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Enfermidade, sofrimento, mal

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Onze de fevereiro, dia mundial do enfermo, dia de contemplar, com silencioso respeito, o mistério da cruz de Cristo que envolve cada doente em todo o planeta. Ao instituir este dia, em 13 de maio de 1992, João Paulo II faz uma surpreendente declaração:

“A celebração anual da Jornada mundial do enfermo tem, portanto, como objetivo manifesto, sensibilizar o povo de Deus e, por conseguinte, as várias instituições sanitárias católicas e a sociedade civil, ante a necessidade de assegurar a melhor assistência possível aos enfermos; ajudar o enfermo a valorizar o sofrimento, no plano humano e sobretudo no plano sobrenatural.”

Ajudar o enfermo a valorizar o sofrimento no plano humano e sobretudo no plano espiritual! Que mistério! Que revolução nos nossos conceitos materialistas, imediatistas, hedonistas!

Em geral, quando nos deparamos com o sofrimento de alguém, especialmente de um enfermo, nossa reação é dizer algo como: “Calma, logo vai passar!” Dificilmente temos a coragem de dizer: “Aproveite este momento de sua vida. Ele é precioso. Valorize-o. Humanamente, vai fazer você crescer, amadurecer, encontrar seu verdadeiro valor, que não está naquilo que você faz, mas no que você é”.

Apesar de nos faltar a coragem de dizer isso, todos sabemos que é a pura verdade: o sofrimento esconde um verdadeiro tesouro de maturação em nossa humanidade. A dor do outro, a compaixão por ele, porém, nos dão a impressão de que dizer algo deste tipo irá beirar os limites da crueldade.

E quanto ao valor espiritual do sofrimento, que o Santo Padre nos convida a descobrir como nos relacionamos com ele. A nós nos parece ser mais adequado dizer, especialmente a um enfermo: “Sei que você vai sair dessa” do que “Aproveite este momento de união a Cristo crucificado. Participe, por este seu sofrimento, da graça da redenção. É momento privilegiado para interceder por todos os homens”.

Esta dificuldade ocorre porque associamos “sofrimento” e “mal”. O sofrimento, porém, não é um mal! Sobre isso nos ensina o Santo Padre no documento Salvifici Doloris:

“Pode-se dizer que o homem sofre, quando ele experimenta um mal qualquer. A relação entre sofrimento e mal, no vocabulário do Antigo Testamento, é posta em evidência como identidade. Com efeito, este vocabulário não possuía uma palavra específica para designar o «sofrimento»; por isso, definia como «mal» tudo aquilo que era sofrimento». Somente a língua grega — e, conjuntamente, o Novo Testamento (e as versões gregas do Antigo) — se serve do verbo «ser afetado por…, experimento uma sensação, sofro»; e graças a este termo o sofrimento já não é diretamente identificável com o mal (objetivo), mas exprime uma situação na qual o homem sente o mal e, sentindo-o, torna-se sujeito de sofrimento. Este, de fato, possui ao mesmo tempo caráter ativo e passivo (de «patior»). Mesmo quando o homem se provoca por si próprio um sofrimento, quando é autor do mesmo, esse sofrimento permanece como algo passivo na sua essência metafísica.”

Como se vê, sofrimento e mal não são identificáveis. Também neste ponto, Viktor Frankl, fundador da logoterapia, identifica-se com o pensamento da Igreja ao falar do homo patiens e encontrar nele o sentido misterioso do sofrimento.

Um exemplo, sabemos, vale mil palavras. Trago, então, mais que um exemplo. Trago um testemunho impressionante de uma religiosa que descobriu na enfermidade o sentido e o valor do sofrimento unido ao sofrimento redentor de Cristo.

Eu a visitava a cada semana no hospital. A pedido de suas irmãs de congregação, orava pela sua cura. A cada semana, eu ficava mais convencida de que os planos de Deus para ela eram bem diferentes. Não tinha, porém, coragem de dizer-lhe, até que um dia uma outra irmã, sempre presente no apartamento, saiu por algum motivo. Tive, então, a graça de viver uma das cenas mais belas de minha vida.

Ao perceber que a irmã havia saído do quarto, abri os olhos, ainda com as mãos sobre o braço da irmã enferma e nossos olhares se encontraram. Sorrimos uma para a outra, partilhando o mesmo segredo jamais revelado por respeito à outra irmã. Ao vermos que nos entendíamos, limitei-me a dizer, antes da entrada da outra freira: “Irmã, muito obrigada pela oferta de seu sofrimento unido ao de Cristo”. O sorriso que lhe serviu de resposta confirmou a palavra de sabedoria.

Passaram-se ainda umas duas semanas, até o dia em que ela pediu que a outra irmã nos deixasse a sós. Sorrimos, novamente, no nosso segredo e entendi que era a última vez que a viria. Disse-lhe, então: “Quando vir Jesus, dê um beijo nele por mim.” Ela ergueu o polegar e sorriu. Dois dias depois, Jesus ganhou meu beijo.

Encontrei caso muito semelhante em uma jovem, amiga de Santa Teresinha, irmã de um membro da nossa comunidade, acometida de leucemia. Além deste caso, encontrei vários outros e estou convencida de que, na perfeitíssima sabedoria de Deus, ele, de fato, pede muito aos que ele muito ama, como diz Santa Teresa. Estes filhos privilegiados ensinam-nos a todos e, especialmente, aos enfermos que o segredo do sentido do sofrimento, como, ademais, de tudo na vida, é transformá-lo em amor.

Maria Emmir Oquendo Nogueira

Form Ago 2008


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