Um homem percebeu que o seu casamento estava desmoronando. Ele e a esposa não se entendiam mais. Sempre as mesmas acusações, as mesmas reclamações, nenhuma explicação satisfazia. Num esforço sobre-humano o infeliz foi procurar um sábio e contou-lhe a situação. O sábio deu-lhe um simples remédio:
– Este ano procure escutar tudo o que a sua mulher disser, depois volte. Não era pouca coisa, mas o homem esforçou-se ao máximo. Muitas vezes desistiu da pressa e parou para ouvir o que a esposa tinha para lhe dizer. Inúmeras vezes conseguiu frear a sua língua para não responder na hora e ponderar melhor o que a outra afirmava. Aos poucos percebeu que a esposa tinha algumas idéias interessantes. Em muitos assuntos estava mais informada do que ele, e em outros era mesmo experta. Com o passar do tempo, ficou cada vez menos pesado escutar a companheira; com isso acabou redescobrindo muitos lados bons da esposa que havia esquecido. Após um ano voltou com o sábio. Ainda não estava plenamente feliz, porém o difícil remédio já estava dando os seus resultados. Relatou tudo ao sábio e perguntou-lhe qual seria o próximo passo. Este respondeu:
– Até aqui foi, mais ou menos, fácil; você escutou com mais atenção o que a sua esposa dizia. Agora, se quiser salvar mesmo o seu casamento, para o próximo ano, escute também o que ela não diz -.
A história acaba aqui, não sei como ficou o casamento daquele homem após o segundo ano, entretanto achei curioso o conselho do sábio, porque nos lembra algo de muito difícil, algo que nos parece quase impossível. Como ouvir o que os outros não dizem? Não é uma bobagem querer escutar o que nem é dito? De jeito nenhum.
Primeiro porque confiamos demais em nossas palavras, nos nossos raciocínios e discursos. Achamos que o que dizemos é tudo o que pensamos e sentimos. Nada mais falso! Na maioria das vezes é muito mais o que não expressamos, porque não conseguimos, não achamos importante,ou simplesmente porque preferimos que o assunto acabe por aí, engolindo os demais sentimentos e as demais explicações. Pela alegria e pela tristeza. Ficamos mudos para não ofender, por achar perda de tempo conversar mais. Outras vezes calamos, por não querer admitir que o outro, ou a outra, é melhor do que nós, que fez tudo bem feito, que deveríamos agradecer-lhe.
Podemos silenciar para não machucar, é verdade, mas podemos silenciar, também, para não querer louvar quem está perto de nós. Simplesmente por entender que fez o que devia fazer. Cumpriu uma obrigação, nada mais. Com o silêncio, perdemos a oportunidade de manifestar a nossa admiração, a nossa gratidão, a nossa alegria por ter aquela pessoa, – mãe, pai, marido, esposa, filho, colega, amigo – junto conosco. Nesse caso seria melhor falar.
Em outras situações, ter um pouco de criatividade em imaginar o que o outro -ou a outra- não diz, pode servir para evitar uma confusão,criar um clima de compreensão, resolver com um sorriso, ou um olhar, um possível mal-entendido. O silêncio pode esconder insatisfação, revolta, submissão, medo, desinteresse. Dificilmente, o ficar calados, revela amor.
Para ajudar as nossas famílias, devemos ter coragem de falar, com jeito, com carinho, com confiança. Devemos parar de pensar que é inútil uma boa conversa com o marido, com a esposa, com os filhos. Conversar com sinceridade e escutar com interesse. As duas atitudes andam juntas.
Contudo devemos desconfiar de muitas palavras. Devemos nos perguntar no silêncio, na escuta e na observação, o que poderíamos fazer mais e melhor para os outros. Sem palavras, mas com gestos concretos, com a presença e a atenção amorosa. Assim saberemos surpreender os que amamos: adiantando-nos com aquilo que, temos certeza, gostariam de ouvir ou receber, mesmo se não o manifestaram. Porém sem escutar o que nos dizem com o seu silêncio vai ser difícil acertar.
Dom Pedro José Conti – Bispo de Macapá
