Quem diria?!? Ao adorarmos Jesus, estamos a dar-lhe um beijo, sim, “contato boca a boca, beijo, abraço”. Esta revelação belíssima e surpreendente nos é feita pelo próprio Papa Bento XVI quando de sua homilia para os jovens reunidos em Köln para a XX Jornada Mundial da Juventude. Veja o trecho integral:
A palavra latina “adoração” é “ad-oratio”, contato boca a boca, beijo, abraço e, portanto, em resumo, amor.
Esta frase do Santo Padre me trouxe à memória um outro texto de Raniero Cantalamessa, até hoje muito pouco compreendido, o que considero uma lastimável tentação. Como o Papa, Cantalamessa está falando de união e de amor, do Espírito Santo. Raniero compara o ato conjugal à unidade da Trindade em seu eterno “movimento parado”, como diz São João da Cruz, de dar-se e acolher inteiramente e cita os padres da Igreja que chamam o Espírito Santo de “o Beijo entre o Pai e o Filho”. Cantalamessa explica como este Beijo promove, antes de tudo, o dom de si, como acontece entre os esposos. Vejamos uma pequena parte do texto de Cantalamessa:
Dentro da Trindade, o Espírito Santo não é dom simplesmente num sentido passivo, como aquele que é dado, mas também no sentido ativo, como dom de si que leva o Filho a entregar-se inteiramente de volta ao Pai. É isso o que acontece na Economia da Salvação. É o Espírito que leva o Filho a clamar, numa explosão de alegria, Abba, Pai! (Lc 10,21), assim como ele fará mais tarde nos membros de Cristo (Rm 8,15); e novamente, é o Espírito que ocasiona a determinação de Jesus a oferecer-se como sacrifício ao Pai: Cristo ofereceu-se a si como o sacrifício perfeito a Deus através do Espírito eterno (Hb 9,14).
Se o que acontece na economia da salvação é um reflexo da vida e das relações mais íntimas da Trindade, tudo isso deve querer dizer que o Espírito Santo é o princípio mesmo do dom de si, ele é tanto o dom como dom de si de uma forma dinâmica.
O Espírito Santo, por esta razão, infunde em nós não apenas o dom de Deus, mas também a habilidade e a necessidade de nos darmos. Ele mesmo é dom de si, e ao tocar em alguém, ele cria um dinamismo que leva alguém, por sua vez a ser um dom de doação de si aos outros.
Santo Ambrósio, que, além de teólogo era poeta, escreve que no beijo há bem mais que o mero contato dos lábios: há o desejo de partilhar a própria respiração, isto é, a própria vida.
São Bernardo pergunta e exclama: O que é o Espírito Santo senão o beijo mútuo entre o Pai e o Filho?
Quanto ao símbolo do abraço, um autor medieval comenta[1]: Este deleite mútuo, este doce amor, este feliz abraço, este amor beatificante através do qual o Pai descansa no Filho e o Filho no Pai – refiro-me ao descanso ao qual nada pode perturbar, esta inteireza incomparável, esta unidade inseparável, este fazer de dois um só, este reencontrar do ser nesta unidade singular, tudo o que podemos chamar de bom e cheio de alegria e doçura, tudo isso é o Espírito Santo.
Esse simbolismo, como podemos ver, tem sido usado apenas partindo da realidade terrena para a realidade celeste, da dimensão do amor humano para o amor eterno, na medida em que tenta lançar luz sobre as pessoas da Trindade, tomando como seu ponto de partida os gestos nupciais da união conjugal e do beijo.
No entanto, é possível seguir também a direção inversa, tomando como ponto de partida o Espírito Santo, dom de Deus, a fim de lançar uma luz sobre o significado profundo do amor conjugal humano. O autor que acabei de citar, ao referir-se ao abraço divino, chama-o de felicidade, amor, descanso, doçura, plena satisfação, perfeita unidade. Não é exatamente isso o que os esposos desejam com todo o seu coração, quando eles se unem um ao outro no amor verdadeiro?
O abraço carnal, por si mesmo, é totalmente incapaz de alcançar isso. É apenas quando este obscuro, agressivo e algumas vezes possessivo tipo de amor é purificado para se tornar amor-dom-de-si (e é bem isso que o Espírito Santo vem ensinar), que a intimidade entre os esposos pode ser a realização daquela doce unidade na paz que é um reflexo pálido na terra do abraço divino do Pai e do Filho no Espírito Santo.[2]
Nas entrelinhas, como bem se pode perceber, tanto o Papa como o Teólogo referem-se à ação do Espírito Santo, Aquele que tem a prerrogativa de unir através da doação de si e acolhida do outro, através do amor gratuito e incondicional, aos moldes do amor da Trindade, onde um é no outro e, em um beijo eterno, partilham a própria respiração e a própria vida. Sem o dom de si neste eterno Beijo entre o Pai e o Filho, não há unidade entre nós e Deus, entre nós e nosso cônjuge, entre nós e o irmão.
Adoração
Ao adorarmos o Santíssimo Sacramento, portanto, o Espírito de Deus nos faz partilhar de si mesmo, partilhar do Beijo da Trindade, Aquele que faz com que o Pai e o Filho sejam um só Deus. Através deste Beijo, nos unimos ao Cristo Integral, a todo o mistério de Cristo, ao Verbo que se faz carne, à sua infância, adolescência e juventude, ao seu ministério de evangelização, à sua paixão, morte e ressurreição, ao seu Corpo Místico, à Igreja militante, padecente e gloriosa, à vontade do Pai que este mesmo Cristo cumpre integral e eternamente.
Na adoração, partilhamos do mesmo Beijo que os esposos realizam, como um pálido reflexo na terra do abraço divino entre o Pai, Filho e Espírito Santo. Vivemos de forma sublime e inexplicável a unidade que alimenta o amor esponsal a Jesus a que somos chamados. Amor este que é vivido de forma exponencial na adoração, quando partilhamos com o Cristo Total sua própria respiração, em um contato boca a boca, como o chama o Santo Padre, seu abraço ao Pai e a toda a humanidade.
Tal amor, vivido misticamente na adoração, é vivido concretamente no irmão a quem Jesus Eucarístico abraça e contém, em sua Igreja Militante. Ao beijarmos Jesus na adoração ao Santíssimo, participamos do Beijo eterno da Trindade, de sua unidade perfeitíssima entre as três Pessoas e, em Jesus, também com os homens. Não é isso o amor esponsal a que somos chamados e que desejamos viver?
Em meio a tantos compromissos e afazeres comuns a todos os membros da Aliança, não será a adoração à Eucaristia como o beijo, o abraço, o partilhar a mesma respiração, o amor, o oásis onde encontrar tão frequentemente quanto possível a fonte de todo sentido de nossa vocação?
Adoremos!
[1] O texto transcrito da palestra de Frei Cantalamessa foi retirado tanto de suas anotações pessoais quanto do que acrescentou no momento da palestra. Por isso, em alguns casos, como neste do “autor medieval”, não constam as referências bibliográficas e nem a tradução oficial para o português.
[2] Transcrição da pregação de Frei Pe. Raniero Cantalamessa por ocasião do Congresso Mundial da Fraternidade de Comunidades de Aliança e Associações, em Roma, 2002
