Uma vez que conhecemos a dinâmica da lectio podemos passar à sua aprendizagem. Antes de mais nada é preciso dizer que a lectio só se aprende através de uma exercício continuo e diário e, se possível, acompanhado por uma pessoa mais experiente.
A Preparação para entrar na Lectio divina
O texto que segue é a transcrição, com algumas adaptações, de Fidel Oñoro, À escuta do Mestre. Iniciação à leitura orante da Bíblia. “Lectio Divina” (Colecção Tercer Milénio 16; CELAM: Santafé de Bogotá, 1996) 19-45.
“O Mestre está ali e chama-te”(Jo 11,38)
A preparação é decisiva para o êxito da Lectio Divina. Para poder escutar a outro, há que baixar, primeiro, o tom da voz, fazer silêncio, concentrar-se. O clima ideal para a Lectio é o que São João da Cruz chamou “solidão sonora” (Ct 1,5); isto é, calar o ruído de tantas vozes que nos invadem, a fim de captar o doce assobio do Espírito na Palavra de Deus.
Podemos considerar-nos preparados quando tivermos conseguido entrar neste silêncio receptivo, atento, consciente da presença de Deus que vem amorosamente ao nosso encontro com o Dom da sua Palavra.
Muitas vezes este momento chega a ser um verdadeiro combate espiritual. Particularmente naqueles dias em que temos muitos compromissos ou temos algum problema, ou estamos cansados, ou vimos de alguma atividade agitada. Graças a Deus, haverá dias em que será relativamente fácil entrar na Lectio. O importante é Ter presente que…
Não é possível entrar na inteligência
Do texto sem o coração pacificado e
Possuído pelo Espírito Santo (cf. Lc 24,36.45.49)
Retenhamos estes dois aspectos: pacificação do coração e posse do Espírito de Deus. Cada um, a partir do conhecimento e do controle que tem de si mesmo e da sua experiência de Deus, poderá encontrar a maneira de realizar esta preparação. Contudo, quereremos dar algumas sugestões.
A pacificação do coração
O coração é, por assim dizer, o órgão da Lectio. Tal como o ensina a Bíblia, o coração é o mais íntimo da nossa personalidade, a profundidade da nossa consciência (ver Mc 7,21). É ali onde o Senhor quer começar a falar, a pôr o seu toque criador e a transformar.
Como na parábola da semente, há necessidade de um terreno preparado: “as preocupações do mundo, a sedução das riquezas e as demais concupiscências abafam a Palavra, e esta fica sem fruto.”(Mc 4,19)
É o mesmo Senhor quem nos convida amavelmente, como o fez com Marta: “Marta, Marta, preocupa-te e inquieta-te com muitas coisas, quando uma só é necessária” (Lc 10,41ss). A sua instrução é clara: “entra no teu quarto” (Mt 6,6), ou seja, no espaço da tua intimidade, no lugar do teu coração.

Poderíamos apresentar a exortação do Senhor em breves imperativos didáticos, úteis para a nossa preparação:
“Entra no teu quarto!” Conhece o espaço onde vive a tua intimidade, refugia-te ali, busca o silêncio, a solidão.
“Limita o teu tempo!” Não mostres a insignificância dos teus trabalhos, sê generoso porque o teu tempo é de Deus.
“Ajuda-te de alguma coisa!”, se é que o consideras necessário, por exemplo: de um ícone, da luz de uma vela, de uma cruz, talvez um pouco de música.. Recorda que é apenas uma ajuda.
“Interroga o teu coração!” Toma consciência da maneira como te apresentas diante de Deus, como estás agora e a que estás disposto nesta Lectio. Entra na oração com a tua própria realidade, com tudo o que és. Recorda-te do teu povo, também por amor dele buscas o Senhor.
“Suplica!”, como o rei Salomão: “dá-me um coração que saiba escutar, para discernir”(cfr. I Rs 3,9).
