Afinal, em um tempo onde as pessoas buscam um botão de “acelerar” para tudo, onde impera a cultura do relativismo e do descartável, e em cujo os relacionamentos são cada vez mais líquidos, ainda devo ter esperanças de encontrar alguém especial?
A resposta certa é sim. Porém, talvez alguns corações calejados, respondam que não. Pois estes já não acreditam mais no amor, e para eles, esse amor, parafraseando o musical Perfeição: “não passa de um sonho, de uma fantasia romântica na juventude, um fardo que pesa na vida adulta, e uma decepção na velhice”.
Ora, a maioria das pessoas, especialmente os jovens, dizem que estão satisfeitos com um romance ou aventura passageira, onde não exista compromisso. E mesmo quando assumem um namoro, que deveria ser um relacionamento sério, sentem que não possuem nenhum dever para com o outro.
No entanto, isso nem sempre foi assim. Os nossos pais, ou avós, que viveram em tempos diferentes do nosso, foram sabiamente educados de maneira distinta. Nessa época, o namoro era na porta de casa. No lugar dos beijos demorados e amassos, existiam muito diálogo e demonstrações delicadas de afeto: como segurar a mão e beijar a testa. Os homens cortejavam as mulheres e demonstravam o seu caráter, para que elas, por sua vez, decidissem se o rapaz daria um bom marido e um bom pai para os seus filhos.
Outrossim, há quem prefira as coisas como estão, mesmo que as pessoas, hoje em dia, sejam bem mais infelizes, e tenham relacionamentos fracassados. Ora, por mais que achem que a nossa sociedade está evoluindo, e que toda esta “liberdade sexual” tenha sido uma maravilha do progresso, ela foi, na verdade, “o caminho da vaca para o brejo”.
Pois bem, agora que diagnosticamos a lástima que o mundo vive hoje em termos de relacionamento, e também constatarmos os sintomas, vamos buscar a origem desse problema, e cortar o mal pela raiz. E então, poderemos traçar uma nova via para nós e para o mundo, pois o Senhor deseja que no mundo, e em tudo o que somos, resplandeça o novo de Deus.
Infelizmente, esta mentalidade mundana de relacionamentos está impregnada na sociedade: nos filmes, livros, séries, novelas, propagandas, e etc. Prega-se que para que nós nos conheçamos, e conheçamos o outro, é preciso “ficar”, ou seja, beijar sem nenhum compromisso (que pode até levar a um ato sexual), como uma espécie de “test drive” para ver se existe “química”. Quanta ingenuidade! Isso me lembra um filme que vi quando criança: “A princesa e o sapo”, até parece que “beijando vários sapos”, eu vou encontrar o amor da minha vida.
Ou seja, o problema está no início do caminho para este relacionamento. A conquista, hoje em dia, possui uma atmosfera muito mais carnal do que qualquer outra coisa, e os indivíduos envolvidos não se conhecem, mas apenas se desejam mutualmente. Assim, há uma falsa compatibilidade, que envolve somente o físico e as emoções, deixando de fora da equação: os interesses, projetos, valores, preferências, sentimentos, e etc.
O “fica” é um grande engano, pois, já que não há diálogo, não há conhecimento do outro, e isso dá margem para que a nossa imaginação o idealize. Quantas vezes ouvi de amigas: “nossa, fulano mudou depois que começamos a namorar”, quando na verdade, fulano não mudou, ela apenas está finalmente conhecendo-o.
Afinal, como irei conhecer o outro, sem que exista antes uma amizade desinteressada, onde ele se apresenta com a sua verdade, e eu com a minha?
Caminho Novo
Chegamos onde eu queria chegar, na solução para este problema. Vou apresentá-los uma segunda via, que representa o plano de Deus para os nossos relacionamentos. Este é um caminho mais longo, porém, mais seguro, e muito mais feliz (e eu sou prova disso). Atualmente, depois de trilhar este caminho, estou noiva do amor da minha vida, mas durante o percurso, o Senhor nos ensinou que a paciência tudo alcança.
Darei um breve testemunho, sobre aquilo que nós chamamos de “caminhada”. Eu e o Lucas nos conhecemos dentro da comunidade, em 2015, quando ainda éramos vocacionados. Nós tínhamos alguns amigos em comum, mas nunca havíamos conversado muito, até um dia em que conversamos por horas, pois estávamos plantados esperando os nossos ministérios começarem (não sabíamos que nesse dia não teria ministério, rsrs).
O Lucas chamou a minha atenção, era alguém que eu realmente queria ter por perto, pois amizades virtuosas são extremamente necessárias para que sejamos santos. Nessa época eu não estava interessada em ter um relacionamento, pois estava bastante focado no meu vocacional e no vestibular. E assim começamos uma bela e sólida amizade, onde um desejava para o outro nada menos que o céu.
Porém, quando a amizade foi se desenvolvendo, e, naturalmente, a admiração e o respeito também, eu fui me apaixonando. Infelizmente, eu não sabia dar sinais, por medo de estragar a amizade, e o Lucas também passava pela mesma coisa (sem eu saber). Pela nossa falta de coragem, seguimos caminhos diferentes, e namoramos (por pouquíssimo tempo), outras pessoas bem diferentes de nós.
É importante ressaltar, que nós também caminhamos para estes relacionamentos que não deram certo. O namoro foi feito para acabar mesmo, seja no altar ou com um ponto final. A diferença é que nessa outra caminhada (ou melhor, corrida, rsrs), não conhecíamos tão bem estas pessoas, foi tudo muito rápido; e muitas vezes, esperávamos delas atitudes que só encontramos um no outro.
