A vida missionária sempre me exigiu muito que eu andasse de avião, o que até certo ponto nunca tinha sido um problema. Mas no final de 2011, por causa de um certo acúmulo de compromissos, alguma coisa começou a mudar em mim: comecei a ficar ansioso e cheio de medo em cada nova viagem de avião. O costume de voar, em vez de me deixar seguro, foi como que aumentando um grande sentimento de insegurança. Em poucas palavras: temor de perder a vida em algum desastre.
Comecei a repetir mil Ave-Marias em cada decolagem ou em cada zona de turbulência, passando da verdadeira e eficaz piedade a uma repetição ansiosa das orações. Comecei a ficar bem apreensivo, sem conseguir relaxar em um vôo por um só momento (com algumas raras exceções, graças a Deus!). E podem morrer de dizer que “turbulência não derruba avião”, fico gelado de medo!
Comecei a ver que temia pela minha vida, que tinha medo de perdê-la. Eu, anunciador da Vida Eterna por missão e ofício, eu… temia o sofrimento, o desastre, a morte. Fui e sou tentado a não esperar, a não esperar mais.
Comecei a observar dentro de mim os frutos da avareza, do apego a este mundo, do quanto tenho em conta “estar vivo”. Preso demais à dimensão material da vida, percebi que não estava tão pronto para “continuá-la” naquela dimensão SEM FIM do Céu. Percebi que cantava e anunciava a Eternidade, mas que eu mesmo ainda não a desejava com toda a sinceridade, pois ainda estava fora de cogitação não ter uma vida longa nesta Terra como a única coisa que poderia prolongar o “sentimento de felicidade”, ainda esperando encontrar “alguma-coisa-não-eterna” que este mundo pudesse me dar… e cantando a Eternidade! Contrastes e incoerências do meu coração que emergem e me envergonham. O “já” e o “ainda não” se digladiando no meu peito.
A vida é um dom. E é belo que Deus “derrame a graça da vida” por muitos anos, por um longo período de tempo. É belo poder viver uma vida longa, feliz e santa! Mas a vida santa é coroada pela morte, que divide o agora e o sempre, que transforma o agora para sempre, que transcende o agora no sempre… E eu a temia. Temia a morte de todas as formas.E dentro de um avião este medo vem à tona com uma força extrema! Fui e sou tentado a não esperar, a não esperar mais.
Mas o avião – naquelas 2, 4, 6, 8, 10, 12, 14 horas de vôo – o avião é o meu “pequeno mundo”. O único lugar nesta Terra (ou no céu), durante aquelas horas, onde posso continuar a crer, a esperar e a amar. O avião é o “hoje que tenho”, a oportunidade que aquele instante me dá de estar pronto diante de Deus e de realizar minha vida plenamente. As horas dentro de um avião são uma imagem da vida inteira… E eu não me dava conta!

A vida inteira é esperar chegar…
Dei-me conta de que toda nossa vida “É” Esperança: deitamos por volta das onze horas, meia-noite, depois de um dia cheio, ajustamos o despertador. Esperamos acordar no outro dia! Pegamos o ônibus, o trem, o metrô, o carro, fazemos trajetos a pé… Esperamos chegar daqui a meia hora em um determinado lugar. Comemos coisas mais saudáveis outras menos. Encontramos pessoas confiáveis e desconhecidos. Pulamos de um trampolim, pegamos no volante, pisamos de um batente para o outro, tomamos banho, adoecemos, melhoramos, lemos, desconhecemos a atividade sísmica do local onde vivemos, vamos à praia, pegamos o celular, subimos a montanha… Nossa vida é Esperança! Nosso passado é Esperança! Nosso Futuro é Esperança! Esperança de passar ao momento seguinte, de levantar depois de descansar, de chegar àquele aeroporto a 11 horas de distância!
A vida inteira é esperar chegar…
E é preciso sempre confiar e esperar em Deus. É preciso fazer da Confiança em Deus o nosso AGORA! A Esperança arrasta para o nosso hoje aquilo que pertence ao nosso amanhã. A Esperança sussurra ao coração que, na verdade, não há um fim.O que há é Eternidade. Aquela vida que o Deus da Esperança quer nos dar aqui, agora e para sempre. Na Esperança, o hoje é invadido pelo amanhã eterno, por tudo aquilo que Deus tem preparado para aqueles que O amam.
É preciso viver o hoje com intensidade e fervor, porque não sabemos qual será “o último hoje”. Sãos ou doentes, motoristas ou pilotos, pedestres ou marinheiros, quem não é apenas um viajante neste mundo? A vida, sim, é esperar chegar e só quem confia em Deus hoje pode dizer “Nada me falta!”. Vida ou morte se tornam indiferentes, porque afinal tudo será Vida e Vida em abundância. Na Esperança, “morremos antes de morrer”, já nos perceberemos seguros em Deus nesta vida, sem temer aquilo que a morte nos entregará. A Esperança nos faz como os mártires: no viver ou no morrer, há sempre vida.
Vivemos de Esperança, vivemos na Esperança, vivemos pela Esperança. Sem a Esperança não daríamos passo algum, não escolheríamos viver o hoje, nem o amanhã, e o “antes” não teria sentido. A Esperança nos empurra para frente, a Esperança promete Eternidade, ela “é” o nosso amanhã, ainda nesta vida ou já naquela sem fim. A Esperança é o conteúdo da vida do homem neste mundo e a promessa da vida do homem na Cidade de Deus. A Esperança é o Hoje Feliz.
São 17:20 do dia 1º de agosto de 2014. Meu medo de avião não melhorou muito. Meu Deus! Cada um carrega mesmo a Cruz… Cada um recebe a oportunidade de evangelizar os próprios medos “confiando na Esperança” e vivendo dela. Todavia, cada novo voo tem se tornado uma imagem da minha vida. Uma oportunidade de não deixar nada carecer de sentido!
São 17:23 do dia 1 de agosto de 2014. Meu medo de avião às vezes é incontrolável, mas fico muito feliz por cada “ponto de chegada” e por cada turbulência superada. Isso me faz pensar o quanto serei feliz no Céu! Opa… uma grande Paz! Agora mesmo… Uma grande Paz! Aaaaahhhh… O Céu! O fruto da Esperança! O prêmio da Esperança! A felicidade esperada pela Esperança. Então posso silenciar, crer, esperar, confiar…
São 17:29 do dia 1 de agosto de 2014. Sobrevoando algum ponto do Mar da China, ora vendo o presente se tornar passado, ora esperando o presente se tornar futuro… Esperando que passe este trajeto longuíssimo – de 10 horas e meia – entre Sydney e Shanghai. Algumas “pancadas de ar” no avião, o céu limpo, nuvens aos meus pés, uma grande nuvem cinza a oeste. As bolinhas do terço passam rápido, porque cada uma delas porta um grito interior: “Jezu Ufam Tobie¹!”. Um ato de esperança confiante, de quem tem aprendido que o Deus Misericordioso sempre nos faz chegar onde Sua Bondade quer nos conduzir. A Esperança e o sistema de navegação do avião me dizem que falta uma hora e trinta e quatro minutos para eu pousar no próximo aeroporto… Penso no Céu.
“O tempo passa… a Eternidade espera.”
Padre Cristiano Pinheiro.
Comunidade Católica Shalom
¹Jesus, eu confio em vós.
