Formação

Encíclica “Caritas in Veritate” – Cap 4

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CARTA ENCÍCLICA CARITAS IN VERITATE

DO SUMO PONTÍFICE BENTO XVI

CAPÍTULO IV

DESENVOLVIMENTO DOS POVOS,

DIREITOS E DEVERES, AMBIENTE

43. « A solidariedade universal é para nós não só um facto e umbenefício, mas também um dever »[105]. Hoje, muitas pessoas tendem aalimentar a pretensão de que não devem nada a ninguém, a não ser a simesmas. Considerando-se titulares só de direitos, frequentementedeparam-se com fortes obstáculos para maturar uma responsabilidade noâmbito do desenvolvimento integral próprio e alheio. Por isso, éimportante invocar uma nova reflexão que faça ver como os direitospressupõem deveres, sem os quais o seu exercício se transforma emarbítrio[106]. Assiste-se hoje a uma grave contradição: enquanto, porum lado, se reivindicam presuntos direitos, de carácter arbitrário elibertino, querendo vê-los reconhecidos e promovidos pelas estruturaspúblicas, por outro existem direitos elementares e fundamentaisviolados e negados a boa parte da humanidade[107]. Aparece comfrequência assinalada uma relação entre a reivindicação do direito aosupérfluo, senão mesmo à transgressão e ao vício, nas sociedadesopulentes e a falta de alimento, água potável, instrução básica,cuidados sanitários elementares em certas regiões do mundo dosubdesenvolvimento e também nas periferias de grandes metrópoles. Arelação está no facto de que os direitos individuais, desvinculados deum quadro de deveres que lhes confira um sentido completo, enlouqueceme alimentam uma espiral de exigências praticamente ilimitada e semcritérios. A exasperação dos direitos desemboca no esquecimento dosdeveres. Estes delimitam os direitos porque remetem para o quadroantropológico e ético cuja verdade é o âmbito onde os mesmos se insereme, deste modo, não descambam no arbítrio. Por este motivo, os deveresreforçam os direitos e propõem a sua defesa e promoção como umcompromisso a assumir ao serviço do bem. Se, pelo contrário, osdireitos do homem encontram o seu fundamento apenas nas deliberaçõesduma assembleia de cidadãos, podem ser alterados em qualquer momento e,assim, o dever de os respeitar e promover atenua-se na consciênciacomum. Então os governos e os organismos internacionais podem esquecera objectividade e « indisponibilidade » dos direitos. Quando istoacontece, põe-se em perigo o verdadeiro desenvolvimento dos povos[108].Semelhantes posições comprometem a autoridade dos organismosinternacionais, sobretudo aos olhos dos países mais carecidos dedesenvolvimento. De facto, estes pedem que a comunidade internacionalassuma como um dever ajudá-los a serem « artífices do seu destino»[109], ou seja, a assumirem por sua vez deveres. A partilha dosdeveres recíprocos mobiliza muito mais do que a mera reivindicação dedireitos.

44. A concepção dos direitos e dos deveres no desenvolvimento deveter em conta também as problemáticas ligadas com o crescimentodemográfico. Trata-se de um aspecto muito importante do verdadeirodesenvolvimento, porque diz respeito aos valores irrenunciáveis da vidae da família[110]. Considerar o aumento da população como a primeiracausa do subdesenvolvimento é errado, inclusive do ponto de vistaeconómico: basta pensar, por um lado, na considerável diminuição damortalidade infantil e no alongamento médio da vida que se regista nospaíses economicamente desenvolvidos, e, por outro, nos sinais de criseque se observam nas sociedades onde se regista uma preocupante queda danatalidade. Obviamente é forçoso prestar a devida atenção a umaprocriação responsável, que constitui, para além do mais, uma realcontribuição para o desenvolvimento integral. A Igreja, que tem a peitoo verdadeiro desenvolvimento do homem, recomenda-lhe o respeito dosvalores humanos também no uso da sexualidade: o mesmo não pode serreduzido a um mero facto hedonista e lúdico, do mesmo modo que aeducação sexual não se pode limitar à instrução técnica, tendo comoúnica preocupação defender os interessados de eventuais contágios ou do« risco » procriador. Isto equivaleria a empobrecer e negligenciar osignificado profundo da sexualidade, que deve, pelo contrário, serreconhecido e assumido responsavelmente tanto pela pessoa como pelacomunidade. Com efeito, a responsabilidade impede que se considere asexualidade como uma simples fonte de prazer ou que seja regulada compolíticas de planificação forçada dos nascimentos. Em ambos os casos,estamos perante concepções e políticas materialistas, no âmbito dasquais as pessoas acabam por sofrer várias formas de violência. A tudoisto há que contrapor a competência primária das famílias nestecampo[111], relativamente ao Estado e às suas políticas restritivas, etambém uma apropriada educação dos pais.

