Como nunca antes, somos imersos em uma dinâmica onde o suave perfume do amor que salva se mistura ao cheiro do sangue e da carne dilacerada.
Reclusos, vivemos a dualidade de luto e gratidão, a dor que queima em nosso peito pelo crucificado, tem sentido na gratidão pelas dolorosas chagas redentoras. Os espinhos que furaram a fronte, os chicotes que rasgaram a carne e a lança que abriu o lado tiveram a exata proporção de nossa iniquidade. Cada poro do chagado corpo expressava a livre escolha do amor, e por ele somos gratos. Sim, o Emanuel desce hoje à mansão dos mortos e faz-se vida em nós!
Morto para que tenhamos vida, Ele nos convida a abraçamos o céu, a escolhermos o que comprado a preço de sangue, tornou-se nosso por direito.
Deixemo-nos amar, contemplemos a vida que se deu para ser vida em nós. Aproveitemos a oportunidade única da reclusão, do silenciar e da peste que assola para reconhecermos a efemeridade de nossa existência e o infinito amor que nos deu o céu.
Encontremos sentido de redenção nas nossas mortes, não em terceira pessoa como quem sequer vive na terra e olha para os pecados da humanidade. Não!
Vejamos, em primeira pessoa, o nosso próprio pecado, a nossa escolha em não amar, em não sairmos de nós mesmos para ir ao encontro do outro. Percebamos o zelo e dedicação que temos em mimar a nossa carne que, tal qual criança mal educada, em cada uma de suas vontades grita e prontamente é atendida. Sim, foi essa criança mimada em nós que pendurou no madeiro o corpo do Emanuel. Pela mentira, adultério, azáfama, acídia, pelo vício sustentado, e por tantas outras mortes, principalmente aquelas que nós relutamos em admitir, Ele se deu.
Pergunte ao Senhor, no silêncio que Ele nos dá como graça para este tempo o que precisa ser vencido em você. Sem a pretensão de conhecer o que precisa mudar, deixa que o perfume do amor o conduza ao mistério da paixão. O Senhor lhe mostrará. Confie e acolha.
Christian Rité
