Às 4:30h da manhã o despertador aciona. César desliga o despertador, levanta sem espreguiçar-se, pasta nos dentes, remela fora do olho, as mãos mais acordadas que o resto do corpo vão cortando as frutas, fazendo a vitamina, a boca come em grandes mordidas o pão com manteiga e a vitamina se esvai no “guti guti”. Depois é juntar o que vai ser levado na mochila: toalha, bermuda, protetor solar, parafina, strep. É domingo. Não um dia de trabalho. Tão cedo por quê? Pra pegar o vento ainda terral, a formação perfeita, encaixada na tábua de maré do dia, segundo o fundo de cada praia, areia ou coral… ai, é prancha no pé, e aquela natureza impressionante em torno do mar que só quem conhece com afinidade são os surfistas, os pescadores ou quem trabalha sob o cafuné da maresia.
É César, mas essa é uma rotina comum na vida de quem pega onda. Os dias anteriores são de leituras nos gráficos, expectativa, leitura dos períodos, direção do vento, altura das marés, exercícios para manter o corpo com ritmo pra não ser pego de surpresa dentro do mar – se vacar feio pode acontecer coisa séria. Um universo bem particular… algumas gírias, termos técnicos, movimento das marés, hidrodinâmica, diversão, relação mais intensa com a natureza, e muitos com uma relação mais intensa com Deus, o Criador de tudo.
Há uns quatro anos, eu e quatro amigos fizemos uma viagem de carro da Paraíba ao Rio de Janeiro, mais ou menos 2.500 quilômetros, “surfando” pelo caminho, conhecendo novos lugares, fazendo novos amigos. E pelo caminho encontramos diversos perfis de surfistas, aprendizes, amadores, profissionais, shapers. Tivemos muitas conversas sobre os mais diversos assuntos, gravamos algumas entrevistas (que ainda está em gestação para fazermos um curta, eita que tá demorando!), e durante as entrevistas fazíamos sempre uma relação daquilo tudo ao nosso redor com o Sagrado, a pergunta sobre isso era mais ou menos assim: “Há alguns dias de surf em que a gente tá sozinho dentro do mar, naquele silêncio, esperando a série subir, vendo os pássaros pescarem, diante daquilo tudo, e de repente nos invade uma sensação diferente, de grandeza, de algo maior que nós… Deus mesmo… você já passou por isso?” E de forma impressionante todos, antes mesmo de concluir a pergunta, tiveram os olhos marejados por lágrimas, e surpresos pela pergunta se emocionaram confirmando que sim. A surpresa deles transparecia em um olhar que nos dizia “como é que vocês sabem disso?”, e depois vinha uma alegria em poder falar sobre essas coisas…
Todos eles depois falavam com muita alegria e gratidão a Deus por tudo, pelo dom de poder viver essas experiências, pelo dom de “caminhar sobre as águas” (muitos brincam em alusão ao milagre de Jesus). Acredito que em todo surfista haja essa semente plantada de Deus, que precisa desabrochar.
Já ouvi de não poucos surfistas dizerem que o céu é um lugar onde haverão ondas perfeitas todos os dias, com pôr-do-sol por traz, alguns golfinhos pulando, gaivotas pescando… talvez a palavra se refira à algo do tipo quando Jesus diz “na casa de meu pai há muitas moradas”… talvez não literalmente praias e ondas, mas seguramente o sentimento de grandeza, de presença, de Paz, que muitas vezes buscamos no mar, mas dessa vez de forma plena, completa e infinita.
Esse texto é pra você que pega onda, que possui essa relação com a natureza, com a vida. Quero deixar pra você o profundo desejo de que você possa conhecer o Criador da vida, da sua e de tudo que o cerca, e pedir que hoje você separe um momento do seu dia pra agradecer a todas as coisas maravilhosas que você já viveu e para dizer a Deus que o seu coração se alegra hoje em perceber que todo o Bem, toda a Beleza que há nessa vida vem dEle. Receba neste Dia Mundial do Surf esse texto como uma oração! Deus abençoe sua vida! Ótimas ondas! Paz!
Glossário para quem não surfa:
parafina: Tablete de cera que é utilizada na prancha para formar uma camada protetora na parte superior e aumentar o atrito, ajudando a manter a aderência dos pés do surfista.
strep: corda feita de material elástico que une a prancha ao tornozelo do surfista. O mesmo que cordinha, estrepe, leash ou chop.
terral: Vento que sopra no sentido terra- mar, ideal para surfar pois pega a onda de frente, deixando-a mais cavada e perfeita. Também deixa a face da onda lisa e ao invés de estourar de uma vez, ela quebra mais lentamente. Os melhores picos do mundo recebem o terral constantemente.
formação: Está relacionado com a estrutura da onda. Ondas bem formadas oferecem melhor condição para a prática do surf.
tábua de maré: gráfico com a altura da maré alta e da maré baixa e os respectivos horários.
fundo: Fundo, nesse contexto do texto é o fundo do mar, que pode ser de areia ou composto por corais, por exemplo.
períodos: intervalo de tempo entre duas ondas consecutivas da série
vacar: Cair da prancha e rodar junto com a onda embaixo d’água. Tomar uma “vaca”.
shapers: Aquele que molda e fabrica pranchas, que chapeia.
série: Seqüência de ondas quebrando em direção á praia. O mesmo que set.
Fonte do glossário site do Rico de Souza.
