Parresia

Como lidar com a tal liberdade?

O individualismo coloca o outro como fronteira para a liberdade individual. Dessa forma, termina por despersonalizar, privando o indivíduo da verdadeira liberdade que se dá no encontro com a liberdade do outro.

Liberdade / Foto de bruce mars no Pexels

A partir do século XVIII, com o advento da modernidade, emerge também no corpo social o chamado individualismo burguês: “sistema de costumes, de sentimentos, de ideias e de instituições que organiza o indivíduo partindo de atitudes de isolamento e de defesa”[1], o qual, centrado exclusivamente na materialidade, impede a pessoa de existir plenamente.

Nesse contexto, o teórico personalista Emmanuel Mounier abraça a tarefa de evocar a noção de pessoa humana, de ser humano como corpo e espírito, em meio à sociedade moderna – reino do indivíduo, em que ainda habita uma espiritualidade desencarnada (e muitas vezes ausente) –, a fim de construir condições favoráveis para sua plena realização: “Impõe-se-nos hoje acabar com esse pernicioso dualismo, tanto na nossa maneira de viver, como no nosso pensamento. O homem é um ser natural; através do seu corpo faz parte da natureza, e o seu corpo segue-o por toda parte”[2]

A pessoa humana surge no pensamento de Emmanuel Mounier como uma categoria aberta, não hermética. A definição de pessoa humana a aprisionaria em um conceito que per si já não a representaria, pois, uma característica base da pessoa humana é a liberdade, que contém sempre em si um mistério. A pessoa humana é o que de mais íntimo há no homem, o ‘irrepetível’. Não pode ser, portanto, um objeto, a ser examinado ou moldado exteriormente. É sempre sujeito. Não se deve cair, no entanto, em um idealismo incapaz de dar nomes, relegando a pessoa humana ao reino do abstrato, ela se manifesta por meio do corpo e nele apresenta toda sua subjetividade.

Seria um engano, por sua vez, acreditar que a subjetividade implica em um fechamento da pessoa humana em si mesma. O indivíduo, entendido como ser que pode ser isolado, desligado completamente de seus vínculos exteriores, é a antítese da pessoa humana. Este átomo social seria a base de uma construção social específica e historicamente definida: a “sociedade burguesa”. A partir do indivíduo, portanto, derivar-se-ia toda a construção dessa sociedade. O individualismo, assim, representaria a negação da pessoa humana em suas três dimensões fundamentais: liberdade, participação e comunicação.

A liberdade burguesa, tão propagada por essa sociedade, para Emmanuel Mounier é falsa. O individualismo coloca o outro como fronteira para a liberdade individual. Dessa forma, termina por despersonalizar, privando o indivíduo da verdadeira liberdade que se dá no encontro com a liberdade do outro. A liberdade burguesa, assim, impede a pessoa humana de participar plenamente do corpo social e de comunicar-se (existir) com outras pessoas. “As outras pessoas não a limitam, fazem-na ser e crescer. Não existe senão para os outros, não se conhece senão pelos outros, não se encontra senão nos outros.” [3]

O indivíduo, por não necessitar do outro, é incapaz de pertencer a um grupo, uma coletividade. Não há para ele identidades com o coletivo. A construção da sociedade burguesa é então a soma de vários indivíduos, que podem até constituir uma coletividade “deformada”, mas que, por não se perceberem como pessoas, não conseguem levar a essa coletividade as características próprias do que seria um convívio social livre e responsável. O mundo aparece para o indivíduo já pronto, cabendo a ele permanecer na esfera cotidiana do privado.

Assim, a pessoa humana perde sua característica da participação e da autocriação. Como já exposto, o movimento de personalização envolve a pessoa e o corpo social. Participando como pessoa da coletividade é que se pode construir de maneira sólida a própria subjetividade e fazer despertar os outros ao mesmo movimento. A esta construção social animada pelo engajamento pessoal Emmanuel Mounier chama comunidade. Em suma, “a pessoa só se liberta, libertando”[4] Assim, a comunidade é local privilegiado para se desconstruir a falsa perspectiva individualista que nos cerca, enquanto membros de uma sociedade individualista, e para se construir identidades verdadeiras e profundas, enquanto pessoas humanas.

Por Emanuel Sebag de Magalhães
Economista, Consagrado da Comunidade de Aliança Shalom

Bibliografia

[1] MOUNIER, Emmanuel. O Personalismo. Tradução de Vinícius Eduardo Alves. São Paulo: Centauro, 2004, p. 44

[2] MOUNIER, Emmanuel. O Personalismo. Tradução de Vinícius Eduardo Alves. São Paulo: Centauro, 2004, p.30

[3] MOUNIER, Emmanuel. O Personalismo. Tradução de Vinícius Eduardo Alves. São Paulo: Centauro, 2004, p. 46

[4] MOUNIER, Emmanuel. O Personalismo. Tradução de Vinícius Eduardo Alves. São Paulo: Centauro, 2004, p.38

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