Formação

Encíclica “Caritas in Veritate” – Cap 6 e Conclusão

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CARTA ENCÍCLICA CARITAS IN VERITATE

DO SUMO PONTÍFICE BENTO XVI

CAPÍTULO VI

O DESENVOLVIMENTO DOS POVOS E A TÉCNICA

68. O tema do desenvolvimento dos povos está intimamente ligado como do desenvolvimento de cada indivíduo. Por sua natureza, a pessoahumana está dinamicamente orientada para o próprio desenvolvimento. Nãose trata de um desenvolvimento garantido por mecanismos naturais,porque cada um de nós sabe que é capaz de realizar opções livres eresponsáveis; também não se trata de um desenvolvimento à mercê donosso capricho, enquanto todos sabemos que somos dom e não resultado deauto-geração. Em nós, a liberdade é originariamente caracterizada pelonosso ser e pelos seus limites. Ninguém plasma arbitrariamente aprópria consciência, mas todos formam a própria personalidade sobre abase duma natureza que lhe foi dada. Não são apenas as outras pessoasque são indisponíveis; também nós não podemos dispor arbitrariamente denós mesmos. O desenvolvimento da pessoa degrada-se, se ela pretende sera única produtora de si mesma. De igual modo, degenera odesenvolvimento dos povos, se a humanidade pensa que se pode re-criarvalendo-se dos « prodígios » da tecnologia. Analogamente, o progressoeconómico revela-se fictício e danoso quando se abandona aos «prodígios » das finanças para apoiar incrementos artificiais econsumistas. Perante esta pretensão prometeica, devemos robustecer oamor por uma liberdade não arbitrária, mas tornada verdadeiramentehumana pelo reconhecimento do bem que a precede. Com tal objectivo, épreciso que o homem reentre em si mesmo, para reconhecer as normasfundamentais da lei moral natural que Deus inscreveu no seu coração.

69. Hoje, o problema do desenvolvimento está estreitamente unido como progresso tecnológico, com as suas deslumbrantes aplicações no campobiológico. A técnica — é bom sublinhá-lo — é um dado profundamentehumano, ligado à autonomia e à liberdade do homem. Nela exprime-se econfirma-se o domínio do espírito sobre a matéria. O espírito, «tornando-se assim ‘‘mais liberto da escravidão das coisas, podefacilmente elevar-se ao culto e à contemplação do Criador” »[150]. Atécnica permite dominar a matéria, reduzir os riscos, poupar fadigas,melhorar as condições de vida. Dá resposta à própria vocação dotrabalho humano: na técnica, considerada como obra do génio pessoal, ohomem reconhece-se a si mesmo e realiza a própria humanidade. A técnicaé o aspecto objectivo do agir humano[151], cuja origem e razão de serestão no elemento subjectivo: o homem que actua. Por isso, aquela nuncaé simplesmente técnica; mas manifesta o homem e as suas aspirações aodesenvolvimento, exprime a tensão do ânimo humano para uma gradualsuperação de certos condicionamentos materiais. Assim, a técnicainsere-se no mandato de « cultivar e guardar a terra » (Gn 2, 15) queDeus confiou ao homem, e há-de ser orientada para reforçar aquelaaliança entre ser humano e ambiente em que se deve reflectir o amorcriador de Deus.

