Família almoçando. Trabalho e estudo esperando. Alguém bate à porta, que parece ser nossa, mas é dele. Pede um prato de comida da mesa que aparenta ser nossa, mas é dele.
Convidado a entrar, recusa-se. Não sabe que a cadeira parece ser nossa, mas é dele.
Faço-lhe companhia na calçada, que parece ser dele, mas é minha, enquanto ele come avidamente com o tempo que parece ser meu, mas é dele.
Convidado a tomar banho, recebe a água que é dele, embora pareça minha. E ensaboa-se com o sabonete e shampoo que aparentam ser meus, mas são dele.
Veste-se com a roupa que parece ser do meu marido, mas é dele e aceita repousar no quarto que parece ser do motorista, mas pertence a ele.
Exausto, dorme agarrado com uma sacola que é dele enquanto ponho na lavadora que parece ser minha, mas é dele, a roupa que é dele e agora parece ser minha.
Passa a trabalhar na casa que parece ser nossa, mas é também dele e logo reencontra a família abandonada, que não mais parecia ser dele.
Volta para a casa que parece ser dele, mas agora é nossa.
Pois a partilha estabelece a verdade: o que parece ser nosso é dele e o que parece ser dele é, na verdade, nosso.
Em nós, vê o Senhor que vemos nele.
Pois a partilha estabelece a amizade: o que parece estranho, torna-se irmão. O que parece mendigo, torna-se Senhor.
Emmir Nogueira