Eis uma das traduções do dicionário Michaelis para a palavra celeiro. No que tange ao seu sentido convencional dizemos que celeiros são locais onde depositamos alimentos e bens. Estamos aqui tomando o conceito “emprestado” para realizar uma viagem para dentro de nós mesmos…
Neste celeiro estão guardados quem somos, os nossos sonhos, qualidades, defeitos, valores e medos. É onde se encontra o pior e o melhor de nós. É para nós solo sagrado, terra de nossas emoções, afetos, sentimentos, traumas, alegrias. Onde mora nossa gratidão, solo que, assim como eu e você, se descobre a todo instante – celeiro com peso de eternidade.
O acesso a esse celeiro passa necessariamente pelos processos de autoconhecimento, realizados pela observação, questionamentos e respostas acerca de quem somos e que nos ajudam a identificar quem é esse eu e esse tu (você!!) que se relacionam agora por meio dessas palavras, cada um onde está, no contexto em que vive.
Deus, porém, é espelho. Em Seu Santuário somos acolhidos a cada Eucaristia, a cada Adoração. Somos conduzidos por Ele a nós mesmos. Diante da presença do Pai nos comovemos em silêncio, é Ele quem movimenta nosso celeiro sempre que o pedimos que entre em nossa casa e nos ajude a fazer a faxina. Sai lixo, sai pérolas. Nessa limpeza da alma Deus se faz conhecer através do reconhecimento dos nossos pecados e dos talentos, tantas vezes soterrados em amontoados de coisas inservíveis.
Deus é luz em meio à escuridão. Guardamos muito e aprender a colocar para fora o inservível é muitas vezes ato de uma senhora coragem, ou melhor, como diz o apóstolo Paulo na primeira carta aos Coríntios: “ Eu me apresentei em vosso meio num estado de fraqueza, de desassossego e de temor” ( ICor 2, 3). Muitas vezes somos nós que somos chamados a nos apresentar, a expor nossa vida, pecados, dons, a ofertar quem somos, mesmo que imperfeitos.
Amadurecer dói. Conhecer-se também, o processo não recusa o sofrimento, do contrário faz presença e liberta. E essa libertação acontece cada vez mais à medida que somos induzidos a nos apresentar, mesmo com todas as fraquezas inerentes à nossa condição de pecado, mas também àquelas em que precisamos da disciplina e da graça de Deus para derrotá-las.
Aprender requer muitas vezes passar pelo sofrimento, que não exime das lutas nem das renúncias. Que eu e você consigamos dar mais um passo para limpar nossos celeiros, Deus está conosco, nos ajudando a despojar dos apegos e dos galhos velhos.
Descobrir-se é um parto diário que forja o homem em uma melhor versão.
Que percebamos na nossa história os afagos que Deus nos deu e nos dá diante de todas essas realidades. Celebremos esse colo!
Esse Deus que diante de nossos abismos estende a mão para atravessarmos em segurança, que nos livra de males e coloca anjos no nosso caminho, que nos desvia da rota do precipício, que cuida das doenças, dos cansaços, que acolhe a nossa dor no abraço do irmão.
Deus conhece os celeiros de nossa alma, sabe da nossa história, esforços, dos medos, cansaços, inseguranças, inconstâncias e pecados. Conhece melhor que nós mesmos, cada canto, cada sujeira, e com amor insiste em nos mostrar onde as pérolas estão escondidas, nos formando e ensinando a dar passos para retirar a sujeira e ver a pérola brilhar.
Gratificante é nos darmos conta de que em todas essas horas Deus nos socorre, por meio de outros filhos amados, por meio de Seu próprio amor. Esse Amor que move os acontecimentos, as pessoas, os sentimentos. Que nos move para nós, para Ele e para outros.
Olhar para nossa bagagem e ver o agir de Deus em tudo. Quebrando nosso orgulho, vergonha, vaidades. Levando-nos, assim como Paulo, mesmo com temor, a deixar Deus ser Deus nas nossas fraquezas. Deus sempre vence. Que ele vença em nós, na minha e na sua dor, que reine a Sua alegria.
Que Jesus faça morada em nossa alma.
E como Paulo, sigamo-No.
Elisangela Assis