70. O desenvolvimento tecnológico pode induzir à ideia deauto-suficiência da própria técnica, quando o homem, interrogando-seapenas sobre o como, deixa de considerar os muitos porquês pelos quaisé impelido a agir. Por isso, a técnica apresenta-se com uma fisionomiaambígua. Nascida da criatividade humana como instrumento da liberdadeda pessoa, pode ser entendida como elemento de liberdade absoluta;aquela liberdade que quer prescindir dos limites que as coisas trazemconsigo. O processo de globalização poderia substituir as ideologiascom a técnica[152], passando esta a ser um poder ideológico que exporiaa humanidade ao risco de se ver fechada dentro de um a priori do qualnão poderia sair para encontrar o ser e a verdade. Em tal caso, todosnós conheceríamos, avaliaríamos e decidiríamos as situações da nossavida a partir do interior de um horizonte cultural tecnocrático, aoqual pertenceríamos estruturalmente, sem poder jamais encontrar umsentido que não fosse produzido por nós. Esta visão torna hoje tãoforte a mentalidade tecnicista que faz coincidir a verdade com ofactível. Mas, quando o único critério da verdade é a eficiência e autilidade, o desenvolvimento acaba automaticamente negado. De facto, overdadeiro desenvolvimento não consiste primariamente no fazer; a chavedo desenvolvimento é uma inteligência capaz de pensar a técnica e deindividualizar o sentido plenamente humano do agir do homem, nohorizonte de sentido da pessoa vista na globalidade do seu ser. Mesmoquando actua mediante um satélite ou um comando electrónico àdistância, o seu agir continua sempre humano, expressão de umaliberdade responsável. A técnica seduz intensamente o homem, porque olivra das limitações físicas e alarga o seu horizonte. Mas a liberdadehumana só o é propriamente quando responde à sedução da técnica comdecisões que sejam fruto de responsabilidade moral. Daqui, a urgênciade uma formação para a responsabilidade ética no uso da técnica. Apartir do fascínio que a técnica exerce sobre o ser humano, deve-serecuperar o verdadeiro sentido da liberdade, que não consiste noinebriamento de uma autonomia total, mas na resposta ao apelo do ser, acomeçar pelo ser que somos nós mesmos.

71. Esta possibilidade da mentalidade técnica se desviar do seuoriginário álveo humanista ressalta, hoje, nos fenómenos datecnicização do desenvolvimento e da paz. Frequentemente odesenvolvimento dos povos é considerado um problema de engenhariafinanceira, de abertura dos mercados, de redução das tarifasaduaneiras, de investimentos produtivos, de reformas institucionais; emsuma, um problema apenas técnico. Todos estes âmbitos são muitoimportantes, mas não podemos deixar de interrogar-nos por que motivo,até agora, as opções de tipo técnico tenham resultado apenas de modorelativo. A razão há-de ser procurada mais profundamente. Odesenvolvimento não será jamais garantido completamente por forças decerto modo automáticas e impessoais, sejam elas as do mercado ou as dapolítica internacional. O desenvolvimento é impossível sem homensrectos, sem operadores económicos e homens políticos que sintamintensamente em suas consciências o apelo do bem comum. São necessáriastanto a preparação profissional como a coerência moral. Quandoprevalece a absolutização da técnica, verifica-se uma confusão entrefins e meios: como único critério de acção, o empresário considerará omáximo lucro da produção; o político, a consolidação do poder; ocientista, o resultado das suas descobertas. Deste modo sucedefrequentemente que, sob a rede das relações económicas, financeiras oupolíticas, persistem incompreensões, contrariedades e injustiças; osfluxos dos conhecimentos técnicos multiplicam-se, mas em benefício dosseus proprietários, enquanto a situação real das populações que vivemsob tais influxos, e quase sempre na sua ignorância, permanece imutávele sem efectivas possibilidades de emancipação.

72. Às vezes, também a paz corre o risco de ser considerada como umaprodução técnica, fruto apenas de acordos entre governos ou deiniciativas tendentes a assegurar ajudas económicas eficientes. Éverdade que a construção da paz exige um constante tecimento decontactos diplomáticos, intercâmbios económicos e tecnológicos,encontros culturais, acordos sobre projectos comuns, e também aassunção de empenhos compartilhados para conter as ameaças de tipobélico e cercear à nascença eventuais tentações terroristas. Mas, paraque tais esforços possam produzir efeitos duradouros, é necessário quese apoiem sobre valores radicados na verdade da vida. Por outraspalavras, é preciso ouvir a voz das populações interessadas e atender àsituação delas para interpretar adequadamente os seus anseios. De certomodo, deve-se colocar em continuidade com o esforço anónimo de tantaspessoas decididamente comprometidas a promover o encontro entre ospovos e a favorecer o desenvolvimento partindo do amor e da compreensãorecíproca. Entre tais pessoas, contam-se também fiéis cristãos,empenhados na grande tarefa de dar ao desenvolvimento e à paz umsentido plenamente humano.

