Uma das experiências que mais me marcou no processo do meu discernimento do estado de vida no celibato foi a dimensão da maternidade espiritual dentro também da minha história de vida. Então, quando eu fui caminhando e buscando diante da inclinação que eu sentia para o celibato, uma das coisas que Deus foi me fazendo compreender foi a dimensão da exclusividade do amor a Deus, mas, ao mesmo tempo, esse amor que inclui a todos.
Eu ia me identificando muito com isso, porque quando eu olhava a beleza do matrimônio, via que é muito belo, mas não sentia que ecoava dentro do meu coração, uma exclusividade a alguém e que limitava de alguma forma a um núcleo. Eu sentia uma necessidade de exclusividade a Deus, mas que incluía a outros.
Bom, diante de muitas experiências e dentro da minha história de vida, dentro da maternidade espiritual, uma experiência que eu tive muito forte foi quando eu estava voltando do meu centro de evangelização no Rio de Janeiro e estávamos voltando para a nossa casa, final da apostolado, e aí encontramos no meio da rua uns jovens que estavam vendendo comida. Jovens não; crianças vendendo comida.
Quando eu olhei aquelas cenas, senti uma compaixão tão forte. Eu pensei “meu Deus, eu queria levar para casa, eu quero cuidar, eu quero…”.Senti aquele desejo de cuidar. E aí, em questão de segundos, desse momento, Jesus me fez lembrar de algo dentro da minha história de vida. Jesus dizia assim: “Gabriela, lembra que você queria adotar uma criança? Eu, dentro dos meus planos humanos, eu dizia assim, eu vou casar, vou ter meus filhos, mas eu também quero adotar uma criança. Porque eu dizia assim, meus filhos já vão ter o meu amor de mãe natural, mas eu quero dar amor de mãe a quem não tem amor de mãe.
Eu queria dar esse amor.
E aí Jesus dizia “Lembra disso?”
Eu disse “Sim, Jesus, eu lembro!”
E Jesus respondeu: Esse seu desejo de adotar uma criança, de ser amor dos órfãos, é, na verdade, um desejo que eu coloco no seu coração de ser mãe dos órfãos espirituais.
E aí foi onde eu tive aquele choque interior! Eu entendia que eram os órfãos espirituais! Foi uma experiência muito forte, porque, no dia seguinte, um jovem da minha casa, um jovem em missão, descobriu que a mãe dele não estava mais viva, tinha feito a sua páscoa. Na minha casa, tinha uma irmã casada que estava grávida. Ela disse para nós duas rezarmos por ele, pois ele estava na capela chorando muito. Era dia da Nossa Senhora das Dores.
E eu pensei “meu Deus, como rezar por uma pessoa nesse momento tão forte, tão de sofrimento?” Fomos rezar por ele. Quando eu olhava a irmã da minha casa, grávida, rezando por aquele jovem, e ele chorando, porque tinha perdido a mãe, no dia da Nossa Senhora das Dores, e eu lá rezando ao lado, Jesus dizia, “Vê que eu te dou os órfãos espirituais para que você seja mãe”.
Uma outra experiência que eu tive num centro de evangelização, no Shopping Via Brasil, na Missão Rio de Janeiro, foi a seguinte: eu tinha uma ovelha que aparecia de vez em quando no grupo de oração. Ia e voltava… TTeve um dia que eu estava na loja Halleluya, organizando algumas coisas, e eu escutei uma voz um pouco alterada, gritando, e eu pensei: “meu Deus, isso aqui parece com a voz da minha ovelha”. Quando eu olhei para trás, só dava pra ver os seguranças e eu não conseguia ver o rosto da pessoa. Mas algo no meu coração insistia que eu estava certa, que era realmente a minha ovelha de grupo de oração gritando naquele momento.
Os seguranças levaram ele para um banheiro masculino do Shopping, que fica em frente à loja Halleluya. Eu entrei e falei pro segurança: “eu acho que eu conheço a pessoa que está aí com você”. Ele não queria me deixar entrar, claro que não! Era um banheiro masculino e era uma situação desagradável. Mas eu pedi para o segurança perguntar se o nome do jovem era “X”, o nome de quem eu conhecia. O homem foi lá dentro, pegou a identidade e disse que era ele mesmo. Em seguida, eu ofereci ajuda aos seguranças: “Se você me deixar entrar, eu posso acalmar esse jovem”. Quando eu entrei, foi uma cena muito forte, porque estavam mobilizando o jovem no banheiro, e ele continuava alterado.
Eu disse à pessoa: “Jovem (falando o nome dele), sou eu: Gabi!” Nesse momento, ele começou a chorar, porque ele reconhecia a minha voz! Eu tive uma experiência muito forte, realmente de a ovelha que conhece a voz do pastor, do filho que conhece a voz da mãe. Ao mesmo tempo, eu conheci a voz dele também, porque eu não tinha visto o rosto dele, mas no início, eu ouvi a sua voz e o reconheci. Eu o acalmei, fiquei ali junto com ele. Era uma situação muito constrangedora estar com os seguranças ali, mas ao mesmo tempo, era muito desarmante também.
Deus me chama a desposar a humanidade, viver essa dimensão desse amor que é em Deus e que inclui a todos nessa generosidade do amor. Foi uma das experiências que Deus foi me dando para ajudar também a viver um processo de discernimento muito concreto do meu estado de vida, que passa também pela vida do outro, que vai sendo ao mesmo tempo também esse consolo para a humanidade. Realmente, é uma fecundidade máxima. Eu não imaginaria ter os filhos que eu tenho hoje pela vida missionária!
Enfim, eu louvo muito a Deus, assim, por essas experiências concretas, que realmente vão selando no meu coração o meu estado de vida, mas também a dimensão do ser para o outro. Para Deus e para o outro.
Gabriela Ramos
Comunidade de Vida
Missão Equador
