Você que lê com assiduidade meus artigos no portal comshalom.org, sabe dos meus atuais limites de saúde. Para os que não sabem, eu vou fazer um breve resumo. Eu havia concluído os estudos em 2017 e estava esperando minha ordenação diaconal, porém em janeiro de 2018, no início do mês, eu estava com os meus irmãos de comunidade em nosso momento anual de férias comunitárias e ali se manifestou os primeiros sintomas do que depois foi diagnosticado por “encefalite herpética.” Trata-se de um vírus que atingiu uma área do meu cérebro, de modo que eu poderia ter morrido ou ficado com diversos efeitos colaterais. Fui hospitalizado, sobrevivi, mas a partir dali comecei a sofrer com a perda da minha memória recente.
Como eu disse, adoeci há pouco mais de dois anos e um dos exercícios que a minha médica indicou foi o de fazer memória dos acontecimentos mais antigos de minha trajetória de vida, escrevendo-os. Lembrei-me de dois acontecimentos especiais que muito me marcaram e partilharei com você.
Quando eu tinha meus 7 ou 8 anos de idade, às vezes meu pai me chamava e dizia: “Filho, vá ali na mercearia da esquina e compre isso e isso que sua mãe está precisando na cozinha”. Porém, entre nossa casa e a mercearia da esquina, havia uma casa onde morava uma família que tinha um rapaz com problemas mentais. O nome dele era João e os vizinhos o apelidaram de João doido. Ele tinha o habito de jogar pedras em quem passava na rua, principalmente se fossem mulheres ou crianças.
Diante do pedido do meu pai eu dizia assustado: “Pai eu não vou, pois o João doido está ali no meio do caminho, jogando pedra em quem passa na rua”. Meu pai fazia uma coisa simples, me dava um abraço e me dizia: “Vai, que ficarei aqui te olhando da janela”. Como eu disse, uma frase e uma atitude simples, mas que me enchia de coragem.
Eu então pegava a sacola e me dirigia cheio de confiança na promessa do meu pai. À medida que ia se aproximando da casa do João doido, o medo começava a se intensificar, as pernas começavam a tremer, o coração começava a bater mais forte, mas eu então me lembrava da promessa do meu pai: “Vai, que estou aqui te olhando da janela”. Eu então olhava para trás e assim me enchia de coragem com essa promessa simples e cumpria a tarefa que me havia sido confiada.
Hoje confesso a você que devido a limites atuais de saúde que trago, enfrento desafios, perigos e medos maiores do que aquele que o simples João doido me causava, mas trago o consolo e a gratidão, por perceber que essa atitude do meu pai, me ensinou a descobrir o olhar de Deus. A confiança e a coragem que surgia, brotava da certeza de eu era amado.
Fiz essa partilha para que você também possa identificar os perigos que te ameaçam, os fantasmas que te assustam e o faça convencido do amor de Deus por você. Quais são os medos que você tem enfrentado na vida? “A sabedoria do Senhor é imensa, ele é forte e poderoso e tudo vê continuamente. Os olhos do Senhor estão voltados para os que o temem. Ele conhece todas as obras do homem”. (Eclo:15,19-20)
Deus te conhece como ninguém, por isso ninguém te ama tanto quanto Ele. Desejo que essas palavras sejam uma declaração do amor do Senhor por você. Que te faça viver como uma criança nesse braço forte e poderoso. Se te fizeram bem essas palavras, compartilhe-as, faça com que elas cheguem a outros corações. Deus te abençoe sempre, Shalom.
Rodrigo Santos
