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Entrevista: a história de um chamado

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“Estou partindo para que o Espírito Santo venha com mais força e poder sobre vocês. E vou com alegria, para dar aquilo que Deus me deu: a verdadeira felicidade”.

“Sou fã desse homem”. Ou: “Lenda viva”. Parece que esses costumam ser mesmo os primeiros comentários de qualquer pessoa que tenha tido a oportunidade de conhecer Messias Melo. Um homem cuja decisão por Deus e pelo caminho de santidade continua a influenciar e inspirar centenas de pessoas. Ele, que é um marco na evangelização e no crescimento da Comunidade Católica Shalom em São Paulo, deixa a cidade depois de 16 anos e parte em missão para Lisboa, em Portugal. Messias conversou com a gente sobre sua vocação, seus 33 anos na Comunidade Shalom, sobre o tempo vivido em São Paulo, e também suas descobertas sobre Deus, seus desafios e superações. Essa entrevista é a história de um chamado. Acompanhe.

– Messias, você contou outro dia que costumava subir a uma montanha para rezar, muito antes de conhecer o Shalom. A pergunta é: Você sempre foi um jovem de oração? Quando começou a sua relação com a Igreja?

Sempre tive o desejo de ter uma vida diferente. Minha família é muito católica. Eu morava no Ceará, então eu saía pelas praias, pelas dunas, e ficava me questionando: meu Deus, que imensidão, que oceano tão grande, por que você criou tudo isso? Então eu acho que, já ali, seria o começo de uma vida de oração. Um questionamento meu, das belezas de Deus. Aquilo me deixava em paz. E mais tarde eu fui descobrir melhor esse caminho, esse caminho de diálogo, esse estar com Deus. Mas tudo começou concretamente mesmo quando eu fiz o Seminário de Vida no Espírito Santo, e eu tive ali uma verdadeira experiência. Foi em 1979. O sacerdote rezou por todos que estavam lá, menos por mim, até que em certo momento me olhou profundamente nos olhos e perguntou se eu queria receber uma oração, eu fiquei em silêncio e ele orou por mim. A partir daquele dia, eu fiquei dois dias inteiros chorando. Chorava mesmo. No terceiro dia, senti um desejo profundo de orar. Eu levantava cedo, às 5h da manhã, caminhava até a praia, e ali, vendo o sol nascer, eu começava a conversar com Deus. Eu não sabia o que fazer, mas as palavras saíam de dentro de mim. Então acredito que naquele dia eu recebi um dom.  Foi reavivado dentro de mim uma vida profunda de oração. Eu comparo muito a vida de oração com o sol. Tem de nascer todos os dias, para iluminar a escuridão. Eu vejo a oração como essa grande luz, que vem sobre mim, que me ilumina nos momentos mais difíceis e me dá essa graça de caminhar sempre fiel na vontade de Deus. Desde aquela data, em 1979, eu nunca mais deixei de rezar um só dia.  Todos os dias, às 5h da manhã, eu estou ali com Deus para o nosso encontro.

E como você chegou à Comunidade Shalom?

Eu tinha um amigo, o Magno, e ele convidou muitas pessoas para irem na inauguração de uma lanchonete em Fortaleza. Essa inauguração, era a inauguração do Shalom. Estava todo mundo reunido, a gente morava próximo à praia, e ele nos convidou também, eu e minha namorada.  Nós fomos. Interessante que de todos que foram, apenas eu fiquei. Lá, naquela noite, o bispo deu a benção pela inauguração, e nós fomos informados que, ainda naquela noite, ali, começaria um grupo de oração, e eu fui para o grupo de oração. Eu fui a primeira ovelha do Shalom.

Fazendo memória da sua história, houve um momento em sua vida que você teve uma experiência mais profunda de fé? Como aconteceu?

O maior passo de fé que eu já dei na minha vida foi ter permanecido naquela lanchonete. Aquela noite foi muito impactante. De ver a vida de pessoas sendo transformadas e de ver que eu poderia viver do mesmo jeito. Eu não as conhecia, eu não sabia de nada sobre aquela realidade, e algo me impulsionou a me lançar. Eu abracei. Dei um passo no escuro, sem saber como seria. Esse foi o momento que me fez fiel até os dias de hoje.

Deus te mandou algum sinal? Alguma confirmação?

