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Encíclica “Caritas in Veritate” – Cap 0 introdução

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CARTA ENCÍCLICA CARITAS IN VERITATE

 

DO SUMO PONTÍFICE BENTO XVI

 

AOS BISPOS AOS PRESBÍTEROS E DIÁCONOS ÀS PESSOAS CONSAGRADAS AOS FIÉIS LEIGOS E A TODOS OS HOMENS

 

DE BOA VONTADE SOBRE O DESENVOLVIMENTO HUMANO INTEGRAL

 

NA CARIDADE E NA VERDADE

INTRODUÇÃO

1. A caridade na verdade, que Jesus Cristo testemunhou com a suavida terrena e sobretudo com a sua morte e ressurreição, é a forçapropulsora principal para o verdadeiro desenvolvimento de cada pessoa eda humanidade inteira. O amor — « caritas » — é uma forçaextraordinária, que impele as pessoas a comprometerem-se, com coragem egenerosidade, no campo da justiça e da paz.

É uma força que tem a sua origem emDeus, Amor eterno e Verdade absoluta. Cada um encontra o bem próprio,aderindo ao projeto que Deus tem para ele a fim de o realizarplenamente: com efeito, é em tal projeto que encontra a verdade sobresi mesmo e, aderindo a ela, torna-se livre (cf. Jo 8, 22). Por isso,defender a verdade, propô-la com humildade e convicção e testemunhá-lana vida são formas exigentes e imprescindíveis de caridade. Esta, defato, « rejubila com a verdade » (1 Cor 13, 6). Todos os homens sentemo impulso interior para amar de maneira autêntica: amor e verdade nuncadesaparecem de todo neles, porque são a vocação colocada por Deus nocoração e na mente de cada homem. Jesus Cristo purifica e liberta dasnossas carências humanas a busca do amor e da verdade e desvenda-nos,em plenitude, a iniciativa de amor e o projeto de vida verdadeira queDeus preparou para nós. Em Cristo, a caridade na verdade torna-se oRosto da sua Pessoa, uma vocação a nós dirigida para amarmos os nossosirmãos na verdade do seu projeto. De fato, Ele mesmo é a Verdade (cf.Jo 14, 6).

2. A caridade é a via mestra da doutrina social da Igreja. Asdiversas responsabilidades e compromissos por ela delineados derivam dacaridade, que é — como ensinou Jesus — a síntese de toda a Lei (cf. Mt22, 36-40). A caridade dá verdadeira substância à relação pessoal comDeus e com o próximo; é o princípio não só das micro-relaçõesestabelecidas entre amigos, na família, no pequeno grupo, mas tambémdas macro-relações como relacionamentos sociais, económicos, políticos.Para a Igreja — instruída pelo Evangelho —, a caridade é tudo porque,como ensina S. João (cf. 1 Jo 4, 8.16) e como recordei na minhaprimeira carta encíclica, « Deus é caridade » (Deus caritas est): dacaridade de Deus tudo provém, por ela tudo toma forma, para ela tudotende. A caridade é o dom maior que Deus concedeu aos homens; é suapromessa e nossa esperança.

Estou ciente dos desvios e esvaziamento de sentido que a caridadenão cessa de enfrentar com o risco, daí resultante, de ser malentendida, de excluí-la da vida ética e, em todo o caso, de impedir asua correta valorização. Nos âmbitos social, jurídico, cultural,político e econômico, ou seja, nos contextos mais expostos a talperigo, não é difícil ouvir declarar a sua irrelevância parainterpretar e orientar as responsabilidades morais. Daqui a necessidadede conjugar a caridade com a verdade, não só na direção assinalada porS. Paulo da « veritas in caritate » (Ef 4, 15), mas também na direçãoinversa e complementar da « caritas in veritate ». A verdade há de serprocurada, encontrada e expressa na « economia » da caridade, mas estapor sua vez há de ser compreendida, avaliada e praticada sob a luz daverdade. Deste modo teremos não apenas prestado um serviço à caridade,iluminada pela verdade, mas também contribuído para acreditar averdade, mostrando o seu poder de autenticação e persuasão na vidasocial concreta. Fato este que se deve ter bem em conta hoje, numcontexto social e cultural que relativiza a verdade, aparecendo muitasvezes negligente senão mesmo refratário à mesma.

