Que a administração equilibrada do tempo é um dos maiores desafios para o homem de hoje, não se tem a menor dúvida. Quando, ao tempo já exíguo de quem tem uma família e trabalha ou estuda, soma-se o fato de ter entregue a vida a Deus em uma vocação como a nossa, aí a coisa parece complicar.
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Parece complicar ou complica com certeza?
Pois é, depende. Vejamos:
- Se, ao invés de mandarmos no tempo, deixamos que ele mande em nós, aí complica. No entanto, como somos nós que fomos criados à imagem e semelhança de Deus – e não ele – e como foi a nós que Deus deu o mandato de administrar toda a criação – e o tempo é criatura -, somos nós que “mandamos” nele e não ele em nós. Aí, descomplica!
- Se vivemos em função do tempo, aí complica. Mas se o tempo é vivido em função dos outros, aí descomplica.
- Se medimos o tempo com os ponteiros do relógio, aí complica. Se o medimos com os indicadores do amor, aí descomplica.
- Se o vivemos em função de nós, aí mais que complica: ele simplesmente desaparece. Se o vivemos em função dos outros, aí, descomplica e multiplica.
- Se nós o temos como valor absoluto, aí complica. Se nós damos a ele o seu lugar, como valor relativo, aí, descomplica!
- Se o consideramos uma ameaça à saúde, à beleza e à juventude, aí complica. Se o consideramos aliado para a maturidade, aí, descomplica!
- Se o contamos com a angústia do que já passou, aí, complica. Se o contabilizamos na alegre perspectiva do que ainda vem, aí, descomplica.
- Se o considerarmos um inimigo, aí, complica. Se fizermos dele um aliado, aí, descomplica.
- Se o contamos como algo externo a nós, com vida própria, aí, complica. Se percebermos que há um tempo interior, que é o que realmente conta, aí, descomplica.
- Se o confundimos com eternidade, aí complica: será um ídolo em função do qual vamos viver. Se, ao invés, o comparamos com a eternidade, aí, descomplica. Ele só terá importância se estiver a serviço dela.
O segredo
Pelo que está escrito acima, já se vê que o segredo é entendermos de uma vez por todas que o tempo é um valor relativo, submisso a nós, que é tão mais importante quanto estiver a serviço da eternidade.
Um irmão nosso, gosta de dizer que se víssemos todas as coisas comparando-as com a dimensão de eternidade, se avaliássemos tudo na perspectiva do céu, então as criaturas, pessoas, acontecimentos, assumiriam sua dimensão real. Isso se aplica como uma luva ao nosso relacionamento com o tempo. Se fazemos dele um valor absoluto, os compromissos da vocação “atrapalham”, “roubam tempo”, “tomam muito tempo”. Se fazemos dele um valor relativo à eternidade, tudo, da vocação ao banho de cada dia, é tempo ganho, tempo bem empregado, tempo que ajuda a amar a Deus já aqui na terra como no céu.
Há, no parágrafo inicial, uma chave importante de leitura do tempo. Leia outra vez: Quando, ao tempo já exíguo de quem tem uma família e trabalha ou estuda, soma-se o fato de ter entregue a vida a Deus em uma vocação como a nossa, aí a coisa parece complicar.
Esta frase contém: a) uma palavra inadequada; b) um vocábulo altamente revelador. A palavra inadequada é soma-se. O vocábulo revelador é parece. A palavra soma-se é inadequada porque o fato de ter entregue a vida a Deus não é uma adição, uma soma. É uma consagração. Não posso dizer: família + estudo + trabalho+ vocação = minha vida. Mas, certamente, devo dizer: vocação = minha vida, consagrada em todos os seus aspectos. A vocação não é um dado a mais em minha vida, com o qual eu tenho que gastar tempo, mas é a minha própria vida, à qual dedico todo o meu tempo.
Claro, há os compromissos, a Eucaristia diária, a célula, a oração pessoal, o estudo bíblico, a oração comunitária, os eventos, o ministério e isso, objetivamente, exige, pelo menos duas vezes por semana, quatro horas das dezesseis que fico acordado. Um quarto do meu dia, quando não há eventos. Isso, porém, não significa que dou um quarto de meus dias a Deus. Significa que, de todos os meus dias completamente entregues a Deus, um quarto do tempo de cada dia é preenchido com práticas religiosas e atos de caridade institucional. Isso não significa, em absoluto, que o resto não é amor e louvor a Deus.
Coisas de Deus
Trabalhar é coisa de Deus. Estudar também. Cuidar da casa é servir a Deus. Educar filhos, também. Também é coisa de Deus e servir a Deus cuidar dos pais idosos, dar atenção, respeitar e obedecer pais mais jovens. Tão coisa de Deus como a oração pessoal, estudo bíblico, Eucaristia diária, célula e ministério. Para quem é batizado – e, além disso, consagrado em uma vocação específica – viver é coisa de Deus, é servir a Deus. Afinal, não entregamos nossa vida a Ele? Como, com a vida, não entregaríamos o tempo não só na perspectiva de passado e futuro, mas na perspectiva de ser tempo no seu passar?
Consagramos a Deus o que somos, o que fazemos, o que temos, o que fomos, o que seremos, o que fizemos, o que faremos, o que tivemos, o que teremos. Isso faz parte de nossa confiança absoluta na Providência de Deus em todas as áreas de nossas vidas. Nós Shalom, de uma maneira especial, consagramos o tempo em seu passar, o Kronos e o Kairós, o tempo que se chama hoje.
Pessoalmente, gosto de refletir sobre o tempo, seus mistérios, sua beleza, a eternidade que ele revela e esconde. Sou gratíssima a Deus por ele, instrumento eficaz para que Ele prove seu amor a mim e eu o meu amor a Ele. O que partilhei acima, mudou minha vida com relação ao tempo. Ensinou-me o que é o tempo interior, educou-me com relação à sua administração entre serviço a Deus e serviço a Deus. Tudo, afinal, é serviço: em casa, na Igreja, no apostolado, no trabalho, tudo é serviço de amor.
Deus o abençoe.
Shalom

Que lindo texto Emmir. Posso morar nessas palavras para sempre e atualizar minha vocação no tempo e na eternidade! Shalom!!