73. Ligada ao desenvolvimento tecnológico está a crescente presençados meios de comunicação social. Já é quase impossível imaginar aexistência da família humana sem eles. No bem e no mal, estão de talmodo encarnados na vida do mundo, que parece verdadeiramente absurda aposição de quantos defendem a sua neutralidade, reivindicando emconsequência a sua autonomia relativamente à moral que diria respeitoàs pessoas. Muitas vezes tais perspectivas, que enfatizam a naturezaestritamente técnica dos mass-media, de facto favorecem a suasubordinação a cálculos económicos, ao intuito de dominar os mercadose, não último, ao desejo de impor parâmetros culturais em função deprojectos de poder ideológico e político. Dada a importânciafundamental que têm na determinação de alterações no modo de ler econhecer a realidade e a própria pessoa humana, torna-se necessária umaatenta reflexão sobre a sua influência principalmente na dimensãoético-cultural da globalização e do desenvolvimento solidário dospovos. Como requerido por uma correcta gestão da globalização e dodesenvolvimento, o sentido e a finalidade dos mass-media devem serbuscados no fundamento antropológico. Isto quer dizer que os mesmospodem tornar-se ocasião de humanização, não só quando, graças aodesenvolvimento tecnológico, oferecem maiores possibilidades decomunicação e de informação, mas também e sobretudo quando sãoorganizados e orientados à luz de uma imagem da pessoa e do bem comumque traduza os seus valores universais. Os meios de comunicação socialnão favorecem a liberdade nem globalizam o desenvolvimento e ademocracia para todos, simplesmente porque multiplicam aspossibilidades de interligação e circulação das ideias; para alcançartais objectivos, é preciso que estejam centrados na promoção dadignidade das pessoas e dos povos, animados expressamente pela caridadee colocados ao serviço da verdade, do bem e da fraternidade natural esobrenatural. De facto, na humanidade, a liberdade está intrinsecamenteligada a estes valores superiores. Os mass-media podem constituir umaválida ajuda para fazer crescer a comunhão da família humana e o ethosdas sociedades, quando se tornam instrumentos de promoção daparticipação universal na busca comum daquilo que é justo.

74. Hoje, um campo primário e crucial da luta cultural entre oabsolutismo da técnica e a responsabilidade moral do homem é o dabioética, onde se joga radicalmente a própria possibilidade de umdesenvolvimento humano integral. Trata-se de um âmbito delicadíssimo edecisivo, onde irrompe, com dramática intensidade, a questãofundamental de saber se o homem se produziu por si mesmo ou depende deDeus. As descobertas científicas neste campo e as possibilidades deintervenção técnica parecem tão avançadas que impõem a escolha entreestas duas concepções: a da razão aberta à transcendência ou a da razãofechada na imanência. Está-se perante uma opção decisiva. No entanto aconcepção racional da tecnologia centrada sobre si mesma apresenta-secomo irracional, porque implica uma decidida rejeição do sentido e dovalor. Não é por acaso que a posição fechada à transcendência sedefronta com a dificuldade de pensar como tenha sido possível do nadater brotado o ser e do acaso ter nascido a inteligência[153]. Face aestes dramáticos problemas, razão e fé ajudam-se mutuamente; e sóconjuntamente salvarão o homem: fascinada pela pura tecnologia, a razãosem a fé está destinada a perder-se na ilusão da própria omnipotência,enquanto a fé sem a razão corre o risco do alheamento da vida concretadas pessoas[154].