A abertura moralmente responsável à vida é uma riqueza social eeconómica. Grandes nações puderam sair da miséria, justamente graças aogrande número e às capacidades dos seus habitantes. Pelo contrário,nações outrora prósperas atravessam agora uma fase de incerteza e, emalguns casos, de declínio precisamente por causa da diminuição danatalidade, problema crucial para as sociedades de proeminentebem-estar. A diminuição dos nascimentos, situando-se por vezes abaixodo chamado « índice de substituição », põe em crise também os sistemasde assistência social, aumenta os seus custos, contrai a acumulação depoupanças e, consequentemente, os recursos financeiros necessários paraos investimentos, reduz a disponibilização de trabalhadoresqualificados, restringe a reserva aonde ir buscar os « cérebros » paraas necessidades da nação. Além disso, as famílias de pequena e, àsvezes, pequeníssima dimensão correm o risco de empobrecer as relaçõessociais e de não garantir formas eficazes de solidariedade. Sãosituações que apresentam sintomas de escassa confiança no futuro e decansaço moral. Deste modo, torna-se uma necessidade social, e mesmoeconómica, continuar a propor às novas gerações a beleza da família edo matrimónio, a correspondência de tais instituições às exigênciasmais profundas do coração e da dignidade da pessoa. Nesta perspectiva,os Estados são chamados a instaurar políticas que promovam acentralidade e a integridade da família, fundada no matrimónio entre umhomem e uma mulher, célula primeira e vital da sociedade[112],preocupando-se também com os seus problemas económicos e fiscais, norespeito da sua natureza relacional.

45. Dar resposta às exigências morais mais profundas da pessoa temtambém importantes e benéficas consequências no plano económico. Defacto, a economia tem necessidade da ética para o seu correctofuncionamento; não de uma ética qualquer, mas de uma ética amiga dapessoa. Hoje fala-se muito de ética em campo económico, financeiro,empresarial. Nascem centros de estudo e percursos formativos denegócios éticos; difunde-se no mundo desenvolvido o sistema dascertificações éticas, na esteira do movimento de ideias nascido à voltada responsabilidade social da empresa. Os bancos propõem contas efundos de investimento chamados « éticos ». Desenvolvem-se as «finanças éticas », sobretudo através do micro-crédito e, mais em geral,de micro-financiamentos. Tais processos suscitam apreço e merecem amploapoio. Os seus efeitos positivos fazem-se sentir também nas áreas menosdesenvolvidas da terra. Todavia, é bom formar também um válido critériode discernimento, porque se nota um certo abuso do adjectivo « ético »,o qual, se usado vagamente, presta-se a designar conteúdos muitodiversos, chegando-se a fazer passar à sua sombra decisões e opçõescontrárias à justiça e ao verdadeiro bem do homem.