3. Pela sua estreita ligação com a verdade, a caridade pode serreconhecida como expressão autêntica de humanidade e como elemento deimportância fundamental nas relações humanas, nomeadamente de naturezapública. Só na verdade é que a caridade refulge e pode serautenticamente vivida. A verdade é luz que dá sentido e valor àcaridade. Esta luz é simultaneamente a luz da razão e a da fé, atravésdas quais a inteligência chega à verdade natural e sobrenatural dacaridade: identifica o seu significado de doação, acolhimento ecomunhão. Sem verdade, a caridade cai no sentimentalismo. O amortorna-se um invólucro vazio, que se pode encher arbitrariamente. É orisco fatal do amor numa cultura sem verdade; acaba prisioneiro dasemoções e opiniões contingentes dos indivíduos, uma palavra abusada eadulterada chegando a significar o oposto do que é realmente. A verdadeliberta a caridade dos estrangulamentos do emotivismo, que a despoja deconteúdos relacionais e sociais, e do fideísmo, que a priva deamplitude humana e universal. Na verdade, a caridade reflete a dimensãosimultaneamente pessoal e pública da fé no Deus bíblico, que éconjuntamente « Ágape » e « Logos »: Caridade e Verdade, Amor e Palavra.

4. Porque repleta de verdade, a caridade pode ser compreendida pelohomem na sua riqueza de valores, partilhada e comunicada. Com efeito, averdade é « logos » que cria « diálogos » e, consequentemente,comunicação e comunhão. A verdade, fazendo sair os homens das opiniõese sensações subjetivas, permite-lhes ultrapassar determinaçõesculturais e históricas para se encontrarem na avaliação do valor esubstância das coisas. A verdade abre e une as inteligências no logosdo amor: tal é o anúncio e o testemunho cristão da caridade. No atualcontexto social e cultural, em que aparece generalizada a tendência derelativizar a verdade, viver a caridade na verdade leva a compreenderque a adesão aos valores do cristianismo é um elemento útil e mesmoindispensável para a construção duma boa sociedade e dum verdadeirodesenvolvimento humano integral. Um cristianismo de caridade semverdade pode ser facilmente confundido com uma reserva de bonssentimentos, úteis para a convivência social mas marginais. Deste modo,deixaria de haver verdadeira e propriamente lugar para Deus no mundo.Sem a verdade, a caridade acaba confinada num âmbito restrito ecarecido de relações; fica excluída dos projetos e processos deconstrução dum desenvolvimento humano de alcance universal, no diálogoentre o saber e a realização prática.

5. A caridade é amor recebido e dado; é « graça » (cháris). A suanascente é o amor frontal do Pai pelo Filho no Espírito Santo. É amorque, pelo Filho, desce sobre nós. É amor criador, pelo qual existimos;amor redentor, pelo qual somos recriados. Amor revelado e vivido porCristo (cf. Jo 13, 1), é « derramado em nossos corações pelo EspíritoSanto » (Rm 5, 5). Destinatários do amor de Deus, os homens sãoconstituídos sujeitos de caridade, chamados a fazerem-se eles mesmosinstrumentos da graça, para difundir a caridade de Deus e tecer redesde caridade.

A esta dinâmica de caridade recebida e dada, propõe-se dar respostaa doutrina social da Igreja. Tal doutrina é « caritas in veritate in resociali », ou seja, proclamação da verdade do amor de Cristo nasociedade; é serviço da caridade, mas na verdade. Esta preserva eexprime a força libertadora da caridade nas vicissitudes sempre novasda história. É ao mesmo tempo verdade da fé e da razão, na distinção e,conjuntamente, sinergia destes dois âmbitos cognitivos. Odesenvolvimento, o bem-estar social, uma solução adequada dos gravesproblemas socioeconômicos que afligem a humanidade precisam destaverdade. Mais ainda, necessitam que tal verdade seja amada etestemunhada. Sem verdade, sem confiança e amor pelo que é verdadeiro,não há consciência e responsabilidade social, e a atividade socialacaba à mercê de interesses privados e lógicas de poder, com efeitosdesagregadores na sociedade, sobretudo numa sociedade em vias deglobalização que atravessa momentos difíceis como os atuais.

6. « Caritas in veritate » é um princípio à volta do qual gira adoutrina social da Igreja, princípio que ganha forma operativa emcritérios orientadores da ação moral. Destes, desejo lembrar dois emparticular, requeridos especialmente pelo compromisso em prol dodesenvolvimento numa sociedade em vias de globalização: a justiça e obem comum.