75. Paulo VI já tinha reconhecido e indicado o horizonte mundial daquestão social[155]. Prosseguindo por esta estrada, é preciso afirmarque hoje a questão social tornou-se radicalmente antropológica,enquanto toca o próprio modo não só de conceber mas também de manipulara vida, colocada cada vez mais nas mãos do homem pelas biotecnologias.A fecundação in vitro, a pesquisa sobre os embriões, a possibilidade daclonagem e hibridação humana nascem e promovem-se na actual cultura dodesencanto total, que pensa ter desvendado todos os mistérios porque jáse chegou à raiz da vida. Aqui o absolutismo da técnica encontra a suamáxima expressão. Em tal cultura, a consciência é chamada apenas aregistar uma mera possibilidade técnica. Contudo não se pode minimizaros cenários inquietantes para o futuro do homem e os novos e poderososinstrumentos que a « cultura da morte » tem à sua disposição. À difusae trágica chaga do aborto poder-se-ia juntar no futuro — emborasub-repticiamente já esteja presente in nuce — uma sistemáticaplanificação eugenética dos nascimentos. No extremo oposto, vai abrindocaminho uma mens eutanasica, manifestação não menos abusiva de domíniosobre a vida, que é considerada, em certas condições, como não digna deser vivida. Por detrás destes cenários encontram-se posições culturaisnegacionistas da dignidade humana. Por sua vez, estas práticas estãodestinadas a alimentar uma concepção material e mecanicista da vidahumana. Quem poderá medir os efeitos negativos de tal mentalidade sobreo desenvolvimento? Como poderá alguém maravilhar-se com a indiferençadiante de situações humanas de degradação, quando se comportaindiferentemente com o que é humano e com aquilo que não o é? Maravilhaa selecção arbitrária do que hoje é proposto como digno de respeito:muitos, prontos a escandalizar-se por coisas marginais, parecem tolerarinjustiças inauditas. Enquanto os pobres do mundo batem às portas daopulência, o mundo rico corre o risco de deixar de ouvir tais apelos àsua porta por causa de uma consciência já incapaz de reconhecer ohumano. Deus revela o homem ao homem; a razão e a fé colaboram para lhemostrar o bem, desde que o queira ver; a lei natural, na qual reluz aRazão criadora, indica a grandeza do homem, mas também a sua misériaquando ele desconhece o apelo da verdade moral.

76. Um dos aspectos do espírito tecnicista moderno é palpável napropensão a considerar os problemas e as moções ligados à vida interiorsomente do ponto de vista psicológico, chegando-se mesmo aoreducionismo neurológico. Assim esvazia-se a interioridade do homem e,progressivamente, vai-se perdendo a noção da consistência ontológica daalma humana, com as profundidades que os Santos souberam pôr adescoberto. O problema do desenvolvimento está estritamente ligadotambém com a nossa concepção da alma do homem, uma vez que o nosso euacaba muitas vezes reduzido ao psíquico, e a saúde da alma é confundidacom o bem-estar emotivo. Na base, estas reduções têm uma profundaincompreensão da vida espiritual e levam-nos a ignorar que odesenvolvimento do homem e dos povos depende verdadeiramente também dasolução dos problemas de carácter espiritual. Além do crescimentomaterial, o desenvolvimento deve incluir o espiritual, porque a pessoahumana é « um ser uno, composto de alma e corpo »[156], nascido do amorcriador de Deus e destinado a viver eternamente. O ser humanodesenvolve-se quando cresce no espírito, quando a sua alma se conhece asi mesma e apreende as verdades que Deus nela imprimiu em gérmen,quando dialoga consigo mesma e com o seu Criador. Longe de Deus, ohomem vive inquieto e está mal. A alienação social e psicológica e asinúmeras neuroses que caracterizam as sociedades opulentas devem-setambém a causas de ordem espiritual. Uma sociedade do bem-estar,materialmente desenvolvida mas oprimente para a alma, de per si nãoestá orientada para o autêntico desenvolvimento. As novas formas deescravidão da droga e o desespero em que caiem tantas pessoas têm umaexplicação não só sociológica e psicológica, mas essencialmenteespiritual. O vazio em que a alma se sente abandonada, embora no meiode tantas terapias para o corpo e para o psíquico, gera sofrimento. Nãohá desenvolvimento pleno nem bem comum universal sem o bem espiritual emoral das pessoas, consideradas na sua totalidade de alma e corpo.

