Shalom

“É quando nosso Senhor está no meio, e não eu, que eu me torno ministro da sua paz”

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O Pe. Fábio José Farias, responsável pelas comunidades novas da Arquidiocese de Olinda e Recife, presidiu a missa que teve como principal intenção os 16 anos do Shalom Recife, no último dia 7 de abril. Acompanhe, na íntegra, a homilia proferida por ele: 

 

A liturgia de hoje não poderia ser mais Shalom do que qualquer outra liturgia para se celebrar este dia. Três vezes Nosso Senhor enfatiza o Shalom, a paz. Estamos em um clima de Ressurreição, estamos na oitava de Páscoa, e liturgicamente toda celebração para enfatizar que hoje é dia da Ressurreição de nosso Senhor. Isso no prefácio, isso na oração eucarística, dia da Ressurreição. E a Ressurreição também é um dado importante para a espiritualidade dessa comunidade. E vendo os estatutos é claro que vocês creem no Ressuscitado, é verdade, e essa é a razão da nossa fé, como diz São Paulo, na carta aos Coríntios, que se não acreditássemos, vã seria a nossa fé.

Pois bem, a comunidade Shalom, em seus estatutos, crê piamente na Ressurreição de nosso Senhor, mas não se esquece de um dado importantíssimo para o entendimento da Ressurreição, ou seja, o Ressuscitado passou pela cruz. Não dá para ressuscitar, meus irmãos e minhas irmãs, sem morrer, não dá para ressuscitar sem passar pela cruz. Diversas vezes, em diversas circunstâncias e ocasiões, celebrando para vocês eu enfatizei, sobretudo em momentos de renovação, consagração, a necessidade de partindo do carisma, morrermos.

E hoje, com tantos irmãos e irmãs que renovam a consagração, eu não poderia enfatizar outra coisa se não que hoje é dia de morrer para com Deus ressuscitar.E aqui o Evangelho pode nos ajudar e eu ei de me deter brevemente em dois aspectos, um que vos é muito particular, que a paz, mas no lugar que Nosso Senhor nos transmite a paz, que é o lugar por excelência para entendermos o que é a Comunidade.

Segundo a narração de João, lá no capítulo 20, ao anoitecer, nosso Senhor vem e se coloca no meio deles e diz: “a paz esteja convosco.” Ele se coloca no meio deles para depois transferir o grande dom escatológico da Ressurreição, vamos dizer assim, que é o dom da paz. Se coloca no meio. Ao anoitecer os discípulos ainda estavam com medo, os discípulos ainda estavam nas sombras, nas trevas, os discípulos ainda não tinham se deixado visitar pelo sol nascente. E lá, na tradição lucana, já havia dito nos evangelhos, que esse sol haveria de despontar e trazer a salvação, uma vida nova.

Pois bem, ainda que a Palavra de Deus deixasse claro isso, os discípulos ainda estavam nas sombras, ainda estavam no escuro. O anoitecer aqui pode ser muito bem entendido com uma perspectiva de quê? Tantas e tantas vezes em nossa vida as situações de morte nos deixam nas sombras, nas trevas nos deixam no escuro. E é importante olhar o texto e ver que é justamente aí, nesse momento difícil, duro, que tantas vezes nos envolve, nos circunda, que tantas vezes nos impede de dar passos, seguir caminhos, é justamente nessa hora que Nosso Senhor vem e se coloca no meio de nós.

Comunidade Shalom, o que dizer-vos hoje? 16 anos de presença aqui nesta Arquidiocese, que possais, hoje, celebrando esta data, continuar deixando nosso Senhor Jesus Cristo no meio. Enquanto Ele estiver no meio, que foi o lugar que Ele decidiu se colocar, nós estaremos vivendo o carisma da paz, o Shalom. Mas quando ousarmos nos colocarmos no centro, no meio, no lugar Dele, a paz não virá, e não poderemos ser ministros da paz, como está lá em vossos estatutos.

É importante, hoje, mais do que nunca, que deixemos nosso Senhor se colocar no meio, porque a tentação no momento, na Igreja e fora, é nos colocarmos no meio. Eu me coloco no meio, a comunidade se coloca no meio, o meu grupo, o meu ministério, a minha função se coloca no meio. Não! No meio deve estar o Ressuscitado. E para que Ele esteja no meio é importante que nós saiamos do centro, nos descentremos, ou seja, morramos. Aí sim acontecerá a Ressurreição.

Uma vez entendida a localização do Nosso Senhor, que deve estar no centro, no meio, que deve gerar aquilo que é uma das características da Comunidade, a unidade, Ele no meio, aí sim ele poderá nos dizer: ‘a paz esteja convosco!’ Do grego eis eirênên, que quer significar o quê? Que paz é essa do qual vocês são ministros? Hoje passei um bom tempo, só lendo o Shalom, pensando em vocês, fui lá no grego buscar o que é que significa essa paz, que não é a hebraica, Shalom, é mais que a hebraica.

Não é só uma saudação, mas é a paz que é um abrir-se em Deus, é uma paz que gera serenidade, amor, concórdia. É uma paz que, entre outras palavras, meus irmãos, minhas irmãs, nos deixa, atenção, seguros. Não existem inseguranças, não existem incertezas, não existem dúvidas. É aquela paz que é capaz de dar ao homem uma confiança ilimitada e Dele, essa é a paz do Ressuscitado. Paz que não é o contrário das guerras, vai além do contrário das guerras, porque é uma paz que coloca em Deus. Por isso, é dom escatológico, ou seja, uma vez que a tenho eu vivo aqui na terra como se já vivesse no Céu.

Mas a paz ainda não é só isso, a paz tem tudo a ver com o que o próprio Evangelho de João hoje, quando o Nosso Senhor diz: “O pecado daqueles que vocês perdoarem serão perdoados”, o que vai permitir aos discípulos o perdão, é qual dom? O da paz. O dom da paz, do grego, quem tem o dom da reconciliação é capaz de reconciliar-se. Não existem brigas, divisões, competições, separações, não. Formamos um Nele.

Mas Ainda não é só isso a paz. A paz é a capacidade de nos tornarmos felizes, e não tem liturgia bíblica melhor para falar de felicidade (…). Bem aventurados aqueles que creram sem ver, e aqueles que (…). Bem aventurados os que creem sem ter visto. Quem podem ser esses homens e mulheres felizes, bem aventurados? Os que receberam o dom da Ressurreição.

Meus irmãos e minhas irmãs, eis o Shalom, eis a vocação de vocês! Nessa noite que celebramos os 16 anos, possais voltar à fonte, a raiz primeira, que certamente suscitou no coração de Moysés, para que ele pudesse formar essa família. Que possais ir à fonte para lá compreender que é quando o nosso Senhor está no meio, e não eu, que eu me torno cada vez mais ministro desta paz, que eu acabei de escutar três vezes no Evangelho. E aí, sim, uma vez, uma vez cheios desse espírito, podemos contemplar, podemos viver a unidade, podemos fazer aquilo que vocês fazem tão bem, evangelizar.

Esse é o meu desejo, é o desejo de nossa Arquidiocese para a Comunidade Shalom nesses 16 anos. Que vocês continuem avante, colocando Jesus Ressuscitado que passou pela cruz, no meio, para viverem o dom que ele vos concedeu abundantemente que se renovará agora nesta liturgia. Assim seja!


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