Com efeito, muito depende do sistema moral em que se baseia. Sobreeste argumento, a doutrina social da Igreja tem um contributo próprio eespecífico para dar, que se funda na criação do homem « à imagem deDeus » (Gn 1, 27), um dado do qual deriva a dignidade inviolável dapessoa humana e também o valor transcendente das normas moraisnaturais. Uma ética económica que prescinda destes dois pilaresarrisca-se inevitavelmente a perder o seu cunho específico e aprestar-se a instrumentalizações; mais concretamente, arrisca-se aaparecer em função dos sistemas económico-financeiros existentes, emvez de servir de correcção às disfunções dos mesmos. Além do mais,acabaria até por justificar o financiamento de projectos que não sãoéticos. Por outro lado, não se deve recorrer ao termo « ético » de modoideologicamente discriminatório, dando a perceber que não seriam éticasas iniciativas não dotadas formalmente de tal qualificação. Um dado éessencial: a necessidade de trabalhar não só para que nasçam sectoresou segmentos « éticos » da economia ou das finanças, mas também paraque toda a economia e as finanças sejam éticas: e não por uma rotulaçãoexterior, mas pelo respeito de exigências intrínsecas à sua próprianatureza. A tal respeito, se pronuncia com clareza a doutrina social daIgreja, que recorda como a economia, em todas as suas extensões, sejaum sector da actividade humana[113].

46. Considerando as temáticas referentes à relação entre empresa eética e também a evolução que o sistema produtivo está a fazer, pareceque a distinção usada até agora entre empresas que têm por finalidade olucro (profit) e organizações que não buscam o lucro (non profit) jánão é capaz de dar cabalmente conta da realidade, nem de orientareficazmente o futuro. Nestas últimas décadas, foi surgindo entre asduas tipologias de empresa uma ampla área intermédia. Esta éconstituída por empresas tradicionais mas que subscrevem pactos deajuda aos países atrasados, por fundações que são expressão de empresasindividuais, por grupos de empresas que se propõem objectivos deutilidade social, pelo mundo diversificado dos sujeitos da chamadaeconomia civil e de comunhão. Não se trata apenas de um « terceirosector », mas de uma nova e ampla realidade complexa, que envolve oprivado e o público e que não exclui o lucro mas considera-o comoinstrumento para realizar finalidades humanas e sociais. O facto detais empresas distribuírem ou não os ganhos ou de assumirem uma ououtra das configurações previstas pelas normas jurídicas torna-sesecundário relativamente à sua disponibilidade a conceber o lucro comoum instrumento para alcançar finalidades de humanização do mercado e dasociedade. É desejável que estas novas formas de empresa tambémencontrem, em todos os países, adequada configuração jurídica e fiscal.Sem nada tirar à importância e utilidade económica e social das formastradicionais de empresa, fazem evoluir o sistema para uma assunção maisclara e perfeita dos deveres por parte dos sujeitos económicos. E nãosó… A própria pluralidade das formas institucionais de empresa gera ummercado mais humano e simultaneamente mais competitivo.

47. O fortalecimento das diversas tipologias de empresa, mormentedas que são capazes de conceber o lucro como um instrumento paraalcançar finalidades de humanização do mercado e das sociedades, deveser procurado também nos países que sofrem exclusão ou marginalizaçãodos circuitos da economia global, onde é muito importante avançar comprojectos de subsidiariedade devidamente concebida e gerida que tendama potenciar os direitos, mas prevendo sempre também a assunção dascorrelativas responsabilidades. Nas intervenções em prol dodesenvolvimento, há que salvaguardar o princípio da centralidade dapessoa humana, que é o sujeito que primariamente deve assumir o deverdo desenvolvimento. A preocupação principal é a melhoria das situaçõesde vida das pessoas concretas duma certa região, para que possamdesempenhar aqueles deveres que actualmente a indigência não lhespermite respeitar. A solicitude nunca pode ser uma atitude abstracta.Para poderem adaptar-se às diversas situações, os programas dedesenvolvimento devem ser flexíveis; e as pessoas beneficiáriasdeveriam estar envolvidas directamente na sua delineação e tornar-seprotagonistas da sua actuação. É necessário também aplicar os critériosda progressão e do acompanhamento — incluindo a monitorização dosresultados — porque não há receitas válidas universalmente; dependemuito da gestão concreta das intervenções. « São os povos os autores eprimeiros responsáveis do próprio desenvolvimento. Mas não o poderãorealizar isolados »[114]. Esta advertência de Paulo VI é ainda maisválida hoje, com o processo de progressiva integração que se vaiconsolidando na terra. As dinâmicas de inclusão não têm nada demecânico. As soluções hão-de ser calibradas olhando a vida dos povos edas pessoas concretas com base numa ponderada avaliação de cadasituação. Ao lado dos macro-projectos servem os micro-projectos, esobretudo serve a mobilização real de todos os sujeitos da sociedadecivil, das pessoas tanto jurídicas como físicas.

