Institucional

Como explicar a renúncia a um amor humano terno, feliz e capaz de gerar vida?

‘Lanço a semente do meu corpo no Eterno, de lá virá minha posteridade’

“De fato, há eunucos* que o são desde o ventre de suas mães, há eunucos tornados tais pelas mãos dos homens e há eunucos que a si mesmos se fizeram eunucos por amor do Reino dos céus. Quem puder compreender, compreenda”. Mateus 19,12. (*Entendia-se por “eunuco” a pessoa que era impotente desde o nascimento e aqueles que se tornaram como resultado da castração.)

“A hipótese mais provável é que Jesus tenha permanecido “celibatário” por motivos religiosos … Se o celibato de Jesus é, um ponto de interrogação para nós, com toda certeza também foi para os seus contemporâneos. O Celibato era uma parábola em ação, a encarnação de uma mensagem enigmática com a intenção de mexer com as pessoas e provocá-las a pensar, seja sobre Jesus seja sobre elas mesmas. O argumento é controverso e delicado. Envolve as escolhas de cada um de nós e é impossível examiná-lo de um modo totalmente convincente. Quem puder entender, entenda.” (Meier, il hebreo)

DSC_0412Como explicar o Celibato pelo Reino dos Céus? Como explicar a renúncia a um amor humano de doação, parceria, cumplicidade, carinho e entrega generosa capaz de gerar vida? Segundo Santa Teresinha do Menino Jesus, “só o Amor explica a missão”. Eu a parafrasearia dizendo que só um chamado do Amor de Deus explica o Celibato pelo Reino dos Céus. Assim como o Carisma Shalom, o Celibato nasce de uma experiência com Deus de amizade, de intimidade e de apaixonamento.

Meu caminho para o Celibato pelo Reino dos Céus, dentro da Comunidade Shalom, foi sendo formado à medida que eu ia sendo tocada e curada pelo Amor de Deus. A partir desse amor, fui fazendo a experiência de me conhecer segundo o olhar de Deus. O conhecimento de mim mesma era muito limitado, pois era feito apenas a partir de mim e dos outros: pais, irmãos e amigos. O olhar de Deus foi completando o que minha limitada visão era capaz de ver sobre mim mesma. Então, pude entender e escolher muitas realidades que não estavam dentro das minhas expectativas e projetos. Realidades que tocam a eternidade.

O Celibato pelo Reino de Deus, segundo os Estatutos da Comunidade Shalom, é “um sinal escatológico”, sinaliza “a supremacia das realidades eternas sobre as transitórias” (ECCSh99).

20140913_023552Durante toda a minha vida, fiz planos e, claro, o matrimônio e os filhos estavam incluídos nesses projetos. Quando Deus entrou de verdade na minha vida, eu estava ainda na adolescência, mas fui sendo conduzida por Ele a novos lugares e conhecimentos. Fui aprendendo sobre Deus, sobre a Igreja, sobre o mundo e sobre quem é o homem e a mulher, a partir da oração. Foi na oração que me encontrei com Deus e comigo mesma. Foi na oração que fui convidada a trilhar um caminho interior de libertação, autoconhecimento e cura. Fui fazendo a experiência da verdadeira liberdade, a interior, e com isso o chamado de Deus foi se tornando cada dia mais claro e forte. Entendi que Deus me chamava à vida consagrada. Percebi que a vida consagrada que Deus queria para mim era na Comunidade Shalom como Comunidade de Vida. E no aprofundamento da relação com Deus, compreendi que o meu chamado, dentro da Comunidade de Vida, era ao Celibato pelo Reino dos Céus. “Quem puder entender, entenda”.

Porém, dentro de mim travou-se uma grande luta. Eu entendia, mas precisava aderir à vontade de Deus em sua totalidade, não pela metade. Compreendi que Deus não iria me forçar a nada, até porque não existe “Celibato forçado pelo Reino dos Céus”. Eu não havia nascido com nenhuma impossibilidade fisica para o matrimônio. As mãos dos homens também não me haviam feito inapta ou estéril. Só minha livre escolha me faria celibatária pelo Reino dos Céus, era necessário “fazer-me sim” com todo o meu corpo, consagrando tudo a Deus.

Deus me escolhera sem mérito ou justificativa alguma. Percebi que não precisava ter medo da solidão porque o Celibato supõe uma escolha mútua, assim como Jesus foi escolhendo seus discípulos, seus amigos e seus apóstolos. Compreendi que o Celibato pelo Reino dos Céus não depende só da minha decisão, pois a iniciativa não foi minha. É uma resposta a uma proposta de amor. Amor capaz de gerar vida nova, capaz de gerar filhos espirituais, capaz de gerar plenitude.

Quando tudo isso aconteceu e finalmente decidi pelo Celibato pelo Reinos dos Céus, estava em missão em Nazaré, na Galiléia, cidade do mistério da encarnação e da vida escondida de Cristo. Lá na casa de Nazaré, encontrei na Sagrada Família modelo ideal para que a Vontade de Deus pudesse se manifestar e prevalecer na minha carne e no meu coração.

Com muita alegria, na festa de Nossa Senhora de Guadalupe, no dia 12 de dezembro de 2010, fiz meus primeiros votos, e minha vida nunca mais foi a mesma. A cada ano, a Vontade de Deus vai se solidificando no meu coração, porque a cada dia eu escolho e digo sim Àquele que me escolheu. Vou confiando no plano que Ele traçou, apoiada em Seu infinito Amor. Lanço a semente do meu corpo no Eterno, de lá virá minha posteridade. “Toda glória pertence assim Aquele que nelas tudo realizou” (Escrito amor Esponsal).

Raquel Reis

Missionária da Comunidade Católica Shalom


Comentários

Aviso: Os comentários são de responsabilidade dos autores e não representam a opinião da Comunidade Shalom. É proibido inserir comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem os direitos dos outros. Os editores podem retirar sem aviso prévio os comentários que não cumprirem os critérios estabelecidos neste aviso ou que estejam fora do tema.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Parabéns minha irmã !
    Que nunca lhe falte a coragem nem a fé em lutar por uma causa justa.
    Uma oração a sua intenção sempre…