Já são cinco e meia da manhã quando levanto da cama na cidade que nunca dorme. Cheguei na semana de aniversário da cidade (25 de janeiro), no início do ano, carregando comigo além do meu sotaque do norte o fato de ser católico e consagrado a Deus. Isso me faz viver um modo de vida admirável e paradoxal, assumindo o centro como minha pátria mesmo sendo um forasteiro. É preciso descansar também em São Paulo para me ofertar melhor durante o dia, que passa tão rápido quanto os ônibus que atravessam a cidade ou as pessoas que descem as escadas rolantes pela esquerda nos terminais do metrô.
Em meio à oração pessoal, me levanto um pouco, e me recordo que já algum tempo Deus têm me falado sobre o privilégio que é viver esse tempo numa cidade grande, nesse areópago moderno, não tanto pela sua importância histórica e política – que por si só a torna grandiosa – mas pelo fato de me abrir a um tempo novo, cheio de desafios e possibilidades. Sinto que as pessoas que vem para cá deveriam se sentir assim também, cheias de confiança e esperança.
Me distraio e olho brevemente pela janela, e vejo as pessoas transitando pela calçada, me perguntando curioso, para onde cada uma delas se dirige: trabalho, atividade física, faculdade, eventos. Retorno para a oração, deixo o tempo kairós (tempo de qualidade) prevalecer sobre o tempo chronos (quantitativo). Passo a conviver com ele como uma oportunidade de me aproximar de Deus e de me tornar seu amigo, de enxergar a graça agindo em cada minuto passado, no presente e no por vir.
O Evangelho do dia é o da Parábola do Filho Pródigo (Lc 15, 11-32) e no mesmo instante lembro de tantos “filhos pródigos” espalhados nas esquinas, nos viadutos, nas calçadas…tantos que não posso contar. Queria socorrê-los todos, abraçá-los, vesti-los, colocar sandálias em seus pés, um pouco mais de dignidade em suas vidas, amor em seus corações, paz em suas vidas cheias de conflitos e desesperança.
O tempo no trabalho também voa, é produtivo apesar de cansativo. Sinceramente prefiro estar realizando qualquer atividade prática ou de consultoria, do que passar grande parte do meu dia sentado na frente de um computador editando fotos, projetos, relatórios, ou mesmo participando de reuniões que poderiam ser um simples email de orientação. Ainda dá tempo de comer alguma coisa antes da missa e é engraçado que eu também tento vencer o tempo, mesmo que não consiga. Essa criatura inevitável e implacável, essa imagem móvel da eternidade. Corre, come e te despede. Shalom!
Na missa, o padre aborda um jovem que está sentado no último banco da Igreja, em silêncio já faz meia hora. Ele tenta entender por que Deus, de tão grandioso se fez um de nós e quis nos salvar. Atento, escuto ele revelando que sendo budista, já passou por diversas experiências religiosas, mas o único lugar onde encontra verdadeira paz é na Igreja Católica. Mistérios que não são explicados literalmente, mas vividos intensamente são os melhores.
Pede perdão, ouve a Palavra, mergulha no salmo, deixa o Evangelho te transformar. Celebra o mistério que se fez carne e habitou entre nós. Comunga, e Deus fala ao coração, transforma, cura, liberta, dá consolo, nutre a fé. Mais uma vez sou fortalecido na esperança e revestido da caridade divina. Mais uma vez renovo meu sim, com coragem, renúncia e disposição. Com amor esponsal, a chama viva que inflama e purifica, e me faz viver com alegria e vigor a bem-aventurada vontade do Pai.
Atravesso a cidade rumo ao Shalom (Centro de Evangelização). “Não temerás a lotação do metrô, nem o sinal fechado do trânsito numa segunda feira. Santo anjo do Senhor, o milagre do tempo, por favor” quase vira minha jaculatória diária em meio ao caos no qual estou inserido. Me identifico com ele, eu contemplativo na ação. Não com o caos estéril, barulhento, apressado da cidade. O caos que para mim é possibilidade de surgir uma Obra Nova a cada dia, de querer voar entre os prédios mais altos para alcançar um céu que me aguarda ansiosamente.
A Semana Santa chegou para coroar esse novo tempo. Vivo a Quaresma atravessando vários viadutos, caminhando por entre várias quadras, percorrendo não só os meus desertos, também os desertos da humanidade cada vez que cruzo olhares com diversas pessoas. Também encontro oásis de paz na selva de pedra, descanso na vida dos irmãos, na acolhida dos mais experientes e na alegria dos mais jovens.
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Percebo mais uma vez que aqui os mestres pedem sinais, os forasteiros andam em busca de sabedoria, mas nós Shalom “porém, anunciamos Cristo crucificado, que para os judeus é escândalo, para os gentios é loucura” (I Cor 1,22). Para aqueles como nós que fomos chamados, sejam brasileiros ou irmãos de outros países que são atraídos por Deus, pelo Evangelho e o Carisma … é Cristo, poder de Deus, sabedoria de Deus!
Este é o tempo que tenho para viver: o hoje de Deus. Não cabe a mim entendê-lo por completo, cabe a mim sim vivê-lo bem, segundo o meu chamado de ser sal e luz para o mundo de hoje, habitando nessa grande metrópole e sendo peregrino da esperança. Faço a revisão de vida antes de dormir, dou mais uma olhada pela janela. Vejo as luzes da cidade, e vejo a luz de Deus que brilha por entre as nuvens e os prédios da Paulista. Sou feliz, sou estrangeiro aqui, sou Shalom. Existe paz em SP.
