Pilatos apresenta Jesus à multidão flagelado, desfigurado, exposto. O corpo do Filho eterno está rasgado, submetido ao frio, à humilhação pública, ao desprezo. Nele se cumpre o que anunciara o profeta:
“Não tinha aparência nem formosura” (cf. Livro de Isaías 53,2).
A Paixão revela um Deus que não salva preservando Sua imagem, mas entregando-Se sem reservas.
O coração confrontado
Diante desse mistério, o coração é confrontado. Quantas vezes estou ocupada em proteger minha própria imagem, preocupada em parecer equilibrada, madura, santa, enquanto Cristo aceita ser visto sem beleza nem defesa? Ele se esvazia, assume a condição de servo e humilha-Se até a morte de cruz (cf. Carta aos Filipenses 2,7-8).
A Cruz manifesta que o caminho do amor passa pelo despojamento e pelo abandono da autoafirmação.
Santidade não é imagem, mas participação
Há em nós um desejo sincero de santidade, mas muitas vezes misturado à necessidade de reconhecimento. Queremos ser irrepreensíveis mais do que configurados, admirados mais do que transformados.
Contudo, a santidade não é construção de uma imagem espiritual, mas participação real na vida de Cristo:
“Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim” (cf. Carta aos Gálatas 2,20).
A configuração passa pelo desapego da própria autoimagem e pela aceitação humilde da própria pobreza.
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A pedagogia do esvaziamento
A tradição mística da Igreja confirma esse caminho.
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São João da Cruz: para chegar a possuir tudo, é necessário não querer possuir nada; trata-se de uma pedagogia do esvaziamento interior, na qual Deus purifica os afetos desordenados e as seguranças ilusórias.
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Santa Teresa de Jesus: humildade é andar na verdade, reconhecer as próprias feridas sem escândalo e sem máscaras.
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Santa Teresa de Calcutá: Deus não nos chama ao sucesso, mas à fidelidade — permanecer no amor mesmo quando não somos compreendidos ou valorizados.
Sofrimento e configuração
A experiência de ser contrariada, não aceita ou mal interpretada deixa de ser apenas sofrimento humano e torna-se lugar de configuração com Cristo desfigurado em público.
A Cruz revela que Deus não deseja uma perfeição impecável, mas um coração verdadeiro e disponível.
A ciência do desapego consiste em permitir que a luz do Espírito Santo ilumine as chagas abertas da alma, não para nos condenar, mas para nos humanizar pelo amor.
Quaresma: exposição interior
A Quaresma, vivida nessa perspectiva, não se reduz a propósitos exteriores, mas se transforma em caminho de exposição interior diante de Deus. Trata-se de:
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Deixar que nenhuma porta permaneça fechada.
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Aceitar sair de si mesmo para ser revestido por Aquele que, pela Cruz, conduz à ressurreição.
Cruz e Ressurreição não se opõem; pertencem ao mesmo mistério de amor que desfigura para glorificar.
Eis o Homem.
Eis o caminho.
Desfigurar-se com Cristo para que o Amor tome carne em nós.
Retiro Quaresmal
Neste tempo de Quaresma, convido você a aprofundar sua reflexão sobre a Esperança Cristã. Participe do Retiro Quaresmal da Comunidade Católica Shalom. De forma gratuita, por meio da inscrição no canal Capela SH, você terá acesso a conteúdos em vídeo, como pregações semanais do Padre Vitor Aragão.
Por Noor Gonzalez
Shalom, Comunidade vida – Missão Panamá