Não tenho explicação. Foi algo dentro de mim. Até hoje eu paro e penso: Por que foi que eu fiz isso? (risos). Porque tinha, sim, paróquia do meu lado, outros grupos de oração, eu era amigo de padre, era tão jovem, e de repente eu me decidi por algo que estava dentro de mim. Foi espiritual, eu me sentia chamado.

E como aconteceu o seu chamado à Comunidade de Vida? Esse momento em que você decidiu deixar tudo, abandonar tudo, para viver inteiramente a sua vocação. Você comentou há pouco que tinha uma namorada…

Foi dificílimo, porque, na verdade, quando dei esse passo, eu não sabia o que seria a Comunidade de Vida. Para falar a verdade, naquele início de tudo, eu nem cheguei a ser acompanhado, não existia, como hoje, encontros vocacionais específicos. Eu sabia que algumas pessoas eram acompanhadas pelo Moysés (fundador) e no final do ano mandavam carta pedindo ingresso. Eu me engajei no Shalom e o Moysés às vezes me perguntava: Quer mandar uma carta? E eu dizia: Não, eu já sou super engajado, me sinto bem. Mas no final eu mandei a carta, sem nem saber ao certo o que estava fazendo (risos). Eu fui um dos poucos que entrou naquele ano, o que me fez pensar, também, que certamente era a vontade de Deus. Eu acho isso tão legal. Porque, se eu parar para pensar, 33 anos de Shalom, e tudo nasceu como uma decisão de coração. Eu não planejei entrar, não planejei fazer esse caminho, eu só tinha o coração, eu disse: Senhor, eu vou. Seja o que o Deus quiser.

E a gente, hoje em dia, pede tantas confirmações, não é mesmo? Na sua visão, o que é vocação? Como a gente descobre a nossa?

A vocação, na verdade, é sempre um chamado de Deus. É Deus que chama. Se Ele chama, tem alguém que responde. Então, Deus que me chamou, e eu que respondi. A vocação já está dentro de mim, por isso ela escuta a voz de Deus. Escuto suavemente a voz de Deus que me chama, uma voz que diz: esse é o teu lugar. Então a gente começa a trilhar por um caminho, mesmo que as dificuldades venham a acontecer, os momentos difíceis, as tempestades, porque, se eu estou convicto de que foi Deus quem me chamou, podem passar anos, eternidade, eu continuo sendo daquele que me chamou, que é Cristo. Assim Ele fez com os apóstolos. Apenas Ele chamou e eles deixaram tudo e o seguiram. Eu fiz o mesmo. Escutei, senti e segui.

Como você vê a importância do celibato em sua vida de homem consagrado?

Foi um discernimento que durou vários anos. Acho que eu fui a pessoa que mais esperou. Eu dizia a mim mesmo: não vou dar esse passo agora, porque quando eu der, eu serei fiel para sempre. Eu sempre tive esse desejo dentro de mim: darei o meu sim na hora certa. O celibato, na verdade, ele é um complemento, ele é o meu estado de vida que me complementa nesse caminho de felicidade, foi aí que eu encontrei a perfeita felicidade, porque foi me completando em Deus que eu consegui transbordar essa grande alegria. E o celibatário tem que sair dele, tem que ir em busca do outro, tem que evangelizar. Então o celibatário, por natureza, é esse terreno fértil para que outros possam nascer. Os consagrados com outro estado de vida também são, mas o celibatário com essa força espiritual, essa graça de Deus no seio da igreja, como geradores de outras vidas para Deus.

Nenhuma escolha é feita apenas de certezas. Durante esses anos de vida missionária, houve momentos em que você pensou em desistir. E como lidou com esses momentos?