77. O absolutismo da técnica tende a produzir uma incapacidade deperceber aquilo que não se explica meramente pela matéria; e, noentanto, todos os homens experimentam os numerosos aspectos imateriaise espirituais da sua vida. Conhecer não é um acto apenas material,porque o conhecido esconde sempre algo que está para além do dadoempírico. Todo o nosso conhecimento, mesmo o mais simples, é sempre umpequeno prodígio, porque nunca se explica completamente com osinstrumentos materiais que utilizamos. Em cada verdade, há sempre maisdo que nós mesmos teríamos esperado; no amor que recebemos, há semprequalquer coisa que nos surpreende. Não deveremos cessar jamais demaravilhar-nos diante destes prodígios. Em cada conhecimento e em cadaacto de amor, a alma do homem experimenta um « extra » que se assemelhamuito a um dom recebido, a uma altura para a qual nos sentimosatraídos. Também o desenvolvimento do homem e dos povos se coloca a umatal altura, se considerarmos a dimensão espiritual que devenecessariamente conotar aquele para que possa ser autêntico. Esterequer olhos novos e um coração novo, capaz de superar a visãomaterialista dos acontecimentos humanos e entrever no desenvolvimentoum « mais além » que a técnica não pode dar. Por este caminho, serápossível perseguir aquele desenvolvimento humano integral que tem o seucritério orientador na força propulsora da caridade na verdade.

CONCLUSÃO

78. Sem Deus, o homem não sabe para onde ir e não consegue sequercompreender quem seja. Perante os enormes problemas do desenvolvimentodos povos que quase nos levam ao desânimo e à rendição, vem em nossoauxílio a palavra do Senhor Jesus Cristo que nos torna cientes destedado fundamental: « Sem Mim, nada podeis fazer » (Jo 15, 5), eencoraja: « Eu estarei sempre convosco, até ao fim do mundo » (Mt 28,20). Diante da vastidão do trabalho a realizar, somos apoiados pela féna presença de Deus junto daqueles que se unem no seu nome e trabalhampela justiça. Paulo VI recordou-nos, na Populorum progressio, que ohomem não é capaz de gerir sozinho o próprio progresso, porque não podepor si mesmo fundar um verdadeiro humanismo. Somente se pensarmos quesomos chamados, enquanto indivíduos e comunidade, a fazer parte dafamília de Deus como seus filhos, é que seremos capazes de produzir umnovo pensamento e exprimir novas energias ao serviço de um verdadeirohumanismo integral. Por isso, a maior força ao serviço dodesenvolvimento é um humanismo cristão [157] que reavive a caridade eque se deixe guiar pela verdade, acolhendo uma e outra como dompermanente de Deus. A disponibilidade para Deus abre à disponibilidadepara os irmãos e para uma vida entendida como tarefa solidária ejubilosa. Pelo contrário, a reclusão ideológica a Deus e o ateísmo daindiferença, que esquecem o Criador e correm o risco de esquecer tambémos valores humanos, contam-se hoje entre os maiores obstáculos aodesenvolvimento. O humanismo que exclui Deus é um humanismo desumano.Só um humanismo aberto ao Absoluto pode guiar-nos na promoção erealização de formas de vida social e civil — no âmbito das estruturas,das instituições, da cultura, do ethos — preservando-nos do risco decairmos prisioneiros das modas do momento. É a consciência do Amorindestrutível de Deus que nos sustenta no fadigoso e exaltantecompromisso a favor da justiça, do desenvolvimento dos povos, por entreêxitos e fracassos, na busca incessante de ordenamentos rectos para asrealidades humanas. O amor de Deus chama-nos a sair daquilo que élimitado e não definitivo, dá-nos coragem de agir continuando aprocurar o bem de todos, ainda que não se realize imediatamente eaquilo que conseguimos actuar — nós e as autoridades políticas e osoperadores económicos — seja sempre menos de quanto anelamos[158]. Deusdá-nos a força de lutar e sofrer por amor do bem comum, porque Ele é onosso Tudo, a nossa esperança maior.

