O crescente interesse pela obra do Papa Bento XVI, marcada pela profundidade sem descuidar da clareza, demonstra a riqueza da sua forma peculiar de compreender a Deus numa forma realmente católica. Neste texto, escrito por Samuel Luz, missionário da Comunidade de Vida Shalom, você vai percorrer a história deste grande homem que a providência divina quis que se convertesse em Papa.
1. Como nasce e cresce um “Cooperador da verdade”
Para começar, permitamos que ele mesmo se apresente: “Eu nasci num Sábado Santo, 16 de Abril de 1927, em Marktl am Inn. O meu nascimento, no último dia da Semana Santa e na véspera da Páscoa, nunca passou despercebido na história da família, especialmente porque fui batizado na manhã do meu nascimento com a água recentemente benta na “noite da Páscoa”, que era celebrada pela manhã naquele tempo. E ser o primeiro a ser batizado com a água nova era considerado um sinal do Céu. O fato de a minha vida estar assim imersa no mistério pascal desde o início encheu-me sempre de gratidão, pois só podia ser um sinal de bênção. Claro que não era Domingo de Páscoa, mas Sábado Santo, mas quanto mais penso nisso, mais me parece estar de acordo com a nossa vida humana, que ainda está à espera da Páscoa, que ainda não está em plena luz, mas que se aproxima dela em confiança”.
O seu pai, o policial Joseph Ratzinger (1877-1959) e a sua mãe, Maria Peintner (1884-1963), acolheram assim o terceiro filho, depois de Maria (1921-1991) e Georg (1924-2020). O casal se conheceu numa idade singular e em circunstâncias especiais. O policial publicou um anúncio no jornal local de Altotting, o mais importante santuário mariano da Baviera: “Funcionário público, solteiro, católico, 43 anos, com um passado limpo, do campo, procura casar com uma moça boa, impecável, católica, que saiba cozinhar bem e fazer todas as tarefas domésticas, que seja também hábil em costura e que tenha um mobiliário”. A boa moça respondeu e, quatro meses mais tarde se casaram, em novembro de 1920.
A família viveu em Marktl por mais dois anos após o nascimento do futuro Papa. Os anos passados com a família em Marktl, de acordo com o Ratzinger de 50 anos (em 1977, quando escreveu a sua autobiografia), não foram fáceis: desemprego, reparações de guerra que pesaram sobre a economia alemã, confrontos partidários que colocavam uns contra os outros, doenças que atingiram a família.
Mas os primeiros anos do pequeno Joseph na escola se passaram à sombra do Terceiro Reich. Ele recorda que a “grande história” começava a ter efeito sobre a vida dos alunos. “Tínhamos chegado em Dezembro de 1932; em Janeiro de 1933, Hindenburg entregou os seus poderes como Chanceler do Reich a Hitler, o que, em linguagem partidária, significava uma “tomada de poder”. Foi lançada a “Juventude Hitleriana” e a “Liga das Moças Alemãs”, em conjunto com a escola, de modo que os seus irmãos também tiveram de participar nas manifestações. Ratzinger testemunha que durante os quatro anos que lá passou, o novo regime não teve outro efeito senão o de espiar os padres cujo comportamento era “hostil ao Reich”. “Naturalmente, diz ele, o meu pai não participou nisto, mas em vez disso avisou os padres e apoiou-os quando soube que estavam sob ameaça”.
A luta contra a escola religiosa começou. A união ainda existente entre a escola e a igreja deveria ser dissolvida e o seu fundamento espiritual já não seria a fé cristã, mas a ideologia do Führer, sublinha Ratzinger. Ratzinger ainda expressa a sua alegria e encantamento pela beleza da liturgia, que o tocava em momentos fortes como o Natal, durante a Quaresma, e especialmente na Páscoa: “Nas palavras cantadas pelo pároco: ‘Cristo ressuscitou’, as cortinas caíram subitamente, e uma luz radiante invadia o interior da igreja: não consigo imaginar uma celebração mais impressionante que a Ressurreição do Senhor”.
Ele faz uma comparação da liturgia (“imensa Realidade”) com a “grande História” do século. A sinopse que Ratzinger faz na sua memória é visível: por um lado, a liturgia católica com os seus sinais, símbolos e marcando as mudanças das estações, e por outro lado a “liturgia nazi”, que é própria da ideologia pré- e pós-cristã. Ratzinger recorda que na Primavera de 1939 se seguiu a ocupação da Tchecoslováquia e, após uma nova campanha contra a Polônia organizada de acordo com o mesmo ritual, a declaração de guerra no dia 1 de Setembro do mesmo ano. O seminário menor tornou-se um hospital militar. As potências ocidentais pareciam indecisas, e 1940 foi o ano dos grandes triunfos de Hitler: ocupou a Dinamarca e a Noruega; Holanda, Bélgica, França e Luxemburgo foram derrotados num curto espaço de tempo. Ratzinger pai profetizou: “Com uma clara clarividência, o meu pai viu muito claramente que uma vitória de Hitler não seria uma vitória da Alemanha, mas uma vitória do Anticristo, o prenúncio dos tempos apocalípticos para todos os crentes, mas não apenas para eles”.
