João 3, 13-17 – Homilia de Frei Raniero Catalamessa feita no dia Exaltação da Santa Cruz
Atualmente a cruz já não se apresenta aos fiéis em seu aspecto desofrimento, de dura necessidade da vida ou inclusive como um caminhopara seguir a Cristo, mas em seu aspecto glorioso, como motivo dehonra, não de pranto. Antes de tudo, digamos algo sobre a origem destafesta. Ela recorda dois acontecimentos distantes no tempo. O primeiro éa inauguração, por parte do imperador Constantino, de duas basílicas,uma no Gólgota, outra no sepulcro de Cristo, no ano 325. O outroacontecimento, no século VII, é a vitória cristã contra os persas, quelevou à recuperação das relíquias da cruz e sua devolução triunfal aJerusalém. Contudo, com o passar do tempo, a festa adquiriu umsignificado autônomo. Converteu-se em uma celebração gloriosa domistério da cruz, que, sendo instrumento de ignomínia e de suplício,Cristo transformou em instrumento de salvação.
As leituras refletem esta perspectiva. A segunda leitura volta a proporo célebre hino da Carta aos Filipenses, onde se contempla a cruz como omotivo da maior «exaltação» de Cristo: «aniquilou-se a si mesmo,assumindo a condição de escravo e assemelhando-se aos homens. E, sendoexteriormente reconhecido como homem, humilhou-se ainda mais,tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz. Por isso Deus oexaltou soberanamente e lhe outorgou o nome que está acima de todos osnomes, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho no céu, na terrae nos infernos. E toda língua confesse, para a glória de Deus Pai, queJesus Cristo é Senhor». Também o Evangelho fala da cruz como do momentono qual «o Filho do homem foi levantado para que todo o que creia tenhapor Ele vida eterna».
Houve, na história, dois modos fundamentais de representar a cruz e ocrucifixo. Os chamamos, por comodidade, de o modo antigo e o moderno. Omodo antigo, que se pode admirar nos mosaicos das antigas basílicas enos crucifixos da arte romântica, é glorioso, festivo, cheio demajestade. A cruz, frequentemente sozinha, sem crucifixo, apareceprojetada em um céu estrelado, e sob ela a inscrição: «Salvação domundo, salus mundi», como em um célebre mosaico de Ravena.
Nos crucifixos de madeira da arte românica, este tipo de representaçãose expressa no Cristo que reina com vestes reais e sacerdotais a partirda cruz, com os olhos abertos, o olhar para a frente, sem sombra desofrimento, mas radiante de majestade e vitória, já não coroado deespinhos, mas de pedras preciosas. É a tradução do versículo do salmo:«Deus reinou do madeiro» (regnavit a ligno Deus). Jesus falava de suacruz nestes mesmos termos: como o momento de sua «exaltação»: «E quandoeu for levantado da terra, atrairei todos para mim» (Jo 12, 32).
A forma moderna começa com a arte gótica e se acentua cada vez mais,até converter-se no modo ordinário de representar o crucifixo. Umexemplo é a crucifixão de Matthias Grunewald no altar de Isenheim. Asmãos de os pés se retorcem como arbustos ao redor dos cravos, a cabeçaagoniza sob um feixe de espinhos, o corpo coberto de chagas.Igualmente, os crucifixos de Velázquez e de Dali e de muitos outrospertencem a este tipo.
Os dois modos evidenciam um aspecto verdadeiro do mistério. A formamoderna-dramática, realista, pungente – representa a cruz vista, porassim dizer, por diante, «de cara», em sua crua realidade, no momentoem que se morre nela. A cruz como símbolo do mal, do sofrimento domundo e da tremenda realidade da morte. A cruz se representa aqui «emsuas causas», isto é, naquilo que, habitualmente, a ocasiona: o ódio, amaldade, a injustiça, o pecado.
O mundo antigo evidenciava não as causas, mas os efeitos da cruz; nãoaquilo que produz a cruz, mas o que é produzido pela cruz:reconciliação, paz, glória, segurança, vida eterna. A cruz que Paulodefine como «glória» ou «honra» do crente. A festividade de 14 desetembro chama-se «exaltação» da cruz porque celebra precisamente esteaspecto «exaltante» da cruz.
Deve-se unir à forma moderna de considerar a cruz, a antiga:redescobrir a cruz gloriosa. Se no momento em que se experimentava aprovação, podia ser útil pensar em Jesus cravado na cruz entre dores eespasmos, porque isto fazia que o sentíssemos próximo a nossa dor,agora há que pensar na cruz de outro modo. Explico com um exemplo.Perdemos recentemente uma pessoa querida, talvez depois de meses degrande sofrimento. Pois bem: não há que continuar pensando nela comoestava em seu leito, em tal circunstância, em tal outra, a que ponto sehavia reduzido no final, o que fazia, o que dizia, talvez torturando amente e o coração, alimentando inúteis sentimentos de culpa. Tudo istoterminou, já não existe, é irreal; atuando assim não fazemos mais queprolongar o sofrimento e conservá-la artificialmente com vida.
Há mães (não digo para julgá-las, mas para ajudá-las) que depois deterem acompanhado durante anos um filho em seu calvário, quando oSenhor o chama para Si, rechaçam viver de outra forma. Em casa, tudodeve permanecer como estava no momento da morte do filho; tudo devefalar dele; visitas contínuas ao cemitério. Se há outras crianças nafamília, devem adaptar-se a viver também neste clima permeado de morte,com grave dano psicológico. Estas pessoas são as que mais necessitamdescobrir o sentido da festa de 14 de setembro: a exaltação da cruz. Jánão és tu que leva a cruz, mas a cruz que te leva; a cruz que não tearrebata, mas que te ergue.
Há que pensar na pessoa querida como é agora que "tudo terminou". Assimfaziam com Jesus os artistas antigos. Contemplavam-no como é agora,como está: ressuscitado, glorioso, feliz, sereno, sentado no trono deDeus, com o Pai que "enxugou toda lágrima de seus olhos" e lhe deu"todo poder nos céus e na terra". Já não entre os espasmos da agonia eda morte.
Não digo que se possa sempre dominar o próprio coração e impedir quesangue com a recordação do sucedido, mas há que procurar que impere aconsideração de fé. Senão, para que serve a fé?