Tive uma vida superestimada pelos meus pais, recebia os melhores presentes, habitava em uma boa casa, e nunca me faltou o pão ao amanhecer ou um copo de leite com achocolatado para dormir, e mesmo assim, algo inquietava meus dias. Quando eu disse ‘superestimada’ também incluía o controle, eu não tinha permissão de brincar na rua, e observava do terraço uma vida que pulsava fora daquelas grades seguras. Desde cedo recebi recomendações de como executar tarefas do cotidiano, como preparar o achocolatado, tomar banho… Aos 5 eu já fazia quase tudo sozinha, e era assim que eu me sentia: sozinha. Nessa época já frequentava a Igreja Católica, e nada daquilo para mim fazia sentido, nem as palavras, nem todo o rito eucarístico. Eu não me sentia acolhida em nenhuma instância da minha vida, isso só ganhava força na escola. Pensava em fugir, ou cometer suicídio, mesmo sem entender a proporção disso.
A adolescência foi a época em que as dúvidas da infância se fortaleciam, e me sacudiam como um saco vazio. Viver era uma inquietação, tudo ao meu redor era grande inquietação, tudo era incerto e sem propósito. Pouco tempo depois tive a minha disposição ao álcool em festas, e as coisas continuavam sem sentido, mas não doía como outrora, me sentia dormente. Não era propriamente para fugir, só para me entorpecer. Enquanto a escola me explica de onde vem os bebês, a Igreja vem me contar essa história de Espírito Santo. Eu queria simplesmente saber o que eu vim fazer aqui! É uma pergunta simples e direta, e sem ela parece que tudo gira em círculos. Quase desacreditei de tudo, mas com a última fagulha de esperança que existia um Espírito que verdadeiramente me amava – e estava ali – pedi enquanto caminhava pelas ruas que Ele me desse um sinal, qualquer que fosse, eu acreditaria. E então caiu sobre meu rosto gotículas de água que refrescaram meu rosto naquela tarde limpa de sol, as gotas finas escorriam pelo meu rosto como num afago. És Tu! Posso sentir! Pela primeira vez, eu chorei de alegria.
Ao passar pelo Ensino Médio, o fogo ardente de Deus foi sendo trocado por obrigações. Confesso hoje que não percebi o quanto um terceiro ano com um exame de vestibular, seguido de universidade destruiu o meu psicológico. A sociedade me pressionava por resultados, afinal eu já era adulta, era eu e eu mesmo, ninguém iria passar a mão na minha cabeça, e se eu não me virasse em 5 e fosse capaz de dar conta de tudo, ainda iria chegar um doutor que apontaria o dedo pra mim, chamando-me de incompetente, e se eu não mudasse, nunca iria acompanhar o ritmo dos outros. Senti-me incapacitada de seguir os meus sonhos. Com o passar do tempo as pessoas próximas também começaram a exigir ainda mais de mim, e anos de insônia foram fazendo minhas memórias pouco a pouco ficarem desconexas. Foi quando eu realmente me preocupei, tranquei a Universidade e fui buscar novamente minha paz espiritual, e estreitar minha relação com Deus.
Fui ao Acamp’s para agradecer pela reconstrução da minha vida. Fui agradecer por ter encontrado a completude do meu ser ao se deparar numa tarde de sol com o Amor infinito. No acampamento Deus tocou em todas as minhas feridas, lavou-as, e isso doeu tanto que na metade da semana pedi pra Deus para ir embora enquanto chorava escondida num banheiro. Ao sair, encontrei uma grande amiga, que foi o anjo de Deus que me levou a estar ali. Conversamos sobre o que eu sentia e ela me aconselhou a entregar tudo aquilo à Deus, e fiz isso na quinta (12 de julho de 2018) pela manhã na Santa Missa. No fim dela, senti uma profunda paz. Jesus se aproximou e me disse que meu amor por Deus era muito bom, mas que eu precisava dividir com outros jovens, e que apesar do meu passado, Ele me amava e gostaria que eu fosse uma discípula dele. Naquele momento eu não tive mais dúvidas, era isso que eu busquei a vida inteira: um propósito na vida em nome de um amor verdadeiro.
Kaysa Mara
Shalom Parnaíba

Linda! Deixemo-nos encontra pelo Amor de Deus.