O inteiro grupo de seminaristas da sua classe foi convocado para o serviço de defesa antiaérea, quando ele tinha 16 anos. Ao atingir a idade necessária para o serviço obrigatório, ele pôde regressar para casa, mas o chamado para o serviço nacional de trabalho obrigatório o aguardava. As semanas passadas no serviço de trabalho obrigatório continuarão a ser para ele uma memória opressiva.
Ao completar a idade militar, ele foi convocado. No final do treino militar básico eles foram transferidos para diferentes locais, mas Ratzinger adoeceu no início de fevereiro. Ele decidiu, após completar o seu 18º aniversário, no final de abril ou início de maio, regressar a casa, ou seja, desertar do exército: “Eu sabia que a cidade estava rodeada de soldados que tinham ordens para atirar imediatamente nos desertores, por isso tomei uma estrada lateral desconhecida, na esperança de chegar em segurança. Mas quando saí de uma passagem de nível, dois soldados estavam de guarda, e por um momento a situação foi extremamente crítica para mim. Eram, graças a Deus, homens que também estavam cansados da guerra e não queriam tornar-se assassinos. Tiveram de encontrar uma desculpa para me deixarem passar. Eu estava ferido e usava uma bandana. Então eles disseram: ‘Camarada, estás ferido. Siga o seu caminho'”.
De regresso à casa, são e salvo, a sua família teve de acolher um brigadeiro católico e simpático, mas que curiosamente ainda acreditava na vitória do “Império Alemão”. O velho senhor Ratzinger acabou conseguindo convencê-lo do contrário, depois de muita discussão. Uma visita mais perigosa teve lugar quando dois homens das SS foram alojados na sua casa e começaram a estudar a situação do jovem Ratzinger, que era de idade militar.
“Sabia-se que as SS tinham enforcado em arvores vários soldados das redondezas que tinham deixado as suas tropas. Além disso, o meu pai não pôde deixar de disparar imediatamente toda a sua raiva contra Hitler na cara deles, o que normalmente lhe teria custado a sua vida. Mas um bom anjo parecia proteger-nos: os dois homens desapareceram no dia seguinte, sem terem feito qualquer mal”.
Com a invasão das tropas aliadas, e com o fim da guerra, o jovem se torna prisioneiro de guerra e depois é liberado, refazendo um longo percurso de retorno à casa, onde deverá esperar ainda o retorno do irmão, de quem não tinham notícias. Mas Georg retorna inteiro também ele, e os dois irmãos ingressam no seminário maior, para se tornarem sacerdotes, um se tornará o Ratzinger do piano (Georg era músico) e outro o Ratzinger dos livros.
Depois de uma rápida experiência pastoral paroquial, o jovem é chamado ao dever que o engaja por toda a vida, o ensino. Se torna professor de teologia fundamental e de dogmática em diferentes universidades. No início da década de 60 o seu bispo o chama para colaborar como conselheiro e perito teológico no Concílio Vaticano II, onde ele terá um papel importante e obterá um reconhecimento. Ainda no ensino universitário ele enfrenta a enorme onda ideológica marxista que tomou conta das universidades alemãs na década de 60: “A destruição da teologia, agora devido à politização no sentido messiânico marxista, foi infinitamente mais radical (do que o existencialismo), pois assentava precisamente na esperança bíblica, a qual desnaturalizou, mantendo o fervor religioso, mas excluindo Deus, a quem substituiu pela ação política do homem. A esperança permanece (mas Deus é substituído pelo partido, pelo totalitarismo de um culto ateu), pronto a sacrificar toda a humanidade ao seu falso deus. Eu vi se revelar a face hedionda desse fervor ateu, o terror psicológico, a falta de qualquer complexo com o qual se sacrificava a reflexão moral como se fosse coisa burguesa, enquanto se tratava de um objetivo ideológico”.
Toda essa sua luta intelectual também o conduzirá a algo completamente inesperado para o sacerdote professor, que é chamado ao episcopado em 1977. A decisão de aceitar a nomeação para bispo foi extremamente difícil. Ele esperava ser dissuadido pelo seu confessor, que lhe disse, ao contrário: “Tens de aceitar!” A ordenação foi na véspera do Pentecostes de 1977.
Através da explicação do seu lema episcopal e dos símbolos do seu brasão, ele dá-nos uma apreciação do que se poderia esperar deste teólogo transformado em apóstolo. O seu lema é extraído da terceira carta de São João: “Cooperadores da verdade”. Isto pareceu-lhe ser a ligação entre a sua tarefa como professor e agora como bispo. “Para procurar a verdade, para se colocar ao seu serviço”. E sobretudo porque, no mundo que tinha diante de si, a questão da verdade quase desaparecera. O mouro coroado, só pode dizer que “não sabemos o que significa”. Mas para ele exprime a universalidade da Igreja, sem distinção de pessoa, raça ou classe, porque somos todos “um” em Cristo. A concha é antes de mais um sinal da nossa peregrinação, da nossa caminhada: “Não temos cidade permanente na terra”, afirma, citando a carta aos Hebreus (Heb 13,14). Este é o lugar (Topos) oferecido pela fé cristã ao homem de hoje: um caminho a percorrer, uma viagem com um objetivo escatológico. A concha lembra-lhe também a lenda segundo a qual Agostinho viu um anjo na praia, que lhe disse que “é mais difícil para a sua inteligência compreender o mistério divino do que deitar todo o mar num pequeno buraco”. Em outras palavras, a grandeza do mistério que ultrapassa toda a ciência.
