Formação

Como tornar eterno o que é bom

Parece que somos obrigados a escolher o provisório, mesmo que desejemos o eterno. Quem não sonha em chegar à idade adulta com esposa, filhos, amigos queridos perto de si, e curtir a terceira idade com os netos? Mas que escolhas fazemos para isso?

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Foto: Pexels

A velocidade das conexões de internet nos faz, mais que nunca, não conseguir fazer uma coisa de cada vez. A invenção das abas nos browsers caiu como uma luva. Não consigo imaginar como conseguíamos navegar na internet abrindo uma página de cada vez, no máximo duas ou três. Essa capacidade enlouquece o pessoal das gerações passadas, que nunca consegue entender como “esses jovens de hoje conseguem fazer tudo ao mesmo tempo”.

Em uma aba, o e-mail; na outra, o facebook; na outra, o twitter; na outra, uma notícia que comecei a ler e parei na metade para ver aquele link que apareceu, que me jogou nessa outra página que estou lendo agora. Opa! Alguém me chama no Gtalk, respondo, volto para a página que estava lendo; antes, vejo se tem alguma atualização no twitter. Hum… não sabia que tinha saído o novo iphone, vou ver bem rapidinho esse link. E ai vou… Quando menos percebo, tenho pelo menos 10 abas no meu browser.

Não só na internet. Duvido que alguém consiga ler tudo o que aparece escrito nos telejornais internacionais. Além do repórter falando, aparece o tema, umas frases que não param de passar, à esquerda a cotação do dólar e do euro, à direita uma imagem piscando com a hora das principais capitais e a previsão do tempo etc.

Esses hábitos começam a vir para a nossa vida cotidiana. O multitasking tem nos feito aproveitar muito pouco de tudo o que vivemos. Sentimo-nos perdendo tempo quando fazemos uma coisa só de cada vez. E aqui está o risco e ao mesmo tempo uma grande oportunidade.

Enquanto assistimos ao filme no cinema, enviamos mensagens para os amigos dizendo que estamos com saudade. Nem assistimos o filme, nem estamos com nossos amigos. Quando encontramos os nossos amigos, garantimos as fotos para registrar o momento, e passamos toda a convivência vendo os comentários dos outros, que dizem que gostariam de estar também comigo naquele momento, que estou bonito na foto… Assim, nem aproveito os que estão comigo, nem aqueles que não estão. E assim por diante.

Há uma necessidade de revalorizar o presente, o momento. Esforçar-se por fazer uma coisa a cada momento pode ser um exercício mais difícil do que imaginamos, mas necessário para nos relacionarmos sadiamente no ambiente virtual e com as novas tecnologias.

Inteiramente presente

No processo de canonização do Papa São João XXIII, impressionou-me que nos seus escritos, desde os 15 anos de idade, escrevia claramente os seus 4 propósitos de santidade: “Eu renovo o propósito de me tornar santo, e assim o farei, por meio de quatro pontos que me proponho a viver: espírito de união com Cristo, recolhimento do coração, recitação do rosário e estar inteiramente presente em cada ação”.

Estar inteiramente presente em cada ação pode ser uma grande luz para nós que vivemos nessa geração do multitasking. Dar tudo de si em cada coisa que fazemos pode ser o caminho mais inteligente e mais santo. Não dá para estar na missa, por exemplo, e estar twitando as frases fortes da homilia do padre ou postando as fotos da consagração no instagram ao mesmo tempo!

Mais que um problema, para mim isso também expressa um traço em nós do desejo da eternidade. Queremos registar todos os melhores momentos, porque, se registrados, parece que se tornam eternos. Então não condeno as fotos dos momentos especiais nem o compartilhamento de coisas importantes na vida, porém, só vivendo bem aquele momento posso fazê-lo importante de verdade. A foto do lazer com os amigos só vai ser importante também à medida que a convivência com eles tiver sido agradável e “inesquecível”.

A sede pela eternidade

Acho que assim se expressa a sede que temos pela eternidade. Nós, jovens dessa geração, trazemos dentro de nós um desejo muito grande por tudo o que é eterno. Isso parece estranho quando ouvimos constantemente os alertas para o risco da “cultura do descartável”.

É no paradoxo que se esconde a verdadeira sede. O desejo pelo eterno se potencializa quando são apresentadas tantas “soluções” de felicidade, mas estas mesmas soluções não nos plenificam em nada. É como se morrendo de sede lhe oferecem água salgada; é água, mas não sacia nada, ao contrário, só aumenta a nossa sede.

Parece que somos obrigados a escolher o provisório, mesmo que desejemos o eterno. Quem não sonha em chegar à idade adulta com esposa, filhos, amigos queridos perto de si, e curtir a terceira idade com os netos? Mas que escolhas fazemos para isso?

Estamos desacreditados do eterno, por isso desacreditamos do matrimônio! Se perguntar: esse relacionamento é sério mesmo, para sempre? –Sim, quero que seja!– E porque você não se casa? –Sei lá, vai que não dá certo. Ainda resta o desejo, mas a esperança parece que escapa das mãos como areia dentre os dedos.

Construir a eternidade é necessário. É necessário semear o eterno para colher os frutos saborosos e sadios que servirão para a eternidade. O desejo da eternidade não precisa ser guardado, ele deve ser o parâmetro para as decisões de cada momento. A eternidade se constrói sobre a Vontade de Deus.

Whatsapp criminoso

Conheço um amigo que fala constantemente essa frase: “O Whatsapp aproxima quem está longe e afasta quem está perto”. Cheguei à conclusão de que ele está errado! O Whatsapp não tem culpa de nada, não é desinstalando do meu celular que resolvo o problema nem o tornando um demônio, do qual todos devem se afastar para não se contaminar. O programa oferece a oportunidade, mas não me condiciona a nada.

É cada vez mais comum, em um grupo de amigos, que durante uma convivência façam o acordo de colocar os celulares sobre a mesa e não os atenderem até acabar a convivência. O primeiro que pegar, paga a conta. É uma tentativa de valorizar o presente.

Revalorizar o presente

Seja múltiplo fazendo uma coisa de cada vez, assim você vive bem cada momento. E mesmo sem foto, ele ficou registrado. Um dia eu estava em um momento de adoração ao Santíssimo Sacramento, era um momento muito forte. Quando percebi a quantidade de pessoas – especialmente de jovens – que tiravam fotos. Por quê? Eles estavam dispersos, estavam querendo ir embora? Não! Queriam registrar para “guardar”, eternizar!

A dica é: revalorizar o momento presente é a melhor forma de tornar a foto um poderoso instrumento para a sede de eternidade.

Franco M. Silva Galdino
missionário da Comunidade Católica Shalom

Artigo originalmente publicado na Revista Shalom Maná 


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