Institucional

Da sanidade à loucura

479715_363293490434509_1150235962_nAos dezoito anos, em plena lucidez de minhas faculdades mentais, fui convidado por meus primos para ir ao centro da cidade, lá haveria de encontrar uma galera muito ‘massa’, jovens assim como eu que iam lá pra se encontrar, conhecer novos amigos, conviver, cantar. Rezar? Não! Foi assim minha resposta no ‘curto e grosso’! Como até hoje! Cheguei até a deixá-los constrangidos por participarem de tal atividade, disse que era idiotice esse grupo de jovens, estariam perdendo tempo.

Um mês depois, uma amiga do Colégio convidou a mim e a um amigo pra nos encontrarmos numa lanchonete e comermos uma coxinha bem barata. Algo diferente aconteceu, não era uma lanchonete comum, ficava em um espaço mais amplo e movimentado, havia muitos jovens que iam e vinham e o mais interessante não foi nem o fato de comer ‘de graça’, mas a espontaneidade deles, o modo como me olhavam, sorriam, cumprimentavam e conviviam entre si com uma alegria contagiante. 

Fui a um aniversário no final de semana seguinte lá no interior – brincadeira! É um bairro bem distante do centro de Aracaju, chamado Marcos Freire II. Essa amiga tinha uma irmã encantadora. Festejando seu aniversário estavam presentes não só amigos meus, como também amigos dela de um grupo de jovens. Aí ela me disse algo que mexeu comigo: ‘Igor, gostaria de comparecer ao Shalom neste próximo final de semana?’ Disse: ‘Não tenho tempo pra isso!’ Então, veio o golpe fatal no meu orgulho: ‘Quem não tem tempo para Deus, não tem tempo pra nada!’. Sorri meio sem graça, disfarcei, mas aquilo ficou martelando comigo.

Não gostava de Deus, não gostava da Igreja. Mas pela amizade, assim fomos a um encontro geral, tinha mais de 300 jovens naquele dia, um sábado, às 16h. As músicas eram engraçadas, os jovens faziam aquelas coreografias ridículas e eu seguia o ditado: ‘na terra de sapo, cocora-se com eles’. Meu intuito não era participar e sim identificar algum defeito que pudesse usar contra tudo aquilo e ‘jogar na cara’ de meu amigo. Abrir-lhe os olhos, era esse o meu interesse. 

Com toda ‘a razão’, reagia aos fatos à minha volta e não deixava passar nenhum detalhe, pois para destruir o inimigo, era preciso conhecê-lo antes muito bem. Há muito tempo, eu havia declarado minha inimizade à Igreja Católica, mais precisamente aos 10 anos, quando saí de dentro de uma Igreja acompanhado com minha mãe, brigando e chingando muito, afirmando exteriormente e internamente que nunca mais voltaria a assistir missa, ou qualquer outra atividade.

Mas…pensei comigo: “Seminário eu vou de um montão na UFS (Universidade Federal de Sergipe) e não vejo nada de mais, porém nunca eu iria encontrar 60 pessoas interessantes num final de semana em um Seminário onde 90% eram meninas lindas”. Pronto, fiquei curioso. O amigo que havia me convidado veio falar comigo e perguntou se eu não gostaria de ir também. Perguntei abertamente: ‘Nesse tal Seminário, rola de tudo?’, na “cara de pau” ele olhou pra mim e disse: ‘Sim cara!’. Faltavam duas semanas, mas naquela hora tinha me decidido e nada iria me fazer desistir. O coordenador era um sujeito ‘mau encarado’ chamado Cícero Santos (hoje membro com promessas na Comunidade) e ficou de conversar comigo no final do encontrão.

10, 11 e 12 de Setembro de 1999. Logo na primeira noite, “quebrei completamente minhas pernas”, fui surpreendido, porque a organização do evento era bastante rigorosa, e o que teria primeiro me levado a ir, agora, só restava ‘rezar’ pra acabar logo. Mas algo novo aconteceu no meio do caminho.

10334323_10201629325209543_4633867404251703001_nO apelido que me batizaram neste final de semana já fala por si sobre minha atitude durante os momentos propostos: homem da caverna, era assim que me chamavam. Minha participação era quase na força, não queria fazer nada, mas acabava envolvido com o movimento da maioria. É o famoso efeito de massa, pensava eu. Nas orações, meu coração era rígido e desconfiado. Nas formações, no campo das idéias, eu manjava e permanecia irredutível quanto aos meus fundamentos de universitário metido a alguma coisa.

Discutia, questionava, participava nos grupos de partilha, desconstruindo as palestras. Era incrível ver com que tamanha ferocidade defendia meus valores dos quais Deus não fazia parte.

O cansaço ia me vencendo, por que aquele “pedaço de pão” saía toda hora? Por que me seguia aonde eu fosse? O que era aquilo senão o óbvio: um pão! E como aquele pão sabia tanto de mim?

Num certo momento, me senti desafiado. Parecia estar acabando o encontro e nada em mim tinha mudado. Havendo então um momento de silêncio, a coordenadora pediu para por em prova a existência de Deus, e que Ele interviria com seu Espírito. Tendo olhado para meu amigo do lado, ele me disse: ‘notou que hoje fez um calor imenso e neste momento que ela citou ‘Espírito’ entrou um vento forte em toda a sala?’ Foi o momento da Efusão.

Será que esse vento que teria aberto o Mar Vermelho pra fazer passar o povo hebreu da escravidão à liberdade viria fazer isso em mim como haviam ensinado? Será que esse mesmo Espírito que agiu nos primórdios da Igreja em Pentecostes viria me oferecer uma experiência com um Cristo vivo, Ressuscitado, que não é lenda nem estorinha contada pelos professores de história, que por tanto tempo convenceu meu coração? Será que esse Cristo, se é que está vivo, viu e viveu minhas mortes e poderia também tirar-me delas e me levar à vida? Eu suspirava morte! Eu vivia na morte! Almejava o suicídio, pensava constantemente em matar. No meu aniversário de 18 anos, o meu pedido falei pra meu avô (homem que respeito muito), meu sonho era matar meus pais com um murro em cada um.

A minha ‘lucidez’ havia se tornado loucura, ignorância. Sou hoje profundamente ‘louco’.

964127_468414403254029_493123775_oDeus falou comigo! Deus se revelou e tem ao longo destes anos conduzido meus passos. Em casa com os meus, no trabalho, relacionamentos, casamento, filha.

Sou profundamente grato pelo Projeto Juventude para Jesus (PJJ), ao proporcionar este encontro que salvou minha vida. Não me canso de louvar a Deus e Ele de me lembrar de onde me tirou. Se não fosse esta intervenção clara, ou estaria preso, ou morto.   

‘Onde está o sábio? Porventura não tornou Deus louca a sabedoria deste mundo? A loucura de Deus é mais sábia do que os homens. Deus escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias’ (I Cor 1, 20, 25 e 27).

 

Igor Rezende Santos
Missionário da Comunidade de Aliança Shalom
Aracaju (SE)


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