Institucional

Entre livros, palavras e corações com memórias

 

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Jesus foi a Nazaré, onde havia sido criado, e no dia de  sábado entrou na sinagoga, como era seu costume. E levantou-se para ler. Foi-lhe entregue o livro do profeta Isaías. (Evangelho de Lucas, Cap. 4, vv 16-17)
Moisés, nosso Mestre, decretara para o povo de Israel que leia-se a Torá em público nos dias de shabat, nas segundas e nas quintas, para que não permaneçam sem ouvir a Torá por três dias seguidos. (Mishné Torá, cap. 12, v 1)
Eis o livro que é indubitavelmente a orientação dos tementes a Deus. (Alcorão, Sura 2, Versículo 2)

O que tem em comum a Torá Judaica, o Evangelho Cristão e o Alcorão Muçulmano? Antes mesmo que o leitor se debruce em complexas elaborações teológicas para aproximar estas três tradições religiosas monoteístas, já gostaria de trazer de forma clara e objetiva uma resposta. Uma resposta dividida em duas partes: Em primeiro lugar, todos os três são livros. E, em segundo lugar, como bons e especiais livros, exigem para si mesmos uma pluralidade de leitores que possam fruir neles não apenas uma grande quantidade de informações, mas, sobretudo, diferentes sentidos e significados da existência humana.

Em sociedades em que a escrita tem ou teve alguma importância ao longo da História, os livros sempre exerceram fascínio entre os seres humanos. Portadores de mensagens divinas, mensageiros de informações científicas consideradas importantes ou anunciadores de prazeres estéticos a quem se aventure por suas páginas, os livros são, ao mesmo tempo, objeto de desejo, de cumplicidade e até mesmo, de medo.

Definitivamente, há uma relação de fascínio dos seres humanos para com os livros. Um livro pode representar a autoridade de séculos de uma tradição filosófica e religiosa, mas também pode ser indício de contradições e debates. Pode conter mensagens apaziguadoras das consciências ou serem canais de enfrentamento de debates ou de resistências políticas mais amplas.

Regimes autoritários temem os livros que possam conter aquilo a que tanto eles próprios evitam: o contraditório, a reflexão e tudo aquilo que possa fugir aos esquemas pequenos e rígidos das lógicas de poder dominadoras. Livros são perigosos e, ao mesmo tempo, sempre expostos ao perigo, quando se tornam sagrados, como a Bíblia e o Alcorão, de interpretações descontextualizadas, atiçando fundamentalismos, fanatismos e até mesmo a destruição de quem pensa diferente.

Mas livros não são meros instrumentos para que, neles, apenas, se interponha algo escrito. Os livros, em si mesmo, são seres vivos. Companheiros de viagem, cumplices de nossos pensamentos, ampliadores das profundezas de nossas almas, há algo nos livros que os aproximam da vida humana: não passam impunes pela nossa própria existência.

Um “bom” livro é como um crime ou um caso de amor: não nos deixa impune. Como não dialogar com seres inquietantes como um Dom Quixote de Cervantes, os inúmeros personagens de Dostoievsky ou, ainda, como não se incomodar diante das suspeitas (in)fundadas que Bentinho levanta sobre Capitú, em Dom Casmurro?

Mas também há os livros científicos e técnicos, aqueles usados quando queremos refletir sobre um problema ou adquirir uma informação. Nossos olhos deslizam por sumários e tópicos, buscando aquilo que nos interessa. Mas não poderíamos perguntar a alguém a título de provocação, se bastaria apenas, utilizar para pesquisa, os mecanismos de busca da internet (afinal de contas disponíveis apenas com um toque na tela de nossos celulares high tech)?

Sim, poderíamos…, mas o que poderia substituir o gosto pelo desvendar com os dedos das páginas que, viradas, expelem odores que denunciam a antiguidade do livro? Ou ainda, em tempo de informações cambiáveis e em avançado estado de putrefação cognitiva, como não valorizar a intocabilidade da informação “presa” ali, imutavelmente, às páginas do livro?

patocratorNão consigo ver, caro leitor (por mais que alguns defendem a inevitabilidade dos meios digitais para o acesso do conhecimento), no episódio evangélico da epígrafe, Jesus acessando um tablet para conferir o versículo de Isaías que leria na sinagoga de Nazaré. As palavras dos livros, especialmente quando pretendem revelar aquela Palavra maior, fonte e origem da vida na perspectiva da fé cristã, não podem prescindir da solenidade que lhes é própria.

O acesso ao livro é um ato solene posto que é do diálogo entre livro e leitor, que nasce o conhecimento, o sonho, a reinvenção da vida e, numa perspectiva cristã, o próprio projeto de salvação que, na perspectiva da fé cristã, é o próprio Cristo Jesus.

Não à toa que, nas imagens do Oriente Cristão, Jesus apareça com um livro na mão, sinal não apenas de sua autoridade cognitiva, mas sobretudo, de sua capacidade dialogante e misericordiosa de educar e aprender com o outro. Livros são sinais de que os seres humanos não nasceram para serem meros animais, mas sim seres capazes de ampliando suas capacidades cerebrais, descortinarem mundos, ampliarem sentidos da existência, mergulharem profunda na existência humana.

O livro é, deste modo, um portador de novos significados possíveis para a existência. Não é mera coincidência que, por exemplo, a tradição muçulmana se refira ao Islamismo, mas também ao Judaísmo e ao Cristianismo, como as “Religiões do livro”: por várias vezes, o profeta Muhammad manifestou aos seus seguidores que tivessem a máxima reverência com os seguidores dos Livros Sagrados, manifestando a reverência e a sacralidade com que a palavra escrita pode ter para a constituição não apenas da espiritualidade mas da subjetividade humana.

A reverência com que em nossas celebrações litúrgicas, utilizamos o Lecionário e, sobretudo, o Evangeliário, sendo até mesmo incensado em celebrações mais solenes, demonstram que os livros longe de se tornarem meros objetos passíveis de serem apenas recordados saudosamente num futuro breve, tem uma carga e vitalidade toda própria. Até mesmo para abri-lo, é preciso a coragem de quem sabe que estamos sempre em perpétua (re)construção.

Por fim, se o leitor se remeter ao evangelho de Lucas e continuar a passagem que citamos em epígrafe, será informado que, Jesus abre solenemente o livro, lê uma passagem bíblica e, ao fechar o livro, todos os olhos dos ouvintes estavam a postos neles.

O livro agora não era só a escrita que contém. Mas era também a História, o processo. A Presença.

Que os livros, os “bons livros” possam ser isso: Essa Presença em nossas Vidas!

                                                  Aryana Sousa e Marvão Jorge

 

 

 

 


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