Temos tanto cuidado em poupar aquele perfume francês caríssimo, que usamos em gotinhas contadas nas ocasiões previamente selecionadas ou consideradas especiais. Dificilmente, de sã consciência, deixaríamos o ar condicionado ou o ventilador ligado o dia todo ao sair para trabalhar, gastando a energia do mês todo, ou colocaríamos apenas dois pares de meias em litros e litros d’água na máquina de lavar roupas. Muito menos esqueceríamos a geladeira aberta estragando os alimentos e nem tão pouco deixaríamos escorrer pelas mãos aquela oportunidade única de um emprego ou relacionamento tão esperado.
Normalmente estamos sempre atentos em relação aos desperdícios diários de forma a contermos os gastos exagerados em meio à crise, sempre optando por uma melhor administração, muitas vezes em benefício próprio, ou até mesmo pela consciência de um mundo melhor e mais harmonioso para todos. Bom, de certo modo estamos vigilantes para que nada se perca à toa ou nos leve a ruir no prejuízo causado, por nós mesmos, pelo desperdício.
Mas, e em relação as graças de Deus em nossas vidas? Percebemos quando elas são jogadas fora? Estamos atentos? Quantas bênçãos são confiadas a nós, e que escorrem pela “peneira” furada de nossas mãos, se esvaindo em meio a nossas justificativas de uma vida agitada e desatenta as coisas do alto, sem que a graça realize o efeito verdadeiro e transformador em nossas almas.
Para vencer tal desperdício de graças e agarrar todas, é preciso primeiro permanecer na presença de Deus e assim, vencer uma guerra de três grandes batalhas travadas constantemente contra a filáucia, a acídia e a preguiça. Nossa!… Porém, pela misericórdia divina, o Senhor nos capacita a associar as batalhas, três grandes graças que ajudarão a nos fortalecer, desde que não choremos pelo desaproveitamento da “graça” derramada.
Primeira batalha é contra a filáucia, contra o nosso amor próprio exacerbado. Me adoro mais que tudo e me amo muito, só faço o que quero, centralizo tudo em mim mesmo e faço mau-uso do tempo. Tão focado em mim mesmo, não percebo que o primeiro culpado do desperdício das graças sou eu mesmo com meu orgulho e vaidade. A virtude da renúncia nos ajudará a vencer o pecado da filáucia, quando enfim abandono a minha vontade em Deus e passo a enxergar a necessidade do outro. Percebo que não sou eu o deus.
A segunda luta, e que lu-ta, é contra a acídia. Sabe aquela frieza e o desgosto pelas coisas espirituais? Para os Padres do Deserto o demônio do meio-dia era o sentimento da acídia. Ela provoca desestabilidade, inconstância, aversão a tudo que se encontra ao seu redor, murmuração e a perda da alegria de viver. O demônio do meio-dia é o demônio que reúne todos os demônios. Sendo assim, aqui iremos pedir a graça da disposição, para sermos mais sensíveis a graça de Deus e combater todo o torpor do meio-dia. Desperdiçar jamais!!!
Por fim, contamos com a graça da coragem para lutar contra o pecado da preguiça. Coragem para enfrentar a ausência de virtudes e sem medo acreditar em mim mesmo. Coragem para anunciar a Cristo e ter uma postura evangélica. Sem preguiça ou moleza de abandonar a vida velha, crer na coragem que vence a batalha contra a preguiça e nos movimenta a enxergar a benevolência divina de cada dia.
Na verdade, não há uma vida espiritual sem disciplina e organização, mas com a graça da virtude da renúncia, disposição e coragem, considerando estes os anjos do meio dia, mais facilmente agarrarei com mais propriedade aquilo que o Pai tem para nós.
Angela Barroso