Teve muitos momentos, momentos difíceis. Depois de quatro anos, teve o momento mais difícil pelo qual passei, quando eu quis voltar para casa. Cheguei à conclusão: não vai dar. Eu liguei para minha mãe, falei que estava voltando, e minha mãe, muito sábia, disse:  “Messias, você vai sair da Comunidade? Você disse que tinha casado com ela. Então se você casou com essa Comunidade, permaneça fiel, porque relacionamentos são assim, eles precisam de fidelidade para que você consiga atravessar os momentos difíceis. Você sempre vai ter uma família aqui que te ama, mas, primeiro, antes de abandonar a vocação que você encontrou, pense, seja fiel, e tente mudar, porque às vezes a mudança não está no outro, está em você”. E eu fiquei. E dali se abriu um leque novo. Depois, tive também outras dificuldades, depois de 8 anos, 10 anos. Até que me aconteceu de ter um sonho. Eu não sou de me lembrar de sonhos, mas desse eu não me esqueço. Deus falava comigo naquele sonho, e Ele dizia assim: “O que fez a pecadora? Perdoei os pecados dela, ela se voltou, e ela me seguiu.  O que fez Pedro? ” Aí eu disse: Pedro negou a Cristo três vezes. E Ele perguntou: E Judas, o que foi que fez? E essa última me deixou paralisado, porque Judas também agiu errado, mas, diferentemente dos outros, não se voltou à Misericórdia. E no final do sonho, o Senhor me perguntou: “Você quer fazer o mesmo? ” E eu vi, então, que minha vida perderia o sentido se eu saísse aquele momento da Comunidade. Ele próprio me pediu para que permanecesse. Foi uma revelação em sonho. Eu ouvia claramente a voz de Deus.

Qual dica você poderia dar para quem busca maior intimidade com Deus? Para quem quer estar mais atento para escutar essa voz, a ponto de se lançar mais.

A vida de oração é um argumento preciso. Tem que ter uma disciplina, horário certo para estar na presença de Deus. Estar ali todos os dias. Você não respira? Se você respira, você tem que aprender a rezar. Porque a oração é o respiro da alma. Precisamos estar nesse caminho. E ela nunca tem de ser uma coisa imposta. Eu diria o seguinte: Você que quer ter uma vida de oração, busque a disciplina, horário para estar diante de Deus, mesmo que no começo seja 15 minutos, 30 minutos. Acrescente o estudo bíblico. Aos poucos começa a nascer o desejo de buscar mais e de passar mais tempo na presença do Senhor. E como aproveitar as graças que Deus quer nos conceder? Com a insistência na vida espiritual. Porque aí sim: Você tem um coração, que é como um vaso, e essas graças vão se acumulando no seu coração e, em determinados momentos, outros irão beber dessas graças que você recebe.

E como não deixar essa chama do amor de Deus se apagar?

Desde o seu primeiro encontro com Deus, a chama nunca mais se apaga. Ela se converte em brasa. Quando você contempla uma fogueira, por exemplo, eu nasci naquela cultura de muitas comemorações à festa de São João, e de manhã só tem as brasas cobertas de cinza, você já viu isso? Então, tem brasa. Na vida da gente é assim. A chama não se apaga, ela está ali, às vezes coberta de cinzas. É só você soprar, que tudo nasce com mais intensidade de novo. O fervor. Que sopro é esse? É o ruar. O sopro de Deus dentro de nós.  E como alimentar essa chama? Só a vida de oração, de novo, pode atear fogo nas madeiras verdes e secas das nossas vidas. É igual o amor, o amor se dobra para nunca romper. A chama de Deus, o amor de Deus dentro de nós, não se rompe, é para sempre.

Nesses anos todos, qual você diria que foi a sua maior descoberta sobre Deus? Uma característica Dele.

Deus é felicidade. E também a busca pela felicidade. Sempre teve algo dentro de mim que era: buscar a felicidade. Eu encontrei essa felicidade em Deus. Não foi naquilo que as pessoas poderiam me dar. A verdadeira felicidade eu só encontrei no meio sobrenatural.

E qual foi o dia mais feliz da sua vida?

Como a minha ânsia sempre foi buscar a felicidade, eu posso te dizer que tenho vários dias muito felizes. Mas o dia realmente mais feliz da minha vida foi quando eu dei o meu “sim” definitivo. Eu nunca imaginei que eu iria me consagrar, ser celibatário, tudo em definitivo. Lembro que aquele dia o Moysés veio e me disse: Messias, agora é para sempre. E eu fui movido de alegria. Aqueles votos perpétuos me deram muita alegria, foi um grito lá de dentro: Eu sou de Deus.

E na missão de São Paulo, qual a sua maior alegria?

Em São Paulo tudo foi felicidade para mim. No começo, quando eu vim morar em São Paulo foi bem difícil, porque todo mundo falava que tudo aqui era mais difícil. E quando eu cheguei para a missa e vi tantas cadeiras vazias no Shalom, só fiz chorar, tive dias de angústias. Então o dia em que me senti mais feliz, foi quando subi para fazer comentário da missa e o salão estava lotado. Desde então, sinto muita alegria, uma alegria que se repetiu todos os dias, quando eu chego no Shalom e vejo a casa cheia.  Conseguimos. Chegamos onde Deus queria.

