Formação

Deveriaqueísmo

coluna da emmir 0110

Mas, que neologismo estranho esse que o Papa Francisco resolveu criar! Deveriaqueísmo!¹ Melhor deixar o próprio Papa explicar antes de continuar o texto:

96² . [No contexto de mundanismo], alimenta-se a vanglória de quantos se contentam com ter algum poder e preferem ser generais de exércitos derrotados antes que simples soldados dum batalhão que continua a lutar. Quantas vezes sonhamos planos apostólicos expansionistas, meticulosos e bem traçados, típicos de generais derrotados! Assim negamos a nossa história de Igreja, que é gloriosa por ser história de sacrifícios, de esperança, de luta diária, de vida gasta no serviço, de constância no trabalho fadigoso, porque todo trabalho é “suor do nosso rosto”. Em vez disso, entretemo-nos vaidosos a falar sobre “o que se deveria fazer” — o pecado do “deveriaqueísmo” — como mestres espirituais e peritos de pastoral que dão instruções ficando de fora. Cultivamos a nossa imaginação sem limites e perdemos o contato com a dolorosa realidade do nosso povo fiel.

97. Quem caiu nesse mundanismo olha de cima e de longe, rejeita a profecia dos irmãos, desqualifica quem o questiona, faz res- saltar constantemente os erros alheios e vive obcecado pela aparência. Circunscreveu os pontos de referência do coração ao horizonte fechado da sua imanência e dos seus interesses e, consequentemente, não aprende com os seus pecados nem está verdadeiramente aberto ao perdão. É uma tremenda corrupção, com aparências de bem.

Ao ler o texto acima, podemos ser tentados a considerar que o pecado do deveriaqueísmo refere-se exclusivamente a clérigos. Ledo engano. Todos nós, nas pastorais, nos serviços à Igreja, nos trabalhos, nas famílias, estamos sujeitos à tentação do deveriaqueísmo.

Trocando em miúdos para a linguagem do dia a dia, o que seria o pecado do deveriaqueísmo?

Infelizmente, um conjunto de pecados agindo juntos:

1. Pecado de Omissão — porque, ao invés de “entrar na lama” da necessidade do irmão, o deveriaqueísta se ilude a construir teorias e diagnósticos de forma ascética, sem sujar as mãos. Dá a impressão de que faz alguma coisa quando, na realidade, apenas fala, teoriza, elucubra.

2. Pecado de Vaidade — porque o deveriaqueísta acha que tem a solução para todos os males do país, da família, da Igreja, da sociedade, do mundo, esquecido da verdade de que “quem sabe, faz”.

3. Pecado de Orgulho — porque “olha de cima e de longe, rejeita a profecia dos irmãos, desqualifica quem o questiona, faz ressaltar constantemente os erros alheios e vive obcecado pela aparência”. O orgulho faz o deveriaqueísta ser ridículo aos olhos dos que o observam e não se deixam iludir por suas balelas.

4. Pecado de Egoísmo — porque “Circunscreve os pontos de referência do coração ao horizonte fechado da sua imanência e dos seus interesses e, consequentemente, não aprende com os seus pecados nem está verdadeiramente aberto ao perdão”. O deveriaqueísta tem como referencial supremo a si mesmo, ao próprio umbigo.

5. Pecado de Mundanismo — “O mundanismo espiritual, que se esconde por detrás de aparências de religiosidade e até mesmo de amor à Igreja, é buscar, em vez da glória do Senhor, a glória humana e o bem-estar pessoal”. Assim como os outros aspectos do deveriaqueísmo, o mundanismo aplica-se não só à Igreja, mas também a todos os aspectos dos nossos relacionamentos. Existem, portanto, o deveriaqueísmo familiar, no qual o deveriaqueísta se esconde por de- trás das aparências do amor à família e à moral; o deveriaqueísmo profissional, cujo esconderijo é o amor à profissão e ao bem da empresa; o deveriaqueísmo político, escondido sob a máscara de amor aos pobres e à pátria e por aí vai. Todos, não importa quão bem se disfarcem, buscam, no fundo no fundo, a glória humana e o bem-estar ou proveito pessoal. O deveriaqueísta é hipócrita.

6. Corrupção — como sabemos, para Francisco, a corrupção é aquele pecado inveterado, que passa a fazer parte do nosso estilo de vida e da nossa forma de ver o mundo, do qual não saímos com facilidade porque nos cega para a realidade acerca de nós mesmos, do mundo e do outro. Ao dizer que o deveriaqueísmo é um tipo de corrupção, classifica-o como vício revestido de complacentes justificativas sem fundamento. Evidentemente, o nível de autoconhecimento do deveriaqueísta é muito, muito baixo. É baixo, igualmente, seu grau de maturidade. Com relação a ele, o único grau elevado é, infelizmente, o mal que faz a si mesmo e aos que convivem com ele. Que o Bom Deus nos dê a graça da simplicidade, humildade, despojamento e pobreza de coração que são os antídotos contra esse veneno que cega e ilude a nós e aos outros enquanto corrói a alma e a capacidade de amar de verdade.

Maria Emmir Oquendo Nogueira

Cofundadora da Comunidade Católica Shalom

em “Entrelinhas” da Revista Shalom Maná
TT @emmiroquendo
Facebook/ mariaemmirnogueira
Coluna da Emmir – comshalom.org


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