Os últimos passos do Papa na terra coincidiram com a preparação da Igreja universal à celebração em 3 de abril da Divina Misericórdia, uma festa que surge da piedade mais entranhável» de Cristo e que o próprio João Paulo II estabeleceu oficialmente no segundo domingo depois da Páscoa.
A devoção à Divina Misericórdia constitui um autêntico movimento espiritual dentro da Igreja Católica promovido pela religiosa polonesa Faustina Kowalska (1905-1938), a quem o Santo Padre canonizou em 30 de abril de 2000.
Foi o momento em que o Papa anunciou por surpresa: Em todo o mundo, o segundo domingo de Páscoa receberá o nome de domingo da Divina Misericórdia. Um convite perene para o mundo cristão a enfrentar, com confiança na benevolência divina, as dificuldades e as provas que esperam o gênero humano nos anos vindouros».
O Santo Padre celebrou tanto a canonização e a beatificação (18 de abril de 1993) da religiosa no segundo domingo de Páscoa.
Essência da devoção à Misericórdia Divina
Santa Faustina Kowalska morreu aos 33 anos na Cracóvia em 5 de outubro de 1938. Pertencia à Congregação das irmãs de Nossa Senhora da Misericórdia, em cujo seio levou uma vida de simplicidade, por sua vez que se desenvolvia uma experiência mística de consagração à Divina Misericórdia, um itinerário tecido de visões, revelações, estigmas escondidos, tudo isso recolhido em um diário que começou a escrever em 1934 por sugestão de seu diretor espiritual.
O centro da vida da religiosa foi o anúncio da misericórdia de Deus com cada ser humano. Seu legado espiritual à Igreja é a devoção à Divina Missericórdia, inspirada por uma visão na qual Jesus mesmo lhe pedia que se pintasse uma imagem sua com a invocação Jesus, eu confio em vós», que ela encarregou a um pintor em 1935.
Da confiança em Jesus devem partir todas as formas de devoção à Misericórdia, segundo as revelações à religiosa, sejam estas a veneração da imagem da Misericórdia Divina, ou a reza do rosário da Misericórdia Divina, a hora da grande Misericórdia – as três da tarde, momento da morte de Jesus na cruz – ou a recepção dos Sacramentos na Festa da Misericórdia.
A devoção que foi revelada a Santa Faustina urge ao indivíduo atuar com espírito misericordioso para com o próximo diariamente, com orações, palavras e obras
No diário de Irmã Faustina que ela titulou A Misericórdia Divina em minha alma» se lê pelo menos em catorze ocasiões que Nosso Senhor pedia a instituição de uma Festa da Misericórdia»: Esta Festa surge de Minha piedade mais entranhável recolhe o texto. Desejo que se celebre com grande solenidade o primeiro domingo depois da Páscoa de Ressurreição… Desejo que a Festa da Misericórdia seja refúgio e abrigo para todas as almas e especialmente para os pobres pecadores».
Jesus pediu que Irmã Faustina se preparasse para a celebração da Festa da Misericórdia com uma novena que devia começar na sexta-feira Santa: Desejo que durante estes nove dias encomende almas a fonte da Minha misericórdia, a fim de que por ela adquiram fortaleza e consolo nas penalidades, e aquela graça que de necessitam para sair adiante, especialmente na hora da morte (orações e mais informações em (www.ewtn.com ).
O Papa, propagador da Misericórdia Divina
Foi o próprio cardeal Karol Wojtyla, então arcebispo da Cracóvia, quem iniciou os trâmites para abrir o processo de beatificação de Irmã Faustina.
Por ocasião da Solenidade de Cristo Rei, em 1981, João Paulo II declarou no Santuário do Amor Misericordioso: Faz um ano publiquei “Rico em misericórdia” [cf. Dives in missericordia», 30 de novembro de 1980. ndr.]. Com este motivo, chego hoje ao Santuário do Amor Misericordioso. Com minha presença desejo reafirmar, de algum modo, a mensagem de tal encíclica. Desejo lê-lo e transmiti-lo outra vez».
E acrescentou: Desde o princípio de meu ministério na Sede Romana, fiz desta mensagem minha tarefa primordial. A Providência me encarregou ante a presente situação do homem, da Igreja e do mundo. Poderia também se dizer que precisamente esta situação me levou a fazer-me cargo desta mensagem, como minha tarefa ante Deus…» [Cf. Devoção à Misericórdia Divina», Orações seletas do Diário de Irmã Faustina Kowalska, compiladas pelo padre S. Michalenko – vice postulador da causa de canonização – e Irmã S. Michalenko. Ed. Congregações de Marianos da Imaculada Conceição (Sotckbridge, Massachussets, 1985)].
A mensagem da Misericórdia esteve presente em numerosos momentos do Pontificado de João Paulo II. Por exemplo, faz só dois anos o Papa recomendou a invocação Jesus, eu confio em vós» ao encontrar-se na Sala Paulo VI do Vaticano com os estudantes do Seminário Romano Maior, na qual se forma boa parte dos seminaristas da diocese.
É um simples mas profundo ato de confiança e de abandono ao amor de Deus assegurou o Papa. Constitui um ponto de força fundamental para o homem, pois é capaz de transformar a vida.
Nas inevitáveis provas e dificuldades da existência, como nos momentos de alegria e entusiasmo, confiar-se ao Senhor infunde paz no ânimo, induz a reconhecer o primado da iniciativa divina e abre o espírito à humildade e à verdade», acrescentou.
No coração de Cristo encontra paz quem está angustiado pelas penas da existência seguiu declarando então o Papa; encontra alívio quem se vê afligido pelo sofrimento e a enfermidade, sente alegria quem se vê oprimido pela incerteza e a angústia, porque o coração de Cristo é abismo de consolo e de amor para quem recorre a Ele com confiança.
Pouco depois desta data, em 17 de agosto de 2003, João Paulo II encomendou o mundo à Divina Misericórdia ao dedicar o novo santuário de Lagiewniki bairro de Cracóvia junto ao convento onde viveu e morreu Santa Faustina Kowalska.