a confiar plenamente no amor do Pai, sabendo que ele tudo conhece e que nunca nos deixará sós. A humildade é virtude que nos faz dobrar os joelhos e o pescoço diante da grandeza de Deus. Nos convida a prostrar-nos com o rosto por terra e pedir ao Senhor que nos cubra com sua misericórdia e amor. Nenhuma pessoa orgulhosa se atreve a se aproximar de Deus para pedir com humildade mas sim com arrogância. Há na oração uma linguagem arrogante que deve ser vencida e superada: Senhor, dai-me…mas sim poder sempre dizer Senhor, se tu quiseres podes dar-me … vem Senhor em meu socorro. Ler e reler até assimilar a atitude do publicano que diante do Senhor nem sequer levantava os olhos para o céu mas simplesmente repetia para si mesmo tende piedade de mim que sou pecador. A humildade é terreno fértil onde   brota a flor bela e perfumada da oração. Aliás, o orante quando é humilde nem pede mas simplesmente apresenta a sua enfermidade, estende a mão e tem no coração a certeza que ele, o Senhor, lhe encherá com suas bênçãos e graças. A humildade se faz silêncio, adoração. Como é belo durante o dia, nas primeiras horas do dia ou no entardecer entrar silencioso e sozinho na igreja e se ajoelhar diante do Senhor e permanecer em silêncio deixando que o nosso respiro e sofrimento sejam murmúrios de amor. O que as palavras não conseguem expressar o silêncio sabe dizer. Esconder-se num canto solitário da nossa casa ou permanecer silencioso antes de dormir, deixando que o amor de Deus nos envolva e cure todas as feridas acumuladas durante o dia…

b) Rezar com sinceridade.

Não se vai rezar para contar as própria vantagens diante de Deus… nem como o fariseu, julgar os outros e se considerar melhor que os outros. Parece fácil ser sincero na oração mas na verdade não é, porque o orgulho é tão sutil que foge ao nosso controle. E o demônio, diria São João da Cruz, é tão astuto que se apresenta como anjo de luz para nos enganar. Mas o que quer dizer rezar na verdade e com verdade? Ser sincero na nossa oração quer dizer antes de tudo: refletir bem sobre o que vamos pedir e como vamos pedir. Nos perguntar se o que pedimos nos é verdadeiramente necessário para a nossa vida espiritual, para o nosso crescimento humano e espiritual, ou simplesmente pedimos o supérfluo, o inútil e até o que pode nos prejudicar na vivência da nossa fé. Ser sincero é despojar-se diante de Deus e mostrar-lhe sem vergonha e sem enfeite as nossas feridas mais íntimas. Poder dizer ao Senhor: tu me conheces e sabes do que necessito, não me dê Senhor o que te peço mas sim o que tu crês que me é necessário para poder viver no teu amor e na tua presença. Pedir ao Senhor que nos mostre a nossa situação de pecado, e que nos ensine como devemos cortar todos os laços que nos impedem de sermos felizes diante de Deus. Rezar com sinceridade quer dizer que as palavras que pronunciamos devem corresponder com a realidade e não devem ser simplesmente palavras, não é um jogo de palavras mas sim um compromisso de amor. Deus quer que nós sejamos sinceros no que queremos e dizemos. Não podemos transformar Deus numa agência de empregos e nem num consultório médico, mas sim saber que ele sabe mais do que nós do que necessitamos e a ele devemos confiar toda a nossa vida. Os interesses do Reino, da Igreja, o bem dos nossos irmãos são sempre maiores que o nosso bem pessoal. Por isso Jesus nos deu a prova esquecendo a si mesmo e dando todo o seu ser, o melhor de si que é a sua vida.

c) Rezar em total abandono à vontade do Pai. O abandono é a virtude de quem reconhece a própria pequenez e incapacidade mas confia Naquele que tudo pode. É a virtude da criança que se coloca nas mãos do pai, confiando que Ele cuidará dela. Santa Teresinha dizia que o abandono é a mais perfumada flor do amor. A oração, para ser verdadeira, exige esta total entrega, este abandono em Deus.

Para Terminar…

Cada um de nós deve saber encontrar o seu jeito de rezar, de dialogar com o Senhor, de se aproximar dele, com humildade e sinceridade. Não ter medo de mostrar ao Senhor as nossas feridas, nem de cantar a suas misericórdias, nem de relatar as nossas derrotas e nem contar para ele os nossos sucessos. Revelar-nos como somos para que ele se revele como ele é: amor.

O espelho da nossa oração é a oração de Jesus: o Pai nosso, onde Jesus comunica com o Pai do jeito que ele é, como Filho totalmente interessado pelas coisas do Reino e, preocupado em nos ensinar como devemos rezar mostra toda a sua humanidade e nos convoca a pedir desde o pão de cada dia ao perdão,   e que ele nos livre das tentações. Colocar o Pai nosso.

Escola de Formação Shalom


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