A cooperação internacional precisa de pessoas que partilhem oprocesso de desenvolvimento económico e humano, através dasolidariedade feita de presença, acompanhamento, formação e respeito.Sob este ponto de vista, os próprios organismos internacionais deveriaminterrogar-se sob a real eficácia dos seus aparatos burocráticos eadministrativos, frequentemente muito dispendiosos. Às vezes sucede queo destinatário das ajudas seja utilizado em função de quem o ajuda eque os pobres sirvam para manter de pé dispendiosas organizaçõesburocráticas que reservam para sua própria conservação percentagensdemasiado elevadas dos recursos que, ao invés, deveriam ser aplicadosno desenvolvimento. Nesta perspectiva, seria desejável que todos osorganismos internacionais e as organizações não governamentais secomprometessem a uma plena transparência, informando os doadores e aopinião pública acerca da percentagem de fundos recebidos destinada aosprogramas de cooperação, acerca do verdadeiro conteúdo de taisprogramas e, por último, acerca da configuração das despesas da própriainstituição.

48. O tema do desenvolvimento aparece, hoje, estreitamente associadotambém com os deveres que nascem do relacionamento do homem com oambiente natural. Este foi dado por Deus a todos, constituindo o seuuso uma responsabilidade que temos para com os pobres, as geraçõesfuturas e a humanidade inteira. Quando a natureza, a começar pelo serhumano, é considerada como fruto do acaso ou do determinismo evolutivo,a noção da referida responsabilidade debilita-se nas consciências. Nanatureza, o crente reconhece o resultado maravilhoso da intervençãocriadora de Deus, de que o homem se pode responsavelmente servir parasatisfazer as suas legítimas exigências — materiais e imateriais — norespeito dos equilíbrios intrínsecos da própria criação. Se falta estaperspectiva, o homem acaba ou por considerar a natureza um tabuintocável ou, ao contrário, por abusar dela. Nem uma nem outra destasatitudes corresponde à visão cristã da natureza, fruto da criação deDeus.

A natureza é expressão de um desígnio de amor e de verdade.Precede-nos, tendo-nos sido dada por Deus como ambiente de vida.Fala-nos do Criador (cf. Rm 1, 20) e do seu amor pela humanidade. Estádestinada, no fim dos tempos, a ser « instaurada » em Cristo (cf. Ef 1,9-10; Col 1, 19-20). Por conseguinte, também ela é uma « vocação»[115]. A natureza está à nossa disposição, não como « um monte de lixoespalhado ao acaso »[116], mas como um dom do Criador que traçou osseus ordenamentos intrínsecos dos quais o homem há-de tirar as devidasorientações para a « guardar e cultivar » (Gn 2, 15). Mas é precisosublinhar também que é contrário ao verdadeiro desenvolvimentoconsiderar a natureza mais importante do que a própria pessoa humana.Esta posição induz a comportamentos neo-pagãos ou a um novo panteísmo:só da natureza, entendida em sentido puramente naturalista, não podederivar a salvação para o homem. Por outro lado, há que rejeitar tambéma posição oposta, que visa a sua completa tecnicização, porque oambiente natural não é apenas matéria de que dispor a nosso bel-prazer,mas obra admirável do Criador, contendo nela uma « gramática » queindica finalidades e critérios para uma utilização sapiente, nãoinstrumental nem arbitrária. Advêm, hoje, muitos danos aodesenvolvimento precisamente destas concepções deformadas. Reduzircompletamente a natureza a um conjunto de simples dados reais acaba porser fonte de violência contra o ambiente e até por motivar acçõesdesrespeitadoras da própria natureza do homem. Esta, constituída não sóde matéria mas também de espírito e, como tal, rica de significados ede fins transcendentes a alcançar, tem um carácter normativo tambémpara a cultura. O homem interpreta e modela o ambiente natural atravésda cultura, a qual, por sua vez, é orientada por meio da liberdaderesponsável, atenta aos ditames da lei moral. Por isso, os projectospara um desenvolvimento humano integral não podem ignorar os vindouros,mas devem ser animados pela solidariedade e a justiça entre asgerações, tendo em conta os diversos âmbitos: ecológico, jurídico,económico, político, cultural[117].

