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Entrevista: O prazer de viver

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O cardeal Roger Etchegaray anuncia nesta entrevista que sua casa de Roma está aberta a todos os que tocam à sua porta. Sua mensagem é simples: a seus 84 anos quer comunicar o prazer de existir.

O cardeal Roger Etchegaray nasceu em 1922, em Espelette (Baixos Pirineus), foi bispo auxiliar de Paris (1969-1970), depois arcebispo de Marsella (1970-1984), presidente da Conferência Episcopal Francesa (1975-1981) e presidente do Conselho das Conferências Episcopais da Europa (1971-1979).

João Paulo II o chamou a Roma para ser presidente do Conselho Pontifício Justiça e Paz e do Conselho Pontifício «Cor Unum». Presidiu o comitê central para o Grande Jubileu do ano 2000. É hoje vice-decano do Colégio de Cardeais.

–O senhor fala do prazer de viver, falemos então também de seu prazer pelo diálogo frente à diversidade humana, de seu apego às suas origens vascas, que talvez explique sua paixão pelas viagens.

–Cardeal Etchegaray: É verdade e lhe agradeço que sublinhe minhas origens vascas. Eu estou muito orgulhoso de tudo o que meu pequeno País Vasco e minha família vasca me deram para ser o que sou hoje. Diz-se que o vasco é aventureiro. Pode ser verdade. Há grandes aventureiros, corsários, mas há também missionários e penso em um deles que amo muito: São Francisco Xavier, que tinha uma irmã casada em meu pequeno povoado de Espelette. São Francisco Xavier, «o homem com sandálias de vento» que chegou até o Japão, que quis ir à China e que não pôde porque morreu antes de chegar. Era um autêntico vasco. Não é que queira me comparar com ele, mas sempre houve algo em mim de missionário, primeiro como cristão, depois como sacerdote, como bispo, e agora como cardeal, fui enviado pelo Papa em missão aos quatro cantos do mundo.

Viajei muito, mas viajei também por prazer, por gosto pessoal, e inclusive ainda à minha idade estou sempre pronto para empreender grandes viagens. Tenho também projetos por realizar ainda, se a saúde me permitir. Acho que minha cabeça ainda está bem; posso, portanto, viajar por toda parte do mundo.

Vou por prazer, mas também porque Deus quer fazer de cada homem um mensageiro de seu amor, de sua mensagem, que é uma mensagem de fraternidade. Quando se compreende isso, não se deseja permanecer em um lugar. Isso faz como «cócegas nos pés» e dá vontade de ir a todas as partes. Eu fiz todas as minhas viagens, todas as minhas missões, porque o Papa me pedia, mas com esse espírito.

–Reconhece-se aí a cabeça dura do asno, por retomar o título de seu livro «J’avance comme un âne», um título insólito demais…

–Cardeal Etchegaray: É verdade; quando eu lhe dizia no começo que o livro teve muito êxito, é preciso reconhecer que também se deveu a esse título um pouco extravagante. Isso ajudou muito para o seu êxito. Comparei-me com o asno no princípio porque gostam muito dos asnos, que não são tão «asnos» como se diz. Jesus gostava muito dos asnos, porque sobre um burrinho fez uma última entrada em Jerusalém, justamente antes de dar sua vida por nós.

–E pensa que é necessária verdadeiramente a cabeça dura do asno para conservar a esperança no mundo atual, na chegada de um mundo de paz? É a mensagem que quer transmitir em sua obra?

–Cardeal Etchegaray: O asno tem muitas qualidades: é sóbrio, marcha lentamente, mas com um passo muito seguro; vai por caminhos escarpados, portanto longe das rodovias, onde a rapidez impede de ver montaria e cavaleiro. O que falta hoje são asnos pelos pequenos caminhos, para encontrar-se e falar. Hoje se corre demais, cruzando-se apenas, sem parar inclusive quando o caminho está feito para ser olhado, sem egoísmos, mas para aprender do outro tudo o que nos pode dar de bom.

Cada um é uma riqueza, com freqüência desconhecida: cremos que somos piores do que realmente somos. Quando nos encontramos, é necessário saber que se tem muitas coisas felizes, boas, excitantes para compartilhar, e que nos dão um maior prazer de viver.

–O senhor está «aposentado», mas pelo que conta, continua muito ativo…

–Cardeal Etchegaray: Ativo, sim! Pois ainda que não tenha responsabilidades na Igreja oficialmente, sempre tenho uma responsabilidade com meus irmãos, de qualquer idade.

Deus me deu ainda boa saúde, e mesmo se estivesse doente, penso que estaria ainda ativo no sentido no qual a palavra «ativo» quer dizer, «atuar».

Antes de tudo, pode-se atuar com a oração, e não se crê nunca suficientemente em sua importância, na eficácia da oração, essa comunicação dos espíritos que nos aproxima de todos.

E depois estão os encontros: hoje minha atividade consiste em receber muita gente. Rejeito muitos convites a congressos, conferências, pois prefiro recolher-me, mas não me fecho nunca.

Quero fazer de meu apartamento em Roma uma casa aberta a todos, uma tenda como as dos nômades. É uma imagem que gosto, pois é sinal de abertura aos outros. Conheci esta experiência em outra época, em alguns desertos. É extraordinário. Então é o que eu queria fazer agora. Que este seja meu ministério, minha missão. Responder a todos os que chamam à minha porta, seja quem for, grandes ou pequenos. E para mim não há grandes e pequenos. Somos todos iguais e gosto de receber seja quem for. Esta é minha alegria e continuo me sentindo feliz por existir.

Cardeal Etchegaray


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