Parresia

Cântico dos Cânticos: Uma visão psicológica a partir do diálogo, do canto e do corpo

Como um texto, literalmente erótico, pode se tornar sacro? A interpretação alegórica rabínica, vê no amado (Salomão) o próprio Deus, capaz de encarnar uma relação de amor com a sua bem-amada, a nação de Israel.

Foto: Pexels

A explanação que iremos fazer tem como finalidade explorar o tema do encontro no Cântico dos cânticos, baseando-se numa perspectiva psicológica. Usaremos os textos Histoire d’amour (1983) de Julia Kristeva – escritora e psicanalista – e Un Dio che prima sposa e poi fidanza: il cantico, l’eros e la Vita (2015) de Elena Bosetti – doutora e docente em teologia bíblica – e de Nello Dell’Agli – presbítero, psicoterapeuta, doutore e docente em teologia.

Uma perspectiva psicológica porque sabemos que é possível criar um diálogo circular entre Bíblia e Psicologia, porque sabemos que nas Sagradas Escrituras temos a possibilidade de ler a nós mesmos e a nossa vida. 

Podemos, por exemplo, nos personagens bíblicos encontrar partes do nosso coração. Não somos nós uma extensão do povo de Israel? Não vivemos nós uma espécie de êxodo e encontro da terra prometida? Um constante processo de conversão, reorientação e iluminação dos nossos desejos, sentimentos, anseios? A psicologia do homem e da mulher não estariam sumamente presentes nas entrelinhas do Cântico dos cânticos? Não seria o eros que vive todo casal? Enfim, é muito rico o caminho de transformação que se pode fazer entre lectio divina e lectio humana, leitura da Palavra e leitura de nós mesmos.

O tema do encontro porque o Cântico, por excelência, canta o amor entre os esposos no seu frescor primaveril às suas infinitas variações (solidão, ausência, medo, abandono, presença, gozo, pertença, entre outros estados), do encontro ao encanto, da sedução à contemplação, da distância à proximidade, da escuridão à luz.

No seu sentido alegórico, místico, nos faz pensar no encontro entre Deus e o homem: um Deus loucamente enamorado pela sua criatura, que não se cansa de buscá-la, segui-la, surpreendê-la, esperá-la, abraçá-la. Um Deus à procura do homem, o amante à procura da amada. Mas também a humanidade, na sua inquietude, desejosa de Deus, do seu amor, do seu conhecimento, da sua ternura infinita e eterna que vai além do tempo e espaço.

Diálogo, canto e corpo

Assim como outros estudiosos do Cântico, Kristeva procura ver as duas linhas de interpretação: a primeira, insistindo sobre os aspectos mais retóricos do texto, ou seja, a relação entre os esposos, e depois comentando as interpretações mais alegóricas, ou seja, as interpretações das tradições judaicas e cristãs.

Inicia já notando que uma ordem aleatória dos versículos não mudaria o sentido: o último poderia estar localizado na parte central do texto, ou qualquer outra mudança não perturbaria o valor do todo. Os sentidos líricos estão contidos em cada um dos elementos mínimos do texto, por isso a não alteração da mensagem. 

Segundo Kristeva, no diálogo entre a Sulamita e Salomão, nós assistimos uma dialética: os protagonistas se constituem como tais, isto é, apaixonados à medida que um fala ao outro, que um se descreve para o outro. 

Todavia, o diálogo do Cântico não é trágico e nem filosófico: vincula uma dimensão real e simbólica. O diálogo amoroso é tensão e prazer, repetição e infinito; não é só uma comunicação, mas encantamento; diálogo que canta, invocação. “Volta, volta, Sulamita! Volta, volta, que te contemplemos! –  Como contemplar a Sulamita? Como numa contradança! (…) Eu sou do meu querido e seu anelo sou eu. Vem, querido meu, vamos ao campo, passar a noite no Povoado”.

No diálogo entre os dois amantes, continua Kristeva, existem dois movimentos: o primeiro consiste no fato de que, através do amor, a Sulamita se coloca como sujeito da ação daquele que a vence, Salomão. 

A dependência de quem está apaixonado supõe uma reciprocidade. Ao mesmo tempo, e este é o segundo movimento, no diálogo amoroso ela se abre ao outro, o recebe na sua impotência, o absorve na sua alegria, se identificando com ele. Esses dois movimentos, segundo Kristeva, são premissas do êxtase e da encantação do Cântico.

“Meu querido passa a mão pela abertura; meu ventre se emociona. Sim, eu me levanto para abrir ao meu querido. E minhas mãos destilam mirra, e meus dedos, mirra correndo sobre tramelas do ferrolho. Sim abro para o meu querido! Mas meu querido retornou, passou. Fora de mim saio atrás dele: procuro-o, não o encontro; chamo-o, mas não me responde”.

Com relação a sua temática corpórea e sexual, indissoluvelmente misturada com o tema dominante da ausência, da aspiração fusional e idealização dos amantes, a lubricidade contida no Cântico leva diretamente a questão do amor encarnado e real.  O que aparece no texto é que o Amado não está mais presente, mas mesmo assim a sua Sulamita continua a fazer experiência do eros contido no estado romântico entre os dois.

Um amor absoluto de Deus

Mas como um texto, literalmente erótico, pode se tornar sacro? A interpretação alegórica rabínica, vê no amado (Salomão) o próprio Deus, capaz de encarnar uma relação de amor com a sua bem-amada, a nação de Israel. Dado o componente erótico que permeia o texto bíblico, podemos compará-lo com a presença de um amor absoluto de Deus capaz de entrar em relação com o seu povo. Por isso, o Cântico não é um elemento estranho na Bíblia. 

Conclui Kristeva, Deus e o desejo sempre estiveram lá, é uma questão de contemplá-los como eles estão implicitamente presentes na experiência psíquica individual. Depois de ver que tipo de amor evoca o Cântico e de ver o procedimento retórico geral, entendemos melhor o significado de sua inserção na Bíblia. O amor do Cântico parece inscrito tanto no contexto da conjugalidade quanto no de uma realização que virá no seu aspecto transcendente, ligada ao Outro. 

Estamos, portanto, na presença de uma verdadeira síntese dialética da experiência do amor, com o que tem de mais perturbador, patético, entusiasta ou melancólico por um lado, e singularmente judaico por outro, legislando, unificando, subsumindo o ardente eros em direção ao Outro, Deus.

Por Romulo Araujo Oliveira

BIBLIOGRAFIA

A BÍBLIA – TEB. São Paulo: Edições Loyola (1995).

BOSETTI E. – DELL’AGLI N. Un Dio che prima sposa e poi fidanza. Assisi: Cittadella editrice (2015).

KRISTEVA J. Histoires d’amour. Paris: Denoel (1983).

SONNET J.P. Ogni coppia è un “giardino” in La Civiltà Cattolica 7/21 dicembre 2019 Anno 170.


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