Hoje, uma frase atribuída a Santo Agostinho me veio à mente durante a oração: “Dois homens olharam através das grades de uma prisão. Um viu a lama; o outro, as estrelas!”.
Essa frase me visitou durante todo o dia. Fazer um paralelo com o distanciamento social que vivemos durante esses dias foi um movimento quase que espontâneo. Apesar de não estarmos presos, estamos recolhidos em nossas casas, convocados a amar os outros na e pela distância. E, muitos de nós, olhamos o mundo através de janelas. Sejam as janelas dos prédios, das casas ou das janelas da comunicação – jornais, redes sociais, internet em geral.
A questão não é necessariamente o meio pelo qual miramos o mundo. O ponto central é: como estamos olhando o mundo neste período? Olhando para a lama, sob uma perspectiva excessivamente negativa? Ou, tal como Abraão (Gn 15, 5), olhamos para as estrelas, deixando-nos ser iluminados pela luz que vem do Céu? Permitimos que o nosso olhar permaneça voltado para baixo, para o desfavorável, para o aspecto difícil da realidade? Ou deixamos que a esperança, a âncora da alma, crie raízes nos nossos corações e seja a força a nos guiar nestes tempos?
Rastros de esperança
Não há outra opção: é tempo de sermos gerados na esperança. Aliás, ao olharmos pelas janelas do mundo, é possível encontrar rastros de esperança. Ainda que a vida seja um tráfego de amores e dissabores, há o registro dos frutos de uma esperança humana a nos contagiar.
Canções de louvor e orações nas sacadas e varandas dos prédios, promovendo fraternidade e comunhão entre vizinhos; jovens ofertando seu tempo ao fazer compras para idosos e outras pessoas em grupos de risco, estabelecendo a comunhão de gerações tão sonhada pelo papa Francisco; doações de comida e de álcool em gel para os pobres e desfavorecidos, ícones do próprio Cristo; a cura de Alma Clara Corsini, a senhora italiana de 95 anos curada da infecção de Covid-19 porque, segundo ela, foi cercada e cuidada por pessoas boas.
Inúmeros rastros de esperança.. Se a esperança natural já preenche o nosso coração, imaginem a esperança cristã. Diferente das esperanças naturais, a esperança cristã não é sustentada pelas nossas forças, mas é amparada no socorro da graça do Espírito Santo. A virtude da esperança, tatuada nos nossos corações por Deus, nos protege de todo desânimo e nos fortalece em qualquer abatimento – não importa o grau. E isso acontece devido a uma única certeza: Deus, Aquele que fez a promessa, é constante e fiel (Hb 10, 23).
Sim, Deus também espera
Se a esperança humana é visível, somos chamados a uma esperança maior ainda. Uma esperança que existe não só quando há rastros, mas que se mantém firme diante de toda adversidade, de toda doença, de toda crise. É esperar mesmo quando não há nada para se esperar. É a esperança davídica que, ao se deparar com um enorme desafio como Golias, não desesperou e fez memória dos feitos de Deus em sua história: “O Senhor que me livrou das garras do leão e do urso me livrará também das mãos deste filisteu” (1 Sm 17, 37). É, a exemplo de Abraão (Rm 4, 18), acreditar contra toda esperança humana; é, mesmo que não se vislumbre rastros de bondade e tudo pareça desencaminhado, esperar com confiança.
Meus irmãos, ir contra toda esperança humana significa abraçar a esperança divina. Sim, Deus também espera. Esperou o filho pródigo. Esperou a samaritana no poço. Esperou – Ressuscitado! – os apóstolos após a pescaria e os serviu. Esperou uma oração para levantar-se e acalmar a tempestade. Deus sabe ter esperança. Ele nos dá essa esperança. Que possamos, neste tempo, pedi-la. Ele não nos negará nada, sobretudo esperança.
Francyjonison Custodio – Missão de Natal