49. Hoje, as questões relacionadas com o cuidado e a preservação doambiente devem ter na devida consideração as problemáticas energéticas.De facto, o açambarcamento dos recursos energéticos não renováveis porparte de alguns Estados, grupos de poder e empresas constitui um graveimpedimento para o desenvolvimento dos países pobres. Estes não têm osmeios económicos para chegar às fontes energéticas não renováveis queexistem, nem para financiar a pesquisa de fontes novas e alternativas.A monopolização dos recursos naturais, que em muitos casos se encontramprecisamente nos países pobres, gera exploração e frequentes conflitosentre as nações e dentro das mesmas. E muitas vezes estes conflitos sãotravados precisamente no território de tais países, com um pesadobalanço em termos de mortes, destruições e maior degradação. Acomunidade internacional tem o imperioso dever de encontrar as viasinstitucionais para regular a exploração dos recursos não renováveis,com a participação também dos países pobres, de modo a planificar emconjunto o futuro.

Também sobre este aspecto, há urgente necessidade moral de umarenovada solidariedade, especialmente nas relações entre os países emvias de desenvolvimento e os países altamente industrializados[118]. Associedades tecnicamente avançadas podem e devem diminuir o consumoenergético seja porque as actividades manufactureiras evoluem, sejaporque entre os seus cidadãos reina maior sensibilidade ecológica. Alémdisso há que acrescentar que, actualmente, é possível melhorar aeficiência energética e fazer avançar a pesquisa de energiasalternativas; mas é necessária também uma redistribuição mundial dosrecursos energéticos, de modo que os próprios países desprovidos possamter acesso aos mesmos. O seu destino não pode ser deixado nas mãos doprimeiro a chegar nem estar sujeito à lógica do mais forte. Trata-se deproblemas relevantes que, para ser enfrentados de modo adequado,requerem da parte de todos uma responsável tomada de consciência dasconsequências que recairão sobre as novas gerações, principalmentesobre a imensidade de jovens presentes nos povos pobres, que « reclamama sua parte activa na construção de um mundo melhor »[119].

