¿Quién me tapará esta noche si hace frío?
¿Quién me va a curar el corazón partió?
(Trecho de Corazón Partío | Alejandro Sanz)
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Nasci nos anos 90, em Santiago, Capital do Chile. Faço parte, portanto, da juventude Fast Food, MTV, Living La vida loca, Forever Young e outras cositas más. Aprendi, desde cedo, que a vida era passageira, e que por isso, deveria ser aproveitada ao máximo.
Comecei a trabalhar muito nova para ajudar os meus pais. Fazia de tudo: Era motorista, ganhava uns trocados vendendo cosméticos e meu último emprego foi em uma casa noturna. Ali me realizei. Ganhava cortesias grátis para qualquer festança. Entre bebidas e paqueras, ia gastando os meus dias (ou melhor, as minhas noites), com o meu lema “Siga os seus sonhos. Faça o que quiser e curta a vida, porque a vida é muito curta.”
Comecei a beber muito cedo e adorava fazer umas misturas muito loucas! O Chile, inclusive, é conhecido por bebidas alcoólicas maravilhosas. Meu ritmo era frenético. Dormia pouco, tinha algumas crises de ansiedade — mas nada que me fizesse parar. No auge dos meus quase 30 anos, tinha uma vida estável. Não era rica, mas ganhava algum dinheiro, ajudava em casa e conseguia viver na curtição que queria.
Certo dia, recebi a notícia que mudaria o curso da minha vida: O meu pai estava com câncer. Bom, eu e ele não tínhamos um relacionamento bacana. Passava pouquíssimo tempo dos meus dias com o papai, pouco sabia sobre a sua rotina, inclusive. Foi aí que tudo mudou bruscamente.
Os meus dias badalados passaram a ser dentro de um quarto de hospital. Eu, que nunca havia tido contato próximo com o meu pai, passei a fazer parte da sua intimidade diária. Meus irmãos, que moram no estrangeiro, não puderam (e nem quiseram) participar dos momentos finais do nosso velho.
No cansaço, precisei de consolo, mas não o encontrei nos meus “amigos” que me acompanhavam nas noitadas da vida. Certo dia, no meio deste turbilhão, ao sair da universidade, atravessei a rua e encontrei uma lanchonete. Fui atraída pela plaquinha que comunicava: Culinária tipicamente brasileira. O Brasil sempre me encantou. A alegria daquele povo me fazia acreditar que eles viviam o ano todo em festa (risos). Depois descobri que o bom humor é uma das características dessa cultura.
Pois bem, voltando ao cenário da lanchonete: Gostei do anúncio e entrei. Ao sentar à mesa, fui servida por jovens que tinham um Espanhol muito engraçado. Percebi que eram estrangeiros, mas que faziam esforço para falar o meu idioma e achei aquilo admirável. Observava a alegria a qual eles preparavam os lanches. Não pareciam masterchefs profissionais, mas eram bem humorados e davam o melhor. Pedi uma coxinha, salgado típico do Brasil que sempre quis experimentar. Estava delicioso. Quis ficar mais um pouco.
Estranhamente, me senti em casa, como não me sentia nem na minha própria casa há muitos anos. O que aquele lugar tinha de diferente? Na parede, alguns avisos — “Grupo de oração às 19h, missa às 21h.” Me dei conta de que estava em um lugar católico — a lanchonete Shalom não era somente um espaço para comer uns snacks e ir embora. Como jovem, senti desejo de permanência. Fui me informar do tal — grupo de oração —, e aqueles jovens, sempre sorridentes, me disseram que eu podia participar. Não hesitei, fiquei mais um pouco.
Aquele lugar fraterno e acolhedor certamente não me esperava somente para uma refeição. Na noite do mesmo dia, resolvi retornar. Fui recebida por abraços, palmas, cânticos e muito calor humano. Era inverno no meu país. Parecia inacreditável sentir o meu coração tão quentinho de novo, na situação em que eu e minha família nos encontrávamos.
O tempo passou. Passei a visitar aquela lanchonete com mais frequência.
E acredite: Aqueles jovens generosos acompanharam comigo os últimos momentos do meu pai. Quando ele partiu, pude entender que a partir daquele instante eu não estaria mais sozinha: Ganhei, enfim, uma família. As minhas noites badaladas, que passaram a ser de uma casa noturna para um hospital e de um hospital para um centro de evangelização, nunca tiveram tanto sentido.
Mudei de emprego. Mudei de rotina.
Atravessar uma das maiores cidades da América Latina de metrô era um sacrifício muito pequeno diante do tesouro que eu iria receber na Eucaristia. Aos poucos, fui criando raízes naquele lugar. Entendi mais sobre a solidez de relacionamentos reais. Encontrei descanso na oração.
E aos completar os meus trinta anos, enfim, compreendi que mesmo não sendo mais tão jovem, havia encontrado um tesouro incomensurável ainda em minha juventude — e isso valia por toda a vida. “Tarde te encontrei, ó beleza tão antiga e tão nova“, já dizia Santo Agostinho.
Descobri, naquela lanchonete, que vale a pena sair de uma vida anestesiada — com constantes fugas e dores escondidas — para ingressar em uma verdadeira vida, a que só o Cristo pode nos dar.
Essa é uma história real de alguém que conheceu um amor noturno que não foi embora. Jovens do mundo inteiro: A verdadeira vida nasce de dentro para fora. E ela é bem mais badalada (risos) e duradoura do que qualquer noitada que possamos viver. Busquei no Shalom um lanchinho da tarde. Encontrei o alimento que não passa.
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Baseado numa história real
