É desnecessário lembrar que sem o Espírito Santo não entenderemos o que Deus quis nos dizer ao enviar sua Palavra. É o Espírito Santo o inspirador e o inflamador dos corações. Por isso devemos sempre pedir o seu auxílio. “Ó vinde Espírito Santo, enchei os corações…”.
Como muitos já sabem o método da Lectio divina consiste em quatro passos: leitura, meditação, oração e contemplação. Tomemos, neste mês dedicado à Bíblia, um trecho do evangelho segundo São Marcos, capítulo 12, versículos de 18 a 27, e façamos uma Lectio com ele. Leia-o com atenção, pelo menos três vezes à meia voz. Agora leia-o mais uma quarta vez em silêncio, meditando, isto é, confrontando-o com sua vida.
Da leitura vimos que os saduceus, “que dizem não haver ressurreição” (cf. v.18) se aproximam para armar uma cilada para Jesus como já haviam feito os fariseus e herodianos (cf. vers. 13 a 17). Eles começam citando a Lei de Moisés para fundamentar a tese que queriam provar. Quando houvesse numa família dois irmãos e um deles morresse, a viúva deste tinha direito de casar com o irmão para suscitar uma descendência para o morto. Era conhecida como a Lei do levirato (levir em latim= cunhado) que Moisés deixara no livro do Deuteronômio capítulo 25,5ss.
Os saduceus apresentam uma situação na qual uma mulher chega a casar com sete irmãos e depois morre. E perguntam: Se ela foi casada com todos, na vida eterna, de quem ela será esposa? A resposta não dependia do número de maridos daquela mulher, mas eles levam seu argumento ao extremo para ver o que o Mestre diria.
Jesus repreende-os: “Não é por isso que errais, desconhecendo tanto as Escrituras como o poder de Deus?” (v. 24) E explica: “Na ressurreição, nem os homens as casam nem as mulheres se dão em casamento, pois serão como os anjos do céu”. E para provar que os mortos ressuscitam, cita as Escrituras, na passagem do livro do Êxodo em que Deus se revela a Moisés na sarça ardente dizendo: “Eu sou o Deus de Abraão, Deus de Isaac e Deus de Jacó”. E conclui afirmando: “Ora ele não é Deus de mortos e sim de vivos. Errais muito!” (vers. 27).
Você ficou surpreso por Jesus ter citado o Antigo Testamento? ‘Ora claro que não pois ele sabia de tudo…’ ‘Ele é o Verbo, a Palavra viva do Pai…’ Mas Ele passou como todo menino judeu por todas as fases, sendo educado na Lei e cumprindo todas as suas prescrições. Quando completou sua maioridade aos doze anos, foi levado a Jerusalém e lá ficou entre os doutores “ouvindo-os e interrogando-os” como relata São Lucas. E no fim deste episódio o evangelista diz: “E Jesus crescia em estatura, em sabedoria e graça, diante de Deus e dos homens” (Lc 2,52).
Na Carta aos hebreus, lemos: “Embora fosse Filho aprendeu a obediência” (Hb 5,8). Ele leu e conheceu as Escrituras. Então não é de estranhar que Ele soubesse de cor as passagens do Antigo Testamento. No deserto, o diabo o tenta, citando a Palavra de Deus e Jesus rebate corrigindo também na Palavra com a correta interpretação.
Ao iniciar sua vida pública, Ele entra na Sinagoga de Nazaré e lê uma passagem do livro do profeta Isaías: ”O espírito do Senhor está sobre mim…” E diz: “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabais de ouvir” (Lc 4,16-21). Ao longo dos evangelhos, é praticamente impossível não associar algum ensinamento ou episódio de sua vida com o Antigo Testamento. E é natural. Afinal, “ele não veio abolir a Lei ou os profetas, mas dar-lhe pleno cumprimento”. E ensina: “Ouvistes o que foi dito… Eu porém vos digo: …“ (Mt 5,1ss.).
A Palavra de Deus está, portanto, no centro de sua pregação. Na aparição aos discípulos de Emaús, após a ressurreição, Ele recrimina-os: “Ó insensatos e lentos de coração para crer em tudo o que os profetas anunciaram! Não era preciso que o Cristo sofresse tudo isso e entrasse em sua glória? E começando por Moisés, e por todos os profetas, explicava-lhes o que dele se achava dito em todas as Escrituras” (Lc 24, 25-27).
E você? Ama a ponto de conhecer de cor algumas passagens bíblicas? Ou também tem errado por desconhecer tanto as Escrituras quanto o poder de Deus? Você gostaria de entender tudo o que no AT diz respeito a Jesus? Deixe que o próprio Senhor venha ajudá-lo como fez com os discípulos de Emaús. Só há uma condição: Coração aberto e tempo para ler e meditar a Palavra de Deus.
Perdemos tanto tempo com futilidades e reclamamos que ‘não temos tempo para fazer um estudo bíblico’. Será que não temos tempo ou o gastamos de maneira inútil? Reflita sobre o seu dia-a-dia e veja se não dá para arranjar um tempo para o que é essencial na vida de qualquer um. Escolha, faça o seu horário. Determine-se. Não deixe a rotina o(a) dominar. Domine você o seu tempo, recolhendo-se diariamente para ler, meditar e rezar com a Palavra de Deus.
O terceiro passo da Lectio depois da leitura e da meditação é exatamente a oração. Peça ao Senhor esta graça de amá-lo e conhecê-lo mais através da Bíblia. Em seguida, comprometa-se, no que depender de você, de reservar o tempo escolhido para Deus. Louve e bendiga a Deus pela sua Palavra que está ao seu alcance. Agradeça também pela Igreja, pelos que preservaram, conservaram e transmitiram a Bíblia de geração em geração até os dias de hoje. Siga as moções do Espírito para o que ele o(a) inspirar.
O último passo da Lectio é a contemplação. Agora não precisa “fazer” alguma coisa. É deixar que o próprio Senhor o(a) conduza. Contemplar é amar! Deixe que o Espírito ame em você e através de você.
Sempre ao terminar uma Lectio, sugerimos que você anote em seu caderno de oração os principais rhemas e graças que o Senhor lhe concedeu para que depois você possa relembrar tudo o que o Senhor fez em sua alma. Caso você faça parte de algum grupo de oração, partilhe com seus irmãos e irmãs a obra que Deus realizou em sua vida através desta Lectio.
José Ricardo F. Bezerra