E uma sugestão prática: escuta a tua própria respiração, sente o ritmo. Isto ajuda a concentração. O ritmo da respiração é como o termômetro do nosso estado de ânimo, da nossa situação de paz. Por vezes está agitado… Toma consciência disto e ajuda-te.
Quando atiramos uma pedrazinha ao lago, estando as suas águas tranqüilas, as suas ondas são mais nítidas e vemo-las expandir-se até beijar os extremos.
A invocação do Espírito
Assim como na celebração da Eucaristia é a ação do Espírito Santo que opera a transformação das espécies do pão e do vinho no Corpo e Sangue do Senhor, assim também é o mesmo Espírito que modela em toda a igreja o Corpo de Cristo. Na Lectio vivemos este influxo poderoso do Espírito Santo, que conduz à “Verdade completa” (Jo 16,13), isto é, a Jesus nas Escrituras, e o atualiza em nós. O Espírito é o “Paráclito”, o assistente do leitor-orante e por isso o invocamos (ver Jo 14,26; DV12). As palavras da Dei Verbem nos fazem entender melhor a necessidade da invocação do Espírito Santo: “A Sagrada Escritura deve ser lida e interpretada com o mesmo Espírito com que foi escrita.”(Dei Verbum 12)

São Paulo o assinala aos leitores da Bíblia que “a letra mata, mas o Espírito dá vida” (II Cor 3,6). O importante não é o texto, mas o fato de chegar a ser Bíblias viventes: “Sendo evidente que vós sois cartas de Cristo, escrita pelo nosso ministério, não com tinta, mas em tábuas de carne, nos corações”(II Cor 3,3). Com a invocação do espírito marca-se o ponto de partida correto, porque é assim que a Lectio começa a ser “divina”.
A melhor invocação do Espírito para este momento é a que Deus inspira a cada um. Todos estamos capacitados para criar o nosso próprio “Vem, Espírito Criador”. Mas sabemos, as orações e músicas feitas por outros são também escola de oração, especialmente aquelas que estão avalizadas pela Igreja. Eis aqui uma bela oração inspirada em textos bíblicos que nos pode ajudar:
“Senhor, nosso deus, Pai da luz, Tu enviaste ao mundo Tua Palavra,
sabedoria que sai da tua boca
e que reinou sobre todos os povos da terra (Ecle 24,6-8)
Tu quiseste que ela faça a sua morada em Israel e que, através de
Moisés, dos Profetas e dos Salmos, (Lc 24,44) ela manifeste a Tua
Vontade e fale ao teu povo de Jesus, o Messias esperado.
Finalmente, quiseste que o teu próprio Filho, Palavra eterna que de ti
Procede (Jo 1,1-14) se fizesse carne e erguesse a sua tenda no meio de
Nós. Ele nasceu da Virgem Maria e foi concebido pelo Espírito Santo
(Lc 1,35). Envia agora o teu Espírito sobre mim: que Ele me dê um
coração capaz de escutar (I Rs 3,9) me permita encontrar-te em tuas
Santas Escrituras e gere o Teu Verbo em mim.
Que o teu Espírito Santo levante o véu de meus olhos (II Cor 3,12-16)
Que Ele me conduza à Verdade completa (Jo16,13) e me dê inteligência
E perseverança. Eu to peço por Jesus Cristo, Nosso Senhor, que seja
Bendito pelos séculos dos séculos. Amém
(E. Bianchi)
Em vez de uma oração elaborada, pode fazer-se uma simples invocação em forma de jaculatória a partir do Salmo da Lectio Divina, o Salmo 119 (118). Por exemplo, pode repetir-se esta frase ao ritmo da respiração : “Invoco-te com todo o coração, senhor, e guardarei os teus preceitos”(Sl 119,145); ou esta outra: “Vê como amo os teus decretos, senhor, conserva-me a vida pela tua bondade”(Sl 119,159). Desta maneira suplicamos o Dom do Espírito. O Salmo 119 será sempre uma mina de sugestões para esta oração no começo da Lectio Divina.
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