A Mãe quebrou o silêncio. Lembrou de como foi belo quando o Filho instituiu a Eucaristia e o Sacerdócio naquela Ceia. De como os discípulos ainda não haviam compreendido como tudo teria que acontecer para que se cumprisse aquilo que estava nas Escrituras. Da agonia partilhada com o Filho:
– Naquela noite sofri junto com Ele. Não entendia como todas aquelas promessas iriam se cumprir, mas confiava que o Pai sabia exatamente como aconteceria. Tinha fé e esperança de que a morte não era o fim e que não seria o fim para Yeshua. Ele sempre nos dizia “Vim do Pai e ao Pai voltarei”. Sei que meu Filho sofria, o medo fazia parte da humanidade que havia assumido.
Lucas olhava para Ela tão fixamente, parecia que estava tomando notas para completar o Evangelho que escrevera. A Mãe continuava:
– Quando recebi a notícia de que O prenderam, tive a certeza de que precisava estar com Ele o tempo inteiro. Imediatamente Maria e João se aproximaram, nos olhamos, segurei a mão de cada um e partimos ao encontro de meu Filho.
– Yeshua estava na casa do Sumo Sacerdote. De longe avistei Pedro, parecia perdido e chorava muito. Tentei me aproximar, mas ele se afastou com aspereza. Entendi que precisava daquele momento para acolher a conversão de seu coração, e o que viria depois. – Ela comentou.
– Meu Filho apanhava, eu sabia. Como o profeta disse “O castigo que havia de trazer-nos a paz, caiu sobre Ele”… Todos os pecados caíram sobre Ele. Julgaram Yeshua. Foi primeiro para o Sinédrio, depois para Pilatos, para Herodes e para Pilatos novamente, que dizia não ter nada para condená-lo. Mas a multidão insistia para que soltasse Barrabás e que meu Filho fosse crucificado. Pilatos lavou as mãos e entregou Yeshua a eles.
Neste momento Ela parou e olhou para baixo. Levantou o olhar com um sorriso e continuou nos contando:
– Seguimos todo o caminho do Calvário sempre próximos de meu Filho. Ele caiu três vezes. Ele foi crucificado entre dois criminosos. Um o acusava, o outro o amava. Este está aqui conosco, chegou junto com Yeshua. Eu senti cada espinho em Seu corpo, cada chicotada, cada queda com a cruz, senti a dor da humanidade junto com meu Filho. O Sangue Dele me lavou também. Ele permitiu que os pecados, que eu desconhecia, pesassem sobre Si. E como pesaram. Mas, ao mesmo tempo, enquanto estava aos pés de Sua Cruz, eu recebia uma força imensurável, recebia a vida. Vi e senti cada parte do sofrimento de Yeshua. Chorei. Mas sabia que fazia parte do Plano. É claro que não queria que meu Filho passasse por tudo aquilo. Mas a humanidade precisava. Eu sentia Nele o peso dos pecados do mundo inteiro. João chorava muito. Maria também. É difícil ver alguém que você ama sofrendo daquela maneira.
Enquanto a Mãe estava nos contando, eu lembrava de como passamos por tudo isso aqui. E com certeza ela descreve tudo muito melhor do que eu. Que Ela continue:
– Quando escutei Seu último suspiro, o ar me faltou também. O segurei em meus braços. Beijei cada uma de suas feridas. Beijei nelas, cada um dos filhos que Ele havia me entregado. Beijei sua morte. Meu coração sofria, mas se alegrava ao entender que nunca em toda história haveria maior prova de amor como aquela que minhas mãos tocavam.
Continua…
Por Maria Angélica