50. Esta responsabilidade é global, porque não diz respeito somenteà energia, mas a toda a criação, que não devemos deixar às novasgerações depauperada dos seus recursos. É lícito ao homem exercer umgoverno responsável sobre a natureza para a guardar, fazer frutificar ecultivar inclusive com formas novas e tecnologias avançadas, para quepossa acolher e alimentar condignamente a população que a habita. Háespaço para todos nesta nossa terra: aqui a família humana inteira deveencontrar os recursos necessários para viver decorosamente, com a ajudada própria natureza, dom de Deus aos seus filhos, e com o empenho doseu próprio trabalho e inventiva. Devemos, porém, sentir comogravíssimo o dever de entregar a terra às novas gerações num estado talque também elas possam dignamente habitá-la e continuar a cultivá-la.Isto implica « o empenho de decidir juntos depois de ter ponderadoresponsavelmente qual a estrada a percorrer, com o objectivo dereforçar aquela aliança entre ser humano e ambiente que deve serespelho do amor criador de Deus, de Quem provimos e para Quem estamos acaminho »[120]. É desejável que a comunidade internacional e osdiversos governos saibam contrastar, de maneira eficaz, as modalidadesde utilização do ambiente que sejam danosas para o mesmo. É igualmenteforçoso que se empreendam, por parte das autoridades competentes, todosos esforços necessários para que os custos económicos e sociaisderivados do uso dos recursos ambientais comuns sejam reconhecidos demaneira transparente e plenamente suportados por quem deles usufrui enão por outras populações nem pelas gerações futuras: a protecção doambiente, dos recursos e do clima requer que todos os responsáveisinternacionais actuem conjuntamente e se demonstrem prontos a agir deboa fé, no respeito da lei e da solidariedade para com as regiões maisdébeis da terra[121]. Uma das maiores tarefas da economia éprecisamente um uso mais eficiente dos recursos, não o abuso, tendosempre presente que a noção de eficiência não é axiologicamente neutra.

51. As modalidades com que o homem trata o ambiente influem sobre asmodalidades com que se trata a si mesmo, e vice-versa. Isto chama asociedade actual a uma séria revisão do seu estilo de vida que, emmuitas partes do mundo, pende para o hedonismo e o consumismo, semolhar aos danos que daí derivam[122]. É necessária uma real mudança dementalidade que nos induza a adoptar novos estilos de vida, « nos quaisa busca do verdadeiro, do belo e do bom e a comunhão com os outroshomens para um crescimento comum sejam os elementos que determinam asopções dos consumos, das poupanças e dos investimentos »[123]. Toda alesão da solidariedade e da amizade cívica provoca danos ambientais,assim como a degradação ambiental por sua vez gera insatisfação nasrelações sociais. A natureza, especialmente no nosso tempo, está tãointegrada nas dinâmicas sociais e culturais que quase já não constituiuma variável independente. A desertificação e a penúria produtiva dealgumas áreas agrícolas são fruto também do empobrecimento daspopulações que as habitam e do seu atraso. Incentivando odesenvolvimento económico e cultural daquelas populações, tutela-setambém a natureza. Além disso, quantos recursos naturais são devastadospela guerra! A paz dos povos e entre os povos permitiria também umamaior preservação da natureza. O açambarcamento dos recursos,especialmente da água, pode provocar graves conflitos entre aspopulações envolvidas. Um acordo pacífico sobre o uso dos recursos podesalvaguardar a natureza e, simultaneamente, o bem-estar das sociedadesinteressadas.

A Igreja sente o seu peso de responsabilidade pela criação e devefazer valer esta responsabilidade também em público. Ao fazê-lo, nãotem apenas de defender a terra, a água e o ar como dons da criação quepertencem a todos, mas deve sobretudo proteger o homem da destruição desi mesmo. Requer-se uma espécie de ecologia do homem, entendida nojusto sentido. De facto, a degradação da natureza está estreitamenteligada à cultura que molda a convivência humana: quando a « ecologiahumana » [124] é respeitada dentro da sociedade, beneficia também aecologia ambiental. Tal como as virtudes humanas são intercomunicantes,de modo que o enfraquecimento de uma põe em risco também as outras,assim também o sistema ecológico se rege sobre o respeito de umprojecto que se refere tanto à sã convivência em sociedade como ao bomrelacionamento com a natureza.