Finalmente, o urso da lenda de Corbiniano, o bispo fundador de Frisinga. Depois de ter devorado o cavalo do bispo que viajava para Roma, o urso foi castigado pelo santo, assumindo nas suas costas a carga que o cavalo tinha carregado até então. Para Ratzinger, a quem o fardo do episcopado era realmente pesado, isto levou-o a recordar a meditação de um salmo de Santo Agostinho, onde encontrou justamente o fardo e a esperança da sua vida. Ratzinger viu o seu próprio destino: “Aquele que está ao lado de Deus não está necessariamente do lado do sucesso. (…) Sou um animal de carga perante vós, para vós, e é assim que eu sou aos vossos olhos. Tornei-me a vossa mula, sobrecarregada com o vosso jugo, e por isso estou para sempre perto de vós”.
No mesmo ano ele é nomeado cardeal da Santa Igreja. Em novembro de 1981 João Paulo II o nomeia prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e presidente da Comissão Bíblica Pontifical, assim como da Comissão Teológica Internacional.
Na Congregação para a Doutrina da Fé ele ganhará a falsa fama de sisudo e de exageradamente rígido, por condenar teólogos de renome e com novidades teológicas, como Hans Kung, Schillebeeckx, Leonardo Boff e Jon Sobrino. Estes últimos eram os principais representantes de uma linha progressista da teologia da libertação. O “cooperador da verdade”, com um urso no seu brasão, não iria se calar. Dizer a verdade sobre a fé católica era a sua missão.
Com a chegada da idade avançada, ele havia pedido a demissão várias vezes ao amigo João Paulo II, para poder se aposentar e se dedicar à oração e aos livros, mas foi sempre recusado. Deste modo ele é eleito como seu sucessor, apenas 3 dias depois de completar 78 anos.
2. Bento XVI
No dia 19 abril 2005 Ratzinger é eleito Papa, sucedendo o seu amigo João Paulo II. Na inauguração do pontificado, ele já anuncia o tom que dará ao seu magistério: O cristianismo não é uma ideia, mas uma pessoa viva, Jesus Cristo. Nessa mesma homilia ele afirma que “a Igreja é jovem, a Igreja é viva”. Ele se reconhece como um simples trabalhador da vinha do Senhor.
Durante os quase 8 anos de pontificado, a clareza doutrinal foi a sua marca. Ele foi o Papa da verdade, contra a ditadura do relativismo. Ele, que colaborou na juventude com o Vaticano II, deixou definido o papel da Igreja no mundo atual, através da imagem da barca de Pedro, fustigada pelos ventos e tempestades, mas segura porque o seu capitão é imbatível. De fato, não serão poucas as tempestades enfrentadas por esse Papa idoso e pouco à vontade sob os holofotes. A tempestade no dia da vigília da JMJ de Madrid, em 2011, acabou se tornando um símbolo dessa realidade. Curvado pela idade e pelo peso do dever, Ratzinger não se dobrou diante das dificuldades suscitadas pela incompreensão do discurso de Ratisbona, pela traição do seu mordomo, pela crise da pedofilia, que atingiu em cheio a Igreja bem no meio do Ano Sacerdotal.
Ele dialoga com a extrema pedagogia paterna com a juventude, que grita: “Esta es la juventud del papa!” Ele se faz compreender pelo jovem sedento de sentido e de verdadeira grandeza: “Cristo não nos tira nada, ele nos doa tudo”. Assim ele assume as JMJ’s de Colônia, de Sidney e de Madrid.
Renunciando por causa da idade avançada – anunciada no dia mundial dos doentes – ele oferece um sinal ao mundo, o culminar lógico de um pontificado marcado pela humildade.
Seu pontificado, em alguns números: Três encíclicas (Deus Caritas Est, Spe Salvi e Caritas in Veritate), três JMJ’s, cinco sínodos dos bispos. Três anos especiais: Ano paulino, sacerdotal e ano da fé. Trilogia “Jesus de Nazaré”, do teólogo Papa. Serão 24 viagens ao exterior.
* Samuel Luz é Bacharel em Teologia e Mestrando em História da Teologia na Faculdade de Teologia de Lugano, Suíça. Autor do Livro Meditações para a Semana Santa, o ebook mais vendido na Amazon, na categoria Religião, em abril de 2020. Texto retirado do artigo “Os últimos três Papas“, baseado na autobiografia de Joseph Ratzinger, escrita em 1977, quando ele completou 50 anos: “Souvenirs ma vie”.
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