Lei é um sistema de regras que são criadas e executadas por meio de instituições sociais ou governamentais para regular comportamentos e condutas em vista de um bom convívio social. Mas existe Lei para quem vive no amor? Se o mesmo amor é sua norma de vida, como então condenar alguém que só faz o bem? Assim, foi com o primeiro mártir da Igreja, no entanto, o Deus era com Estevão.
Foi condenado sem razões concretas, por causa do orgulho e inveja das autoridades da época, por ciúmes dos sinais e prodígios operados por Deus através dele e que atraíam a muitos para o seguimento cristão. Foram questionar algo inquestionável, porque contra fatos não há argumentos, mas Deus era com Estevão.
Uma coisa chama a atenção: a narração anterior ao capítulo do confronto. É narrado um Pentecostes, uma epifania vista por milhares de pessoas, milagres realizados no Templo e em vários lugares… Os Apóstolos eram extremamente conhecidos e, por consequência, sua mensagem também… numa continuação da Crucifixão de Jesus… o que é pregado pelo primeiro mártir não era novidade para ninguém…
Cristo tinha morrido há pouco tempo, muitos ali tinham visto o próprio Jesus pregando, ou seja, por que a discussão? Por que justamente ele? Será que era porque Deus era com Estevão? Ele não era o propagador principal. Existiam pessoas pregando o Evangelho em toda Jerusalém. Se fosse realmente só uma disputa teológica, deveria ter sido travada com Pedro ou outro dos Apóstolos.
Seria muito mais lógico falar com os coordenadores do novo movimento que surgia do que com alguém que só transmitia o que ouvia dos dirigentes desse novo Caminho, mas os Doze talvez fossem muito admirados, famosos, era perigoso se opor a eles diretamente pois o povo poderia defendê-los, até os guardas dos fariseus temiam isso.
Quem era Estevão?
Talvez, um mero empregado que aparentemente só “servia as mesas” das viúvas, um desconhecido, talvez um homem de classe menos privilegiada, sem instrução. Não deveria ser difícil derrotá-lo, mas o problema não estava em quem era Estevão, se ele era menor ou maior, humanamente falando, que os apóstolos, mas sim o Espírito Santo, enviado pelo Ressuscitado e que o inspirava, por isso, nem todos os sábios do mundo poderiam argumentar contra o próprio Espírito de Deus, que era com Estevão.
Ao confrontá-lo publicamente, os adversários foram humilhados pela Sabedoria das palavras inspiradas de Estevão, ficaram sem resposta diante de várias pessoas, seu orgulho foi ferido na frente do povo. O que fazer, então? Não podiam passar por uma situação vexatória dessas. Mas, como vencer, se todos os seus argumentos caíram por terra? A violência e a deslealdade foram as armas para se vingar da derrota pública sofrida. Só havia um jeito: usar mentiras, criar boatos, fake news, convencer, através do engano, para que o crescimento da mentira superasse a realidade inegável: Deus era em Estevão.
Todos viram o milagre
Ao prender o diácono, impediam-no de praticar o bem que fazia a todos, e o calavam, deixando o terreno livre para espalharem as mais terríveis inverdades, tentando apagar da memória o bem que havia feito. Porém, mesmo em meio a um furacão de fatos que nunca existiram, o Senhor testemunha em seu favor, tornando o seu rosto igual ao de um anjo, mostrando que Deus era com Estevão.
Todos viram o milagre, o povo, as autoridades, os acusadores… e mesmo diante de tal sinal, endureceram mais ainda o coração e fecharam seus olhos para uma inocência evidente, atestada pelo próprio Deus. Talvez muitos dos que condenavam o primeiro mártir tivessem sido beneficiados com algum milagre, alguma cura em si mesmo ou em membros da própria família, mas o ódio e as falsas notícias os cegaram de uma maneira que nem um sinal do Céu os fez enxergar que condenavam um inocente, contudo, Deus era em Estevão.
O discurso final
No seu discurso final, o acusado já sabia que iria morrer, condenado pela inveja enfeitada com mentiras. Mesmo assim, em suas palavras, ele mostra a história da Salvação para aqueles homens, não numa tentativa de escapar da morte, mas num esforço final de levar luz àqueles corações dominados pelas trevas, ainda que ciente de que sua hora chegara, provando mais ainda que Deus era em Estevão.
O ápice da grandeza do coração desse homem se deu nos seus instantes finais. Vendo que o engano dos seus irmãos poderia ser causa de condenação para eles, no seu último suspiro, roga por aqueles que o apedrejavam, lembrando claramente as palavras do seu amado Jesus, que ensinava a seus discípulos: “Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem” (cf. Mt 5, 44), ou seria a recordação do momento da Cruz, quando rogava por aqueles que o assassinavam?
Como é que se reza por quem nos mata? É um mistério imenso… a razão não chega, só uma fé mais sólida que uma montanha, uma esperança mais firme que os céus, e um amor, que ama como Deus ama, é capaz de explicar essa atitude de misericórdia. Deus era com Estevão.
Quantos Estevãos eu matei?
Quantos eu matei por inveja, por ciúme, por se apossarem de um brilho que eu pensava ser só meu, não era nem de Deus? Quantos defeitos apontei? Quantas histórias sem fundamento, ou acusações sem pé nem cabeça eu fiz para destruir a fama de algum dos meus irmãos? Quantas vezes quis angariar adeptos para difamar alguém?
Quantas vezes me fiz de cego e surdo diante da minha consciência e dei ouvidos às feridas da minha autoestima? Quantas mentiras contei a mim mesmo em busca de uma falsa razão para apedrejar meus irmãos? Quantas vezes eu vi um anjo e chamei de demônio para não admitir que a face do mal era a minha? Quantos Estevãos eu matei porque eu não era com Deus?
A descrição dessa primeira morte pelo livro dos Atos dos Apóstolos não é só um relato de um martírio, é uma sinfonia, com árias fortíssimas, monumentais, belas, profundas, transcendentes… o acusado que foi visto como um anjo, que tenta salvar os que o acusam pela pregação, e ainda assim é condenado. Ele luta para salvar quem o quer destruir, ele quer vê-los com ele no Céu. Isso não é normal, não é natural, pois o instinto de sobrevivência tende a fugir ou a combater quem nos combate, mas o que vemos é alguém que procura ajudar quem o fere, porque Deus era com Estevão.
Deus era com e era em Estevão
O final dessa narração é surpreendente, uma obra-prima de um discípulo que entendeu perfeitamente que não era maior que seu mestre, e como um bom aluno, colocou em prática tudo que viu e ouviu. Vendo sua Páscoa chegando, consegue ainda se esforçar para salvar, insistindo, nas derradeiras forças, para que Deus perdoe aqueles que o matam, não levando em conta aquela atitude, como Cristo na Cruz.
Ele não nega o ato, mas crê na misericórdia de Deus que é capaz até de perdoar um crime inegável. Será que ele se recordou do Pai Nosso? Lembrou da crucifixão de Cristo orando pelos seus algozes? Não sabemos. O que sabemos é que é sobre-humano rezar por quem nos persegue. É necessário uma humildade muito grande e uma graça indescritível. Que honra foi dada a esse homem, de assemelhar-se a Cristo até no perdão dos inimigos? Deus era com e era em Estevão.
Por Uerlley Soares