Por coincidência, nós ficamos solteiros quase na mesma época, e nos reaproximamos. Na verdade, nunca nos afastamos totalmente pois coordenamos a Crisma juntos. Eu tive medo de me apaixonar novamente, e de me “iludir”, mas dessa vez, o Lucas expôs os seus sentimentos para o formador dele, e pediu para que pudéssemos caminhar.
Depois disso, levaram três meses para a caminhada ser liberada, e depois do início da mesma, mais três meses para que começássemos a namorar. Posso dizer com toda certeza, que a espera valeu a pena! Estamos namorando já há 4 anos, e no namoro, estamos construindo bases sólidas para o nosso matrimônio, pois colheremos aquilo que plantamos durante todos esses anos.
A caminhada nada mais é que um caminho de amizade, onde ambos possuem interesse no outro, mas decidem esperar para discernir se o relacionamento é da vontade Deus, e se estão prontos para dar este passo. Ademais, entende-se que o namoro é algo muito sério, e por isso, é necessário todo um zelo para abraçar esse tempo específico, com todas as suas graças e dificuldades, e entrarmos no território sagrado que é a vida do outro.
Para quem vive este tempo, aconselho que o viva bem, sem desejar pular etapas, e sem apressar-se para começar a namorar, pois como disse São João Paulo II: “quem não é capaz de esperar um só dia, não será capaz de amar para sempre”.
Diálogo
Outro ponto forte da caminhada, e que também vivemos no namoro é o diálogo, por isso, conversem bastante e descubram se realmente existe afinidade entre os dois, pois isso é crucial. É verdade que “os opostos se atraem”, e que as diferenças se complementam, mas também é necessário que eu me reconheça no outro.
Quando atingimos um certo grau de maturidade no amor, o nosso empenho e desejo pelo bem do outro muitas vezes serão fontes de cura para muitas feridas e traumas. Quantas vezes ouvi do meu noivo, que Deus o amou através de mim (a recíproca é verdadeira), e como é agradável ouvir isso! Esse é o alicerce de um relacionamento feliz, saudável e frutuoso. O verdadeiro amor gera vida mesmo em meio às maiores contrariedades.
No namoro, ficamos com a nossa vida e nossas características expostas. Encontraremos na pessoa que amamos: feridas e marcas, que uma hora ou outra virão à tona, mas tudo isso faz parte dessa jornada. Deus é o único que pode fazer o homem feliz, preencher o vazio do seu coração, sanar a sua carência, e fazê-lo sentir-se plenamente amado. Colocar tais expectativas em cima de uma pessoa é injusto, e leva ao que chamamos hoje de “relacionamentos tóxicos”.
Portanto, se Deus (que é o amor em pessoa e o sumo bem) não for o centro do meu relacionamento, há grandes chances de que eu me torne o centro. E se isso acontecer, eu nunca serei capaz de amar verdadeiramente, e farei do outro um mero instrumento da minha satisfação, do meu prazer, por mais que eu (ludibriadamente) insista em chamar isso de amor.
Destarte, por mais tudo isso seja muito belo, precisamos saber que isso só será possível com o auxílio de Deus. O amor humano, por mais bem-intencionado que seja, é egoísta e instável, deseja muito mais receber do que dar. Somente alguém que sabe o que é o amor, e que se sente verdadeiramente amado (a) por Deus, é capaz de transbordar este amor para o outro; ainda mais no mundo em que vivemos, onde o “amor próprio” (que é bom e necessário) é muitas vezes superestimado e utilizado como desculpa para as nossas atitudes egoístas.
O primeiro passo?
Mas então, de forma prática, para quem deseja viver isso, qual deve ser o primeiro passo? Primeiramente, não devemos nos desesperar nem sair “caçando”, mas sim, nos abrir às pessoas e às oportunidades.
Muitas pessoas que desejam namorar, procuram nos lugares errados, e acabam encontrando pessoas erradas. Se eu sou católico (a), é provável que eu encontre alguém da minha paróquia, na igreja, no meu serviço, comunidade, etc. Claro que podemos encontrar o amor da nossa vida até na padaria, mas são ocasiões raras. Devemos saber ao menos, que não vou encontrar alguém para ter comigo um namoro santo: em bares, festas, baladas, etc.
Meus caros colegas solteiros, e que estão em busca de um amor: vistam-se bem, andem perfumados e com uma boa aparência. Mas também, invistam em uma boa conversa, demonstrem que possuem boas intenções e bom caráter, façam elogios, dê sinais quando encontrar alguém interessante; sejam vocês mesmos, não criem um personagem, pois as máscaras um hora vão cair.
Homens, tomem atitude. Mulheres, não sejam um poço de exigências. Porém, é importante salientar que os solteiros não devem viver em função disso, afinal, o desespero muitas vezes nos levam a fazer más escolhas, e como diz o ditado “antes só que mal acompanhado”.
Viver um namoro santo, foi uma das melhores escolhas que eu fiz na minha vida, no entanto, não significa que isso seja fácil, mas como dizia Santa Teresa D’ávila, “é justo que muito custe aquilo que muito vale”. Ao longo dessa estrada, já tropeçamos em muitas dificuldades e travamos muitas batalhas interiores e exteriores, mas nos levantamos vitoriosos, pois Cristo está conosco! É Ele o laço que nos une, e a fonte do nosso amor. Estou ciente de que apesar da imensa alegria que vivenciamos hoje, ainda enfrentaremos muitas adversidades, e como sempre, sei que o Senhor nos sustentará, pois confiamos no seu amor, cuidado, e na sua misericórdia.
“– Quem estará nas trincheiras ao teu lado?
– E isso importa?
– Mais do que a própria guerra.”Ernest Hemingway.
Por Gabrielle Rodrigues – Missionária da Comunidade Aliança de Sobral (CE)