Em primeiro lugar, a justiça. Ubi societas, ibi ius: cada sociedadeelabora um sistema próprio de justiça. A caridade supera a justiça,porque amar é dar, oferecer ao outro do que é « meu »; mas nunca existesem a justiça, que induz a dar ao outro o que é « dele », o que lhepertence em razão do seu ser e do seu agir. Não posso « dar » ao outrodo que é meu, sem antes lhe ter dado aquilo que lhe compete porjustiça. Quem ama os outros com caridade é, antes de mais nada, justopara com eles. A justiça não só não é alheia à caridade, não só não éum caminho alternativo ou paralelo à caridade, mas é « inseparável dacaridade »[1], é-lhe intrínseca. A justiça é o primeiro caminho dacaridade ou, como chegou a dizer Paulo VI, « a medida mínima » dela[2],parte integrante daquele amor « por ações e em verdade » (1 Jo 3, 18) aque nos exorta o apóstolo João. Por um lado, a caridade exige ajustiça: o reconhecimento e o respeito dos legítimos direitos dosindivíduos e dos povos. Aquela empenha-se na construção da « cidade dohomem » segundo o direito e a justiça. Por outro, a caridade supera ajustiça e completa-a com a lógica do dom e do perdão[3]. A « cidade dohomem » não se move apenas por relações feitas de direitos e dedeveres, mas antes e sobretudo por relações de gratuidade, misericórdiae comunhão. A caridade manifesta sempre, mesmo nas relações humanas, oamor de Deus; dá valor teologal e salvífico a todo o empenho de justiçano mundo.

7. Depois, é preciso ter em grande consideração o bem comum. Amaralguém é querer o seu bem e trabalhar eficazmente pelo mesmo. Ao ladodo bem individual, existe um bem ligado à vida social das pessoas: obem comum. É o bem daquele « nós todos », formado por indivíduos,famílias e grupos intermédios que se unem em comunidade social[4]. Nãoé um bem procurado por si mesmo, mas para as pessoas que fazem parte dacomunidade social e que, só nela, podem realmente e com maior eficáciaobter o próprio bem. Querer o bem comum e trabalhar por ele é exigênciade justiça e de caridade. Comprometer-se pelo bem comum é, por um lado,cuidar e, por outro, valer-se daquele conjunto de instituições queestruturam jurídica, civil, política e culturalmente a vida social, quedeste modo toma a forma de pólis, cidade. Ama-se tanto mais eficazmenteo próximo, quanto mais se trabalha em prol de um bem comum que dêresposta também às suas necessidade reais. Todo o cristão é chamado aesta caridade, conforme a sua vocação e segundo as possibilidades quetem de incidência na pólis. Este é o caminho institucional — podemosmesmo dizer político — da caridade, não menos qualificado e incisivo doque o é a caridade que vai diretamente ao encontro do próximo, fora dasmediações institucionais da pólis. Quando o empenho pelo bem comum éanimado pela caridade, tem uma valência superior à do empenhosimplesmente secular e político. Aquele, como todo o empenho pelajustiça, inscreve-se no testemunho da caridade divina que, agindo notempo, prepara o eterno. A ação do homem sobre a terra, quando éinspirada e sustentada pela caridade, contribui para a edificaçãodaquela cidade universal de Deus que é a meta para onde caminha ahistória da família humana. Numa sociedade em vias de globalização, obem comum e o empenho em seu favor não podem deixar de assumir asdimensões da família humana inteira, ou seja, da comunidade dos povos edas nações[5], para dar forma de unidade e paz à cidade do homem etorná-la em certa medida antecipação que prefigura a cidade de Deus sembarreiras.

8. Ao publicar a encíclica Populorum progressio em 1967, o meuvenerado predecessor Paulo VI iluminou o grande tema do desenvolvimentodos povos com o esplendor da verdade e com a luz suave da caridade deCristo. Afirmou que o anúncio de Cristo é o primeiro e principal fatorde desenvolvimento [6] e deixou-nos a recomendação de caminhar pelaestrada do desenvolvimento com todo o nosso coração e com toda a nossainteligência[7], ou seja, com o ardor da caridade e a sapiência daverdade. É a verdade originária do amor de Deus — graça a nós concedida— que abre ao dom a nossa vida e torna possível esperar num «desenvolvimento do homem todo e de todos os homens »[8], numa passagem« de condições menos humanas a condições mais humanas »[9], que seobtém vencendo as dificuldades que inevitavelmente se encontram aolongo do caminho.

