Com alegria e também com o sadio temor pela responsabilidade da missão, venho testemunhar sobre a Comunhão de Bens na minha vida. O temor veio porque, nos últimos dois anos, tenho sido provada na vivência da Pobreza e no “abandono total nas mãos de Deus”, que é próprio do nosso Carisma.
Antes de continuar, uma informação necessária para que você entenda meu testemunho: servi quase 10 anos em outros movimentos antes de conhecer o Shalom. No meu histórico vocacional, fui Comunidade de Aliança Missionária por 3 meses na Argélia; depois ingressei na Comunidade de Vida, onde permaneci por 5 anos, até que retornei à Aliança, onde permaneço e fiz minhas promessas definitivas. É um pouco fora do “padrão”, mas é papo para outro dia…
Dito isso, a Comunhão de Bens nunca se resumiu, para mim, a 15%. Desde a juventude, eu pegava o carro dos meus pais — porque transporte era aquela luta que a gente conhece bem. Quando não enchia de materiais para os retiros, eu enchia de pessoas. A ponto de eles não aguentarem mais e comprarem um carro pra mim.
Quando recebi a chave, me surpreendi com minha reação. Veio um pensamento como uma flecha que saiu do coração e foi direto à razão: “Esse carro não é meu, eu te consagro para que o Senhor o use como instrumento para Sua Obra.”
Olha, e foi tão sincero que, durante todos os primeiros anos da minha vocação, servi como motorista — e não era pouca coisa… E fazia com alegria e oferta. Se você puder servir como motorista, recomendo! Colhi tantas graças, conheci pessoas incríveis, tive várias aventuras!
Mas esse testemunho não me isentou das lutas constantes. Claro que a Pobreza não é uma vivência fácil. Por isso, quando ingressei na Comunidade de Aliança, preferi me prevenir de mim mesma: ao receber quantias, eu fazia quase como os descontos em contracheque — nem considerava o valor da Comunhão de Bens como meu. Me conhecendo… se eu fosse parar pra pensar, a luta seria grande!
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Logo nos primeiros meses, Deus me chamou a algo novo — tão novo que já fazem 6 anos e eu ainda não acredito que tive coragem: fui chamada a fundar uma Organização Social (ainda conhecemos mais como ONG, vou usar esse termo para facilitar). Até hoje eu brinco: “Saí da Comunidade de Vida, mas a Comunidade de Vida não saiu de mim.” Nos três primeiros anos fomos financiados pela empresa do meu pai, o que me favoreceu bastante em termos da vivência vocacional.
Mas, em um determinado período, comecei a pensar como humanamente pensamos: “Preciso me estabelecer, estou envelhecendo, e como vai ser isso?” “A organização precisa se estabelecer para não ficar sempre passando sufoco.” “Preciso melhorar minha renda, as pessoas pensam que eu vivo com o dinheiro dos meus pais.” “Ser Shalom é caro demais.” (Quem nunca? hehe)
Sem perceber, estava sendo fiel aos 15%, mas o coração começou a buscar conforto. Comecei a querer direcionar o dinheiro que era Dele. Eu não tinha mais uma autoridade humana para pedir e esperar pelas necessidades materiais, como na Comunidade de Vida, mas continuava discernindo com Ele como ia gastar meu salário. E, em algum momento — não me pergunte quando — isso se perdeu.
Até que um dia, em uma oração comunitária, estava apresentando a Deus meu cansaço diante das partilhas que fazia: “Poxa, mas será que essa pessoa está mesmo precisando? Será que eu preciso mesmo partilhar? Eu luto pelo meu trabalho, será que ela está lutando pelo dela?” Quando lembro desse pensamento, fico com vergonha de mim mesma. Nem parece eu… Na hora, Deus, em Sua Misericórdia, respondeu com aquela Voz audível que não deixa dúvidas: “Você está pensando assim porque tem seguranças.” Ali, a libertação aconteceu.
Pedi perdão e estava com tanta vergonha que não sabia o que fazer… As provas começaram a surgir. A empresa da minha família, que estava estável, foi prejudicada em uma negociação que nos deixou em dificuldades financeiras. Por consequência, perdemos o valor destinado à ONG. Eu tinha um valor investido que achava que ia segurar as contas nos primeiros meses, mas a empresa em que eu investia entrou em reestruturação financeira (o meu rico dinheirinho ficou preso… hehe).
E nisso tudo, eu só pensava: “Deus deu, Deus tirou e um dia, do jeito que Ele quiser, vai devolver.” Não por virtude humana, mas por Graça — um silêncio interior que só o Espírito nos dá.
Fui provada na busca por uma vocação de aparência: tinha vergonha de não ter nada para devolver à Comunhão de Bens; queria fugir das humilhações e julgamentos. Olha a incoerência: julguei e queria correr de ser julgada.
Fui provada no querer retorno pela Caridade que um dia Deus me deu a Graça de exercer. Ao pedir ajuda, percebi que não é tão simples aos irmãos compreenderem essa realidade.
Fica a dica: quando alguém diz pra você que precisa de alguma ajuda, considere o fato de que ela pode estar te buscando como último recurso seja para uma carona ou um desabafo. Nem tudo é sobre dinheiro.
Fui provada no querer resolver a situação pela lógica humana — trabalhar mais, a ponto de negligenciar minha saúde e vida de oração. Era correr na esteira: corria, corria, sem sair do lugar.
E, em tudo isso, as pessoas me questionavam: “Você AINDA está com a ONG?” Silenciosamente pensava, e às vezes até verbalizava: “Nem eu acredito, mas não é meu. Só vou parar se eu ouvir de Deus que é hora.”
Eu me sinto livre na vivência da Pobreza e de uma vida simples — não é da minha educação e personalidade viver diferente. Mas a privação desse tempo me levou a crer no abandono de uma vida extraordinária, vivida unida ao povo que Deus me confia, e para que eu não perca meu Olhar Dele e deles. Voltei à experiência que tinha esquecido: sou a FELIZ terceira.
Se eu pudesse resumir esse tempo, diria: estou andando nas águas como Pedro. Se olho para Ele, fico firme; se desvio o olhar, lembro que é “loucura para os homens — incluindo eu” — e sucumbo.
Deus não me enganou. Ele disse que a prova viria e que eu aprenderia a louvar em meio à fornalha — a fornalha que todos nós vivemos em meio à idolatria do dinheiro e ao mundo egoísta e hedonista em que vivemos.
Adoro frases de efeito, e a que quero dividir hoje com você é: Bendito seja Deus que exige muito, mas recompensa como ninguém!
O que é a Cruz diante da Ressurreição?

