O amor de Deus me encontrou. Essa é a grande verdade, a única capaz de sustentar a nossa vida. Antes que eu pudesse pronunciar Seu nome, Ele já me amava; antes que eu o buscasse, Ele já me havia encontrado.
“Nós amamos porque Ele nos amou primeiro.” (1Jo 4,19)
O Amor de Deus não é um conceito nem um sentimento passageiro — é uma Presença que se aproxima, desce à nossa humanidade e habita a nossa fragilidade. No ponto mais pobre da nossa história, quando tudo parecia perdido, ali Ele se revelou.
“Cristo revela plenamente o homem ao próprio homem e lhe descobre a sua altíssima vocação.” (Concílio Vaticano II, Gaudium et Spes, 22)
Ser encontrado por esse Amor muda tudo
Ele nos devolve o olhar sobre nós mesmos. Quando me descubro amado, percebo que posso me amar também — não com orgulho ou vaidade, mas com a justa estima que nasce da consciência de que sou obra de Deus.
A autocompaixão cristã não é indulgência nem fuga da verdade; é o ato de olhar para si com o mesmo olhar com que Deus me olha. É reconhecer as minhas limitações sem as desprezar, permitindo que a graça transforme aquilo que sozinho não consigo mudar.
“Cada ser humano é querido por Deus, cada um é amado, cada um é necessário.” (Bento XVI, Caritas in Veritate, 78)
A falta de amor por si mesmo é uma ferida que toca o coração da fé
Quem não se acolhe, dificilmente acolherá o outro — e, com o tempo, também começa a desconfiar do amor de Deus. Por isso, o mandamento do amor é uno:
“Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração… e amarás o teu próximo como a ti mesmo.” (Mt 22,37-39)
Há uma harmonia entre esses três amores: a Deus, ao próximo e a nós mesmos. Quando um deles se rompe, todos se desequilibram. Deus não quer que nos desprezemos, mas que nos vejamos como Ele nos vê — pequenos, mas preciosos; limitados, mas redimidos.
O desprezo de si mesmo, disfarçado de humildade, é uma forma sutil de incredulidade. É como dizer a Deus: “O que criaste em mim não é bom o suficiente”. Já o amor equilibrado por si é um ato de fé — acreditar que o que o Criador fez em mim é bom e digno de ser cuidado.
“O homem, que é a única criatura sobre a terra que Deus quis por si mesma, não pode encontrar a sua própria plenitude senão na entrega sincera de si mesmo.” (Concílio Vaticano II, Gaudium et Spes, 24)
Deixar-se amar é o primeiro passo da conversão
O amor de Deus é compassivo, não exige perfeição, mas verdade. Ele não se escandaliza das nossas feridas, mas entra nelas com ternura. Quando me deixo encontrar por esse Amor, descubro que não há separação entre amar a Deus, amar o outro e amar a mim mesmo. Tudo é um único movimento, que começa em Deus e volta para Ele.
Assim, o caminho espiritual se torna uma jornada de reconciliação interior. À medida que me deixo amar, também aprendo a amar. O Amor me encontrou — e agora me chama a ser reflexo desse mesmo Amor no mundo.
Por Noor Gonzalez
Shalom, Comunidade vida – Missão Fortaleza