Passados mais de quarenta anos da publicação da referida encíclica,pretendo prestar homenagem e honrar a memória do grande Pontífice PauloVI, retomando os seus ensinamentos sobre o desenvolvimento humanointegral e colocando-me na senda pelos mesmos traçada para os atualizarnos dias que correm. Este processo de atualização teve início com aencíclica Sollicitudo rei socialis do Servo de Deus João Paulo II, quedesse modo quis comemorar a Populorum progressio no vigésimoaniversário da sua publicação. Até então, semelhante comemoraçãotinha-se reservado apenas para a Rerum novarum. Passados outros vinteanos, exprimo a minha convicção de que a Populorum progressio mereceser considerada como « a Rerum novarum da época contemporânea », queilumina o caminho da humanidade em vias de unificação.

9. O amor na verdade — caritas in veritate — é um grande desafiopara a Igreja num mundo em crescente e incisiva globalização. O riscodo nosso tempo é que, à real interdependência dos homens e dos povos,não corresponda a interação ética das consciências e das inteligências,da qual possa resultar um desenvolvimento verdadeiramente humano. Sóatravés da caridade, iluminada pela luz da razão e da fé, é possívelalcançar objetivos de desenvolvimento dotados de uma valência maishumana e humanizadora. A partilha dos bens e recursos, da qual deriva oautêntico desenvolvimento, não é assegurada pelo simples progressotécnico e por meras relações de conveniência, mas pelo potencial deamor que vence o mal com o bem (cf. Rm 12, 21) e abre à reciprocidadedas consciências e das liberdades.

A Igreja não tem soluções técnicas para oferecer [10] e não pretende« de modo algum imiscuir-se na política dos Estados »[11]; mas tem umamissão ao serviço da verdade para cumprir, em todo o tempo econtingência, a favor de uma sociedade à medida do homem, da suadignidade, da sua vocação. Sem verdade, cai-se numa visão empirista ecéptica da vida, incapaz de se elevar acima da ação porque não estáinteressada em identificar os valores — às vezes nem sequer ossignificados — pelos quais julgá-la e orientá-la. A fidelidade ao homemexige a fidelidade à verdade, a única que é garantia de liberdade (cf.Jo 8, 32) e da possibilidade dum desenvolvimento humano integral. É porisso que a Igreja a procura, anuncia incansavelmente e reconhece emtodo o lado onde a mesma se apresente. Para a Igreja, esta missão aoserviço da verdade é irrenunciável. A sua doutrina social é um momentosingular deste anúncio: é serviço à verdade que liberta. Aberta àverdade, qualquer que seja o saber donde provenha, a doutrina social daIgreja acolhe-a, compõe numa unidade os fragmentos em quefrequentemente a encontra, e serve-lhe de medianeira na vida semprenova da sociedade dos homens e dos povos[12].

VEJA TAMBÉM:

» Introdução
» Capítulo I
» Capítulo II
» Capítulo III
» Capítulo IV
» Capítulo V
» Capítulo VI e conclusão

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[1] Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio (26 de Março de 1967),22: AAS 59 (1967), 268; cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. sobre aIgreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, 69.

[2] Discurso na Jornada do Desenvolvimento (23 de Agosto de 1968): AAS 60 (1968), 626-627.

[3] Cf. João Paulo II, Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2002: AAS 94 (2002), 132-140.

[4] Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, 26.

[5] Cf. João XXIII, Carta enc. Pacem in terris (11 de Abril de 1963): AAS 55 (1963), 268-270.

[6] Cf. n. 16: AAS 59 (1967), 265.

[7] Cf. ibid., 82: o.c., 297.

[8] Ibid., 42: o.c., 278.

[9] Ibid., 20: o.c., 267.

[10] Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. sobre a Igreja no mundocontemporâneo Gaudium et spes, 36; Paulo VI, Carta ap. Octogesimaadveniens (14 de Maio de 1971), 4: AAS 63 (1971), 403-404; João PauloII, Carta enc. Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 43: AAS 83 (1991),847.

[11] Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio (26 de Março de 1967), 13: AAS 59 (1967), 263-264.

[12] Cf. Pont. Conselho « Justiça e Paz », Compêndio da Doutrina Social da Igreja, n. 76.


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