E você acha que realmente é mais difícil evangelizar em São Paulo? Existe muita diferença em comparação às outras regiões do país?

Não. Difíceis somos nós, quando não conseguimos sair de nós mesmos para evangelizar. Mas São Paulo tem suas peculiaridades. Às vezes a gente até acha que está na Europa, quando encontra pessoas mais frias num primeiro momento. Você tem que quebrar uma barreira para chegar até elas. Existe o individualismo. Existe algo também em São Paulo, e isso eu acho que eu até me entrosei bastante, que é a correria, a pressa, é tudo muito rápido. São essas as coisas que nos impõem dificuldades, obstáculos para a evangelização. Mas a verdade seja dita: quando eles se convertem, eles doam a própria vida. Isso a gente vê. Apesar de toda a dificuldade. A partir do momento que você toca o coração de uma pessoa, é fantástico, ela moverá o mundo para falar do amor de Deus. Eu descobri isso nesses 16 anos vivendo em São Paulo.

Quais os números da missão São Paulo? São quantas pessoas hoje que fazem parte da obra?

São cerca de 300 pessoas que participam das missas e dos nossos grupos de oração. Temos também 95 membros da Comunidade Aliança, e 20 missionários da Comunidade de Vida vivendo aqui. A Comunidade de Vida é enviada para evangelizar, é um chamado para sairmos de nós mesmos e irmos ao encontro das pessoas. Em São Paulo fazemos isso por meio das artes, dos esportes, da música, cursos, grupos de oração, principalmente.

O que você espera da sua futura missão, em Portugal?

Na verdade, já estive em Portugal, vi a missão, e comparo muito com quando vim a São Paulo, quando cheguei, e não havia nada. Então é um recomeçar. O primeiro passo foi conhecer esse povo, evangelizar, dar início aos grupos de oração, depois cursos de formação, porque só existia um trabalho bem tímido. A Portugal, eu estou indo como missionário. E o que Deus pedir para fazer, eu estarei fazendo, cumprindo a minha missão enquanto missionário. Quero investir para que eles possam crescer, plantar uma semente. Muitas pessoas me perguntam: “Ah, você não está com medo? É outro país. É outra cultura”. E eu respondo: nasci para isso. Vou com alegria. Para dar aquilo que Deus me deu, que é a verdadeira felicidade.

Qual o maior legado que você acredita estar deixando na missão São Paulo, como missionário e como responsável local?

O maior legado, acredito ser a estrutura do centro de evangelização. Algo que vai ficar aí por toda a vida. A estrutura da missão de Perdizes, a estrutura da missão Santo Amaro, e até Guarulhos também, porque durante um tempo fui o responsável de lá. Essas missões que nasceram de uma pequena evangelização e que formaram depois também outras missões, como a de Santo André e a de Araraquara. Acho que o maior legado foi essa saída de mim mesmo, nesse tempo, para que a evangelização pudesse crescer nessas estruturas que Deus nos confiou.

Qual mensagem você gostaria de deixar aos jovens de São Paulo?

Quero convocá-los a ter um tempo a ser dedicado a Deus. Jovem, quer ser feliz? Busque a felicidade em Jesus.  Esse é o único caminho de uma perfeita felicidade, mesmo que as tempestades cheguem a cada um de nós e a escuridão bata à porta, não tenha medo. Venha, mergulhe no coração de Deus, que ali você será inteiramente feliz.

E qual mensagem você deixa para a família Shalom São Paulo?

Para o povo de São Paulo, aos consagrados, discípulos, postulantes, todos: Permaneçam fiéis à voz de Deus. Permaneçam fiéis. Eu parti, estou partindo, para que o Espírito Santo venha com mais força e poder sobre vocês. Porque quando a gente se rende, se joga nos braços de Deus, toda partida gera frutos, frutos de salvação para a vida do outro. Que vocês de São Paulo possam também partir para a evangelização, e permanecer fiéis à vida de oração, ao chamado que Deus faz. Que se sintam inflamados pelo amor do Senhor. Guardo cada um no meu coração e irei lembrar para sempre. Vocês são os africanos que Deus me confiou – quando eu era jovem eu queria muito ir para a África (risos). Meus paulistas africanos, contem com minhas orações.  Que Deus abençoe cada um de vocês.


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