Para preservar a natureza não basta intervir com incentivos oupenalizações económicas, nem é suficiente uma instrução adequada.Trata-se de instrumentos importantes, mas o problema decisivo é asolidez moral da sociedade em geral. Se não é respeitado o direito àvida e à morte natural, se se torna artificial a concepção, a gestaçãoe o nascimento do homem, se são sacrificados embriões humanos napesquisa, a consciência comum acaba por perder o conceito de ecologiahumana e, com ele, o de ecologia ambiental. É uma contradição pedir àsnovas gerações o respeito do ambiente natural, quando a educação e asleis não as ajudam a respeitar-se a si mesmas. O livro da natureza éuno e indivisível, tanto sobre a vertente do ambiente como sobre avertente da vida, da sexualidade, do matrimónio, da família, dasrelações sociais, numa palavra, do desenvolvimento humano integral. Osdeveres que temos para com o ambiente estão ligados com os deveres quetemos para com a pessoa considerada em si mesma e em relação com osoutros; não se podem exigir uns e espezinhar os outros. Esta é umagrave antinomia da mentalidade e do costume actual, que avilta apessoa, transtorna o ambiente e prejudica a sociedade.

52. A verdade e o amor que a mesma desvenda não se podem produzir,mas apenas acolher. A sua fonte última não é — nem pode ser — o homem,mas Deus, ou seja, Aquele que é Verdade e Amor. Este princípio é muitoimportante para a sociedade e para o desenvolvimento, enquanto nem umanem outro podem ser somente produtos humanos; a própria vocação aodesenvolvimento das pessoas e dos povos não se funda sobre a simplesdeliberação humana, mas está inscrita num plano que nos precede econstitui para todos nós um dever que há-de ser livremente assumido.Aquilo que nos precede e constitui — o Amor e a Verdade subsistentes —indica-nos o que é o bem e em que consiste a nossa felicidade. E, porconseguinte, aponta-nos o caminho para o verdadeiro desenvolvimento.

VEJA TAMBÉM:

» Introdução
» Capítulo I
» Capítulo II
» Capítulo III
» Capítulo IV
» Capítulo V
» Capítulo VI e conclusão

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[105] Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio (26 de Março de 1967), 17: AAS 59 (1967), 265-266.

[106] Cf. João Paulo II, Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2003, 5: AAS 95 (2003), 343.

[107] Cf. ibid., 5: o.c., 343.

[108] Cf. Bento XVI, Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2007, 13: Insegnamenti II/2 (2006), 781-782.

[109] Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio (26 de Março de 1967), 65: AAS 59 (1967), 289.

[110] Cf. ibid., 36-37: o.c., 275-276.

[111] Cf. ibid., 37: o.c., 275-276.

[112] Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Decr. sobre o apostolado dos leigos Apostolicam actuositatem, 11.

[113] Cf. Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio (26 de Março de1967), 14: AAS 59 (1967), 264; João Paulo II, Carta enc. Centesimusannus (1 de Maio de 1991), 32: AAS 83 (1991), 832-833.

[114] Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio (26 de Março de 1967), 77: AAS 59 (1967), 295.

[115] João Paulo II, Mensagem para o Dia Mundial da Paz 1990, 6: AAS 82 (1990), 150.

[116] Heráclito de Éfeso (± 535-475 a.C.), Fragmento 22B124, in H.Diels-W. Kranz, Die Fragmente der Vorsokratiker (Weidmann, Berlim[6]1952).

[117] Cf. Pont. Conselho « Justiça e Paz », Compêndio da Doutrina Social da Igreja, nn. 451-487.

[118] Cf. João Paulo II, Mensagem para o Dia Mundial da Paz 1990, 10: AAS 82 (1990), 152-153.

[119] Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio (26 de Março de 1967), 65: AAS 59 (1967), 289.

[120] Bento XVI, Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2008, 7: AAS 100 (2008), 41.

[121] Cf. Bento XVI, Discurso aos participantes na Assembleia Geraldas Nações Unidas (18 de Abril de 2008): Insegnamenti IV//1 (2008),618-626.

[122] Cf. João Paulo II, Mensagem para o Dia Mundial da Paz 1990, 13: AAS 82 (1990), 154-155.

[123] João Paulo II, Carta enc. Centesimus annus (1 de Maio de 1967), 36: AAS 83 (1991), 838-840.

[124] Ibid., 38: o.c., 840-841; cf. Bento XVI, Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2007, 8: Insegnamenti II/2 (2006), 779.


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