79. O desenvolvimento tem necessidade de cristãos com os braçoslevantados para Deus em atitude de oração, cristãos movidos pelaconsciência de que o amor cheio de verdade — caritas in veritate –, doqual procede o desenvolvimento autêntico, não o produzimos nós, masé-nos dado. Por isso, inclusive nos momentos mais difíceis e complexos,além de reagir conscientemente devemos sobretudo referir-nos ao seuamor. O desenvolvimento implica atenção à vida espiritual, uma sériaconsideração das experiências de confiança em Deus, de fraternidadeespiritual em Cristo, de entrega à providência e à misericórdia divina,de amor e de perdão, de renúncia a si mesmos, de acolhimento dopróximo, de justiça e de paz. Tudo isto é indispensável paratransformar os « corações de pedra » em « corações de carne » (Ez 36,26), para tornar « divina » e consequentemente mais digna do homem avida sobre a terra. Tudo isto é do homem, porque o homem é sujeito daprópria existência; e ao mesmo tempo é de Deus, porque Deus está noprincípio e no fim de tudo aquilo que tem valor e redime: « quer omundo, quer a vida, quer a morte, quer o presente, quer o futuro, tudoé vosso; mas vós sois de Cristo, e Cristo é de Deus » (1 Cor 3, 22-23).A ânsia do cristão é que toda a família humana possa invocar a Deuscomo o « Pai nosso ». Juntamente com o Filho unigénito, possam todos oshomens aprender a rezar ao Pai e a pedir-Lhe, com as palavras que opróprio Jesus nos ensinou, para sabê-Lo santificar vivendo segundo asua vontade, e depois ter o pão necessário para cada dia, a compreensãoe a generosidade com quem nos ofendeu, não ser postos à prova além dassuas forças e ver-se livres do mal (cf. Mt 6, 9-13).

No final do Ano Paulino, apraz-me formular os seguintes votos compalavras do Apóstolo tiradas da sua Carta aos Romanos: « Que a vossacaridade seja sincera, aborrecendo o mal e aderindo ao bem. Amai-vosuns aos outros com amor fraternal, adiantando-vos em honrar uns aosoutros » (12, 9-10). Que a Virgem Maria, proclamada por Paulo VI MaterEcclesiæ e honrada pelo povo cristão como Speculum Iustitiæ e ReginaPacis, nos proteja e obtenha, com a sua intercessão celeste, a força, aesperança e a alegria necessárias para continuarmos a dedicar-nos comgenerosidade ao compromisso de realizar o « desenvolvimento integral dohomem todo e de todos os homens »[159].

Dado em Roma, junto de São Pedro, no dia 29 de Junho — Solenidadedos Santos Apóstolos Pedro e Paulo — do ano 2009, quinto do meuPontificado.

BENEDICTUS PP. XVI

VEJA TAMBÉM:

» Introdução
» Capítulo I
» Capítulo II
» Capítulo III
» Capítulo IV
» Capítulo V
» Capítulo VI e conclusão

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[150] Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio (26 de Março de1967), 41: AAS 59 (1967), 277-278; cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const.past. sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, 57.

[151] Cf. João Paulo II, Carta enc. Laborem exercens (14 de Setembro de 1981), 5: AAS 73 (1981), 586-589.

[152] Cf. Paulo VI, Carta ap. Octogesima adveniens (14 de Maio de 1971), 29: AAS 63 (1971), 420.

[153] Cf. Bento XVI, Discurso aos participantes no IV CongressoEclesial Nacional da Igreja que está em Itália (19 de Outubro de 2006):Insegnamenti II/2 (2006), 465-477; Homilia da Santa Missa no « IslingerFeld » di Regensburg (12 de Setembro de 2006): Insegnamenti II/2(2006), 252-256.

[154] Cf. Congr. da Doutrina da Fé, Instr. sobre algumas questões debioética Dignitas personae (8 de Setembro de 2008): AAS 100 (2008),858-887.

[155] Cf. Carta enc. Populorum progressio (26 de Março de 1967), 3: AAS 59 (1967), 258.

[156] Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, 14.

[157] Cf. n. 42: AAS 59 (1967), 278.

[158] Cf. Bento XVI, Carta enc. Spe salvi (30 de Novembro de 2007), 35: AAS 99 (2007), 1013-1014.

[159] Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio (26 de Março de 1967), 42: AAS 59